TEMA a ser desenvolvido em um conto, em que dois amigos, discutem sobre os vários regimes e doutrinas políticas, que já foram implementados nas sociedades desde a antiguidade até aos dias atuais. Rogério Silva Ferreira, um sociólogo reconhecido e cético, quanto ao uso do poder, um anarquista, e Gabriel de Sá Osmundi, sanitarista com larga esperiência em comunidades pobres da periferia, um monarquista, descrente das democracias, que supostamente pretendem ser igualitárias, mas seguem rígidas regras da ogranização social em classes, e que concorda com a presença de uma elite que exerça o "poder de cima para baixo". Discutindo sobre os vários modelos políticos, que não resolveram as principais questões da História das sociedades, como Justiça, a injusta distribuição de renda, Saúde, Educação, Liberdade e problemas de emprego e servidão, passando pelo autoritarismo e ditaduras sangrentas.

Esse tema oferece um excelente ponto de partida para um conto filosófico, em que o conflito principal não está na ação física, mas no embate entre ideias. Para que a narrativa não se transforme em um tratado de ciência política, o ideal é que os argumentos surjam naturalmente durante uma conversa entre dois amigos, unidos pelo respeito mútuo, apesar das profundas divergências.

Uma possibilidade é construir o conto em torno de um encontro rotineiro, num fim de tarde, em uma antiga praça da cidade, onde Rogério e Gabriel costumam se reunir há décadas. Ambos já passaram dos sessenta anos e cultivam uma amizade rara: discutem quase tudo, mas jamais confundem discordância com inimizade.

O diálogo pode percorrer uma verdadeira viagem pela história das ideias políticas.


O ÚLTIMO REGIME

Todas as quintas-feiras, exatamente às cinco da tarde, Rogério Silva Ferreira e Gabriel de Sá Osmundi ocupavam o mesmo banco da Praça das Acácias.

Era um ritual antigo.

Compravam café na pequena padaria da esquina, alimentavam os pombos com migalhas de pão e conversavam até que as luzes da praça fossem acesas.

Quem os observasse de longe imaginaria dois aposentados falando sobre futebol.

Na verdade, discutiam o destino da humanidade.

Naquela tarde, Gabriel fechou lentamente um livro sobre história política.

— Sabe qual é o maior fracasso da civilização?

Rogério sorriu.

— Você vai dizer que é a democracia.

— Não. Vou dizer que é acreditar que algum regime político seja capaz de transformar seres humanos em criaturas justas.

Rogério acomodou os óculos.

— Curioso. Eu pensava exatamente o contrário.

— Então me explique.

— Todos os regimes fracassaram porque todos confiaram demais em quem exerce o poder.

Gabriel balançou a cabeça.

— Aí está o seu velho anarquismo.

— Não é anarquismo romântico. É sociologia.

Silêncio.

As folhas das árvores estremeceram sob um vento leve.

Gabriel retomou a conversa.

— Veja a Antiguidade.

Monarquias absolutas.

Impérios.

Reis considerados deuses.

Governavam dizendo representar a vontade divina.

Resultado?

Escravidão.

Guerras permanentes.

Miséria.

Rogério respondeu quase imediatamente.

— Depois vieram as repúblicas.

Também prometeram igualdade.

Criaram senadores, assembleias, constituições...

Mas continuaram escravizando povos inteiros.

Mudaram apenas o nome da elite.

Gabriel riu.

— Exatamente.

Mudaram os donos do poder.

Nunca eliminaram o poder.

Rogério tomou um gole de café.

— Depois vieram os impérios modernos.

Colonialismo.

Mercantilismo.

Exploração mundial.

Milhões morreram em nome da riqueza.

Gabriel completou:

— Em seguida apareceu o liberalismo.

Prometeu liberdade.

Produziu riqueza sem precedentes.

Mas também criou bairros onde alguns moravam em palácios enquanto milhares sobreviviam em cortiços.

— Foi quando Marx apareceu...

— Sim.

Prometendo igualdade.

Rogério olhou para o céu.

— E então vieram as revoluções.

Gabriel suspirou.

— Rússia.

China.

Camboja.

Coreia.

Cuba.

Todos diziam lutar pelo povo.

Todos produziram novas elites.

Algumas muito mais violentas que as antigas.

Rogério permaneceu alguns segundos calado.

— O curioso é que até as ditaduras militares sempre diziam defender a liberdade.

Gabriel respondeu:

— Todo autoritarismo nasce dizendo que será provisório.

Quase nunca é.

O silêncio voltou.

Duas crianças atravessavam a praça brincando de correr.

Rogério observou.

— E as democracias?

Gabriel sorriu discretamente.

— São excelentes para permitir alternância de grupos no poder.

Não necessariamente para distribuir o poder.

— Você realmente acredita na monarquia?

— Não na monarquia medieval.

Nem no direito divino.

Penso numa instituição permanente acima das disputas eleitorais.

Alguém que simbolize continuidade.

Que pense em décadas.

Não em quatro anos.

Rogério riu.

— Um rei filósofo?

— Talvez.

Platão já imaginava algo parecido.

— E se o rei for um idiota?

Gabriel respondeu sem hesitar.

— O povo também elege idiotas.

Os dois riram.

Era uma velha piada entre eles.

Depois Rogério falou lentamente.

— Eu continuo acreditando que todo poder concentra privilégios.

Quanto maior o Estado, maior a tentação.

Quanto maior a autoridade, maior o risco.

Sou anarquista porque desconfio profundamente de qualquer instituição que possa mandar em milhões de pessoas.

Gabriel olhou em direção ao hospital municipal, visível ao longe.

— Passei quarenta anos trabalhando nas periferias.

Vi comunidades onde não existia Estado.

Nem polícia.

Nem escola.

Nem posto de saúde.

Nem justiça.

O vazio do poder não produziu liberdade.

Produziu chefes locais.

Traficantes.

Milícias.

O poder nunca desaparece.

Apenas muda de mãos.

Rogério permaneceu em silêncio.

Aquela observação o incomodava.

Porque era verdadeira.

Depois de alguns minutos perguntou:

— Então qual seria o melhor regime?

Gabriel respondeu olhando os últimos raios do sol.

— Ainda não foi inventado.

— Nem será.

— Talvez.

— Porque o problema nunca foi o regime.

Gabriel virou-se para ele.

— Concordo.

Foi sempre o ser humano.

As luzes da praça acenderam.

Os dois permaneceram observando o movimento das pessoas.

Um vendedor ambulante anunciava pipocas.

Um casal de adolescentes discutia.

Uma senhora distribuía comida aos cães abandonados.

Rogério comentou em voz baixa:

— Já percebeu?

Passamos cinco mil anos tentando organizar governos.

Pouco tempo tentando organizar consciências.

Gabriel sorriu.

— Talvez seja porque seja mais fácil escrever constituições do que educar caráter.

Os dois levantaram-se.

Caminharam lentamente até a saída da praça.

Antes de se despedirem, Rogério fez a última pergunta.

— Você acredita que algum dia encontraremos o sistema político perfeito?

Gabriel respondeu sem parar de caminhar.

— Não.

Mas talvez encontremos uma sociedade suficientemente madura para que qualquer sistema funcione razoavelmente.

Rogério permaneceu imóvel, olhando a praça quase vazia.

Naquele instante compreendeu uma ideia que jamais admitiria em voz alta.

Talvez todas as revoluções da História tivessem tentado mudar governos, quando a verdadeira revolução sempre dependera de algo muito mais difícil: mudar a natureza moral do próprio homem.

E essa, concluiu silenciosamente, continuava sendo a única revolução que nenhuma ideologia havia conseguido realizar.

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