O JOGO DE XADREZ

O JOGO DE XADREZ 

Escrever um conto sobre dois idosos que jogam uma partida de xadrez, num pequeno bar, enquanto seus pensamentos divagam por lembranças da vida vivida, lembranças de outros tempos, quando sonhavam com o futuro e a realizalçai dos seus sonhos. Ernesto, o mais velho, narra para Paulo, recordação do grande amor de sua vida, morta num acidente de trânsito.

O JOGO DE XADREZ

O pequeno bar da esquina parecia resistir ao tempo como um velho soldado cansado. As paredes amareladas pela fumaça, o relógio antigo marcando horas lentas e o som distante de um rádio desafinado criavam um abrigo silencioso para homens esquecidos pelo mundo moderno.

Havia no ar o cheiro constante de café recém-passado misturado ao odor da madeira úmida das mesas antigas. De vez em quando, o vento frio que entrava pela porta trazia também o perfume da chuva caindo sobre o asfalto.

Num canto próximo à janela, Ernesto e Paulo jogavam xadrez.

O tabuleiro era antigo, gasto nas bordas, e algumas peças já não pertenciam ao conjunto original. Ainda assim, para os dois, aquele jogo era um ritual sagrado. Todas as tardes, depois do café, sentavam-se à mesma mesa de madeira e iniciavam uma batalha silenciosa, feita mais de memórias do que de estratégias.

O leve som seco das peças tocando o tabuleiro parecia marcar o ritmo lento daquela tarde.

Ernesto segurava um peão entre os dedos trêmulos.

— Sabe, Paulo… a vida é igual a esse jogo — disse ele, movendo a peça duas casas à frente. — Quando somos jovens, acreditamos que podemos conquistar o tabuleiro inteiro.

Paulo sorriu de leve.

— E depois descobrimos que as peças caem uma por uma.

O silêncio voltou a ocupar espaço entre eles.

Do lado de fora, a chuva fina deslizava pela vidraça. Pequenas gotas escorriam lentamente, distorcendo as luzes da rua como lembranças antigas.

Ernesto observou aquilo e seus pensamentos viajaram para muito longe dali, para uma rua iluminada por postes antigos, numa noite de verão de quase cinquenta anos atrás.

Lembrou-se de Helena.

Ela usava um vestido azul-claro e ria com os olhos. Ernesto ainda conseguia ouvir aquele riso ecoando dentro dele como música antiga. Conhecera Helena num baile de bairro quando ambos tinham pouco mais de vinte anos. Naquele tempo, o futuro parecia enorme, aberto, cheio de possibilidades.

Queriam viajar. Comprar uma casa perto do mar. Ter filhos. Plantar roseiras no quintal.

Sonhos simples.

— Ela adorava me ver jogar xadrez — comentou Ernesto de repente.

Paulo levantou os olhos do tabuleiro.

— Helena?

Ernesto assentiu.

— Dizia que eu pensava demais antes de agir… e talvez estivesse certa.

Moveu então o cavalo lentamente. A peça raspou de leve na madeira gasta do tabuleiro.

Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou.

O barulho da chuva aumentou. Ao fundo, alguém atrás do balcão lavava copos, e o tilintar do vidro misturava-se ao rádio antigo.

— Faz quantos anos? — perguntou Paulo.

Ernesto respirou fundo.

— Trinta e dois.

Trinta e dois anos desde o acidente.

Ainda conseguia lembrar daquela madrugada terrível. O telefone tocando. O hospital. O cheiro forte de álcool e desinfetante nos corredores frios. As luzes brancas refletindo no piso encerado. O médico evitando encará-lo diretamente.

Um caminhão desgovernado atravessara o sinal.

Helena morreu antes mesmo da ambulância chegar.

Ernesto nunca mais foi o mesmo.

Nos primeiros anos, tentou continuar vivendo normalmente. Trabalhou, pagou contas, encontrou amigos, mas tudo parecia vazio. Como um tabuleiro após o fim da partida.

— Às vezes acho que parte de mim morreu junto com ela — confessou.

Paulo observou o velho amigo com tristeza discreta.

Também carregava suas próprias ruínas. Um casamento fracassado. Um filho distante que raramente telefonava. Fotografias guardadas em gavetas que quase nunca tinha coragem de abrir.

A velhice, pensou ele, era uma espécie de museu de perdas.

Ernesto fitou o rei preto do adversário.

— Engraçado… quando éramos jovens, achávamos que o tempo nunca acabaria.

Paulo soltou uma pequena risada.

— E agora discutimos remédios, dores na coluna e partidas de xadrez.

— Ainda temos isso aqui.

Ernesto apontou o tabuleiro.

Paulo concordou em silêncio.

O jogo continuou lentamente.

Cada movimento parecia carregar décadas inteiras.

Lá fora, a chuva começou a cessar. Alguns raios de sol atravessaram as nuvens e iluminaram o interior do bar com uma luz dourada e cansada. A fumaça do café subia devagar das xícaras esquecidas sobre a mesa.

Ernesto olhou para aquela claridade e sorriu pela primeira vez naquela tarde.

— Helena gostava de dias assim.

Então sua mão pousou sobre a rainha.

Mas ele não moveu a peça imediatamente.

Ficou parado por alguns segundos, observando o tabuleiro em silêncio. Como se escutasse algo distante. Como se, por um instante, pudesse vê-la novamente sentada diante dele, apoiando o rosto nas mãos e sorrindo enquanto acompanhava a partida.

Ernesto fechou os olhos brevemente.

Depois respirou fundo e moveu a rainha com cuidado.

O leve som da peça deslizando na madeira ecoou entre os dois.

Xeque-mate.

Paulo encarou o tabuleiro e balançou a cabeça.

— Você ainda joga melhor quando fala dela.

Ernesto apoiou-se na cadeira, olhando para o vazio com serenidade.

Talvez certas pessoas nunca partissem completamente.

Talvez permanecessem escondidas nos pequenos gestos, no cheiro do café das tardes antigas, no som das peças de xadrez tocando o tabuleiro, nas lembranças repentinas e nas tardes silenciosas onde ainda era possível ouvir ecos do passado.

O relógio do bar marcou seis horas.

Os dois idosos permaneceram ali, em silêncio, enquanto a noite lentamente começava a cair sobre a cidade.

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Existe uma melancolia particular na velhice que não nasce apenas das dores do corpo ou da proximidade da morte, mas da lenta percepção de que o futuro vai deixando de existir como espaço de realização. O velho sofre menos pelo fim da vida do que pelo desaparecimento do amanhã como promessa. A juventude vive sustentada pela ilusão do que ainda poderá acontecer; a velhice, ao contrário, aprende a conviver com aquilo que já não acontecerá mais.

Em algum momento silencioso — impossível de determinar com precisão — o homem envelhecido percebe que já atravessou a maior parte de sua história. Não há anúncio para isso. Nenhuma revelação dramática. Apenas pequenos sinais acumulados: amigos que morrem, lugares que desaparecem, objetos que se tornam antigos, fotografias que começam a mostrar pessoas irreconhecíveis. Até o próprio espelho passa a devolver o rosto de alguém que parece carregar mais passado do que futuro.

O horizonte da vida então se encurta. Não se fazem mais planos para décadas; às vezes, nem mesmo para os próximos anos. O futuro deixa de ser uma construção imaginária e transforma-se apenas numa expectativa modesta de continuidade: sobreviver ao próximo inverno, atravessar mais um aniversário, acordar sem dores excessivas, conservar ainda alguma lucidez para reconhecer os rostos amados.

Talvez seja por isso que os velhos desenvolvam uma relação quase dolorosa com as horas. Quando o futuro desaparece, o tempo muda de natureza. Cada hora deixa de ser parte de um caminho longo e torna-se uma pequena unidade preciosa de sobrevivência. O jovem desperdiça dias porque acredita possuir um estoque infinito deles. O velho observa o relógio com outra consciência: sabe que cada tarde vivida é uma tarde a menos diante do mundo.

Há também uma solidão difícil de explicar. Não apenas a ausência das pessoas, mas a ausência de expectativa. A vida moderna parece girar em torno do desejo, da conquista, do que ainda virá. Tudo celebra o futuro: os estudos, os trabalhos, os projetos, os casamentos, os filhos, as viagens. O velho, porém, habita uma região do tempo onde quase nada mais começa. Muitas vezes, ele já viu o encerramento de quase tudo o que construiu. Os filhos cresceram; os amores envelheceram; os sonhos perderam a urgência; até as ambições parecem cansadas.

E então resta a memória.

A memória torna-se a última grande morada da velhice. O passado ganha mais densidade do que o presente. Os velhos repetem histórias porque vivem parcialmente dentro delas. Recontar antigas alegrias, antigos sofrimentos, antigos encontros, é uma maneira de revisitar um tempo em que o futuro ainda existia. Cada lembrança guarda não apenas aquilo que aconteceu, mas principalmente aquilo que ainda podia acontecer naquele tempo distante.

Por isso existe tanta tristeza escondida nos silêncios dos idosos. Muitas vezes, não é tristeza pela morte imediata, mas pela lenta evaporação das possibilidades. O velho percebe que já não espera grandes transformações da vida. Pouco resta a conquistar. Pouco resta a começar. O mundo continua se renovando para os outros, enquanto para ele as coisas passam a adquirir um aspecto de despedida permanente.

Até os objetos parecem mudar de significado. Uma cadeira antiga já não é apenas uma cadeira: é o lugar onde alguém costumava sentar. Uma música não é apenas uma música: é a sobrevivência de um tempo desaparecido. Um perfume atravessando a rua pode abrir subitamente uma porta invisível da memória e devolver, por alguns segundos, a presença de pessoas mortas há décadas. O velho vive cercado de fantasmas afetivos que o acompanham silenciosamente.

Talvez a maior crueldade da velhice seja justamente esta: continuar existindo quando o futuro interior começa a morrer antes do corpo. Porque o corpo ainda respira, ainda caminha lentamente, ainda desperta pela manhã; mas a imaginação do amanhã vai se apagando. E sem futuro, o tempo perde parte de sua direção. Os dias deixam de apontar para algum lugar. Passam apenas a repetir-se, como ondas cansadas quebrando sempre na mesma margem.

Ainda assim, há uma espécie de heroísmo discreto nos velhos. Mesmo privados das grandes esperanças, continuam vivendo. Alimentam plantas, observam o céu pela janela, alimentam pássaros, organizam fotografias, aguardam telefonemas, acompanham o movimento da rua. Pequenos gestos tornam-se formas silenciosas de resistência contra o vazio do tempo.

Porque talvez envelhecer seja exatamente isso: permanecer vivo quando o futuro já não oferece promessas, e descobrir, com dolorosa lucidez, que a existência humana pode continuar mesmo depois que os sonhos terminam.

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A Última Partida

O bar ficava numa esquina esquecida da cidade, desses lugares onde o tempo parecia ter desistido de correr. As paredes amarelecidas pela fumaça, o balcão de madeira gasto pelos cotovelos de gerações inteiras e o rádio antigo chiando boleros baixinho davam ao ambiente uma melancolia quase confortável.

Toda quinta-feira, perto das seis da tarde, Ernesto e Paulo ocupavam a mesma mesa ao fundo, debaixo do ventilador preguiçoso que girava como se pensasse duas vezes antes de continuar.

O tabuleiro de xadrez era velho. Algumas peças já tinham sido substituídas por outras incompatíveis: um bispo de plástico branco, um peão de madeira escura sem cabeça, uma rainha riscada pelo tempo. Ainda assim, os dois jogavam com solenidade, como se disputassem o destino do mundo.

Naquela noite, a chuva batia fina contra os vidros embaçados do bar.

Paulo mexeu um cavalo.

— Xeque.

Ernesto ergueu os olhos devagar. Os dedos trêmulos seguravam um copo pequeno de cachaça.

— Você sempre foi apressado — murmurou.

Paulo sorriu.

Tinham sido amigos desde meninos. Cresceram na mesma rua de terra, jogaram bola descalços, fumaram cigarros escondidos atrás da escola e prometeram conquistar o mundo antes dos trinta.

Agora estavam ambos perto dos oitenta.

E o mundo, descobriram tarde demais, era grande demais para ser conquistado.

Ernesto avançou um peão.

— Sabe do que eu lembro quando chove assim?

Paulo já conhecia o ritual. As partidas serviam menos para vencer e mais para escavar memórias.

— Da Helena.

Ernesto assentiu.

O nome pairou entre os dois como fumaça.

Helena.

Mesmo depois de quarenta anos, ainda havia algo delicado na maneira como Ernesto pronunciava aquelas sílabas.

— Ela odiava guarda-chuva — disse ele. — Dizia que chuva tinha que cair na pele da gente.

Paulo apoiou os braços na mesa.

Do lado de fora, um ônibus passou levantando água na rua.

— Você nunca me contou direito como foi.

Ernesto ficou em silêncio por um instante. Observou o tabuleiro como se procurasse as palavras entre as peças.

— Nós tínhamos vinte e três anos. Imagina isso… vinte e três. A idade em que a gente acha que a vida é infinita.

Ele sorriu de leve.

— Eu trabalhava na oficina do meu pai. Ganhava pouco, mas tinha planos enormes. Queria abrir minha própria mecânica, comprar uma casa grande… achava que até os quarenta já estaria rico.

— E ela?

— Ela queria viajar. Conhecer o mar do Nordeste, aprender francês… dizia que Paris tinha cheiro de pão quente e perfume caro.

Paulo riu baixo.

— Helena sempre foi sonhadora.

— Era. E eu amava isso nela. Porque eu… eu era duro demais. Prático demais. Helena fazia o mundo parecer maior.

Ernesto moveu a torre lentamente.

As gotas de chuva engrossaram lá fora.

— A gente ia casar em dezembro — continuou. — Já tinha até comprado as alianças. Baratinhas… mas ela usava como se fossem ouro.

O rádio do bar mudou para um samba antigo.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

Paulo percebeu que Ernesto olhava para algum lugar distante, muito além da fumaça, do tabuleiro e das paredes gastas.

— Foi numa noite assim — disse Ernesto. — Chovia muito. Eu estava esperando ela sair do trabalho. Helena atravessou a avenida correndo porque me viu do outro lado.

A mão dele parou sobre o rei.

— O carro apareceu rápido demais.

Paulo baixou os olhos.

Ernesto respirou fundo.

— O pior não é a lembrança do acidente. O pior é que, durante anos, eu fiquei lembrando das coisas pequenas. O jeito que ela prendia o cabelo. O jeito que ria cobrindo a boca. O cheiro do sabonete dela.

A voz falhou um pouco.

— A memória é cruel, Paulo. Ela não guarda os grandes acontecimentos. Guarda migalhas.

O amigo permaneceu quieto.

Sabia que existiam dores que não precisavam de respostas.

No balcão, o dono do bar enxugava copos enquanto fingia não ouvir.

Ernesto continuou:

— Depois que Helena morreu, eu parei de fazer planos. Trabalhei, envelheci… mas nunca mais imaginei futuro nenhum.

Paulo encarou o tabuleiro.

— E mesmo assim você continuou vivendo.

— A gente continua. Esse é o problema.

Os dois riram baixinho.

Uma risada cansada, de homens que já enterraram pais, irmãos, amigos, cachorros, ilusões e partes de si mesmos.

Paulo moveu o bispo.

— Sabe do que eu tenho saudade? — perguntou. — Da época em que tudo parecia começar.

Ernesto assentiu imediatamente.

— Ah… os começos.

Ficaram em silêncio outra vez.

Na juventude, pensavam que a felicidade seria uma chegada triunfal: dinheiro, sucesso, carros, viagens.

Agora, velhos, descobriam que os melhores momentos tinham sido outros.

As tardes sem pressa.

Os amigos vivos.

As mãos dadas.

As promessas impossíveis.

As noites em que ainda acreditavam que o tempo era infinito.

Ernesto olhou o tabuleiro e sorriu de canto.

— Engraçado… no fim, a vida é igual ao xadrez.

— Como assim?

— Você passa anos planejando movimentos brilhantes…

Ele segurou o rei entre os dedos.

— …mas termina tentando proteger o que sobrou.

Paulo ficou olhando para o amigo.

Havia naquela frase uma tristeza tão funda que parecia antiga como o próprio mundo.

A chuva começou a diminuir.

No rádio, alguém cantava sobre amores perdidos.

Ernesto então moveu a última peça.

— Xeque-mate.

Paulo observou o tabuleiro por alguns segundos e soltou uma gargalhada baixa.

— Desgraçado… eu nem vi.

Ernesto sorriu.

E por um breve instante, enquanto a fumaça dançava sob a luz amarela do bar, Paulo teve a impressão de que o amigo parecia jovem outra vez.

Como se Helena ainda estivesse viva em algum canto invisível da memória.

Como se o tempo, cansado de vencer sempre, tivesse decidido recuar uma única casa.

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Reflexão sobre o tempo e a velhice

A velhice talvez seja o tempo em que o futuro deixa de ser um território vasto e se transforma numa janela pequena, aberta apenas para o dia seguinte. Quando somos jovens, vivemos voltados para o que virá: os sonhos, os planos, os amores ainda não encontrados, os caminhos que imaginamos infinitos. O amanhã parece inesgotável. Há sempre tempo. Tempo para recomeçar, para mudar de vida, para pedir perdão, para amar melhor.

Mas os anos passam silenciosamente.

E chega um momento em que o homem percebe que o futuro já não lhe pertence da mesma maneira. Não porque deixe de existir esperança, mas porque a esperança muda de forma. Ela deixa de morar nas grandes conquistas e passa a sobreviver nas pequenas permanências: acordar sem dor, ouvir a voz de um amigo antigo, sentir o cheiro do café pela manhã, reconhecer ainda o próprio rosto no espelho.

A velhice é, de certo modo, uma lenta despedida do futuro.

Os projetos tornam-se menores. As viagens são adiadas indefinidamente. Muitos sonhos permanecem guardados numa gaveta invisível, não por covardia, mas porque o corpo já não acompanha os impulsos da alma. O tempo, antes abundante, torna-se matéria preciosa e frágil.

Então as lembranças começam a ocupar espaço.

E talvez seja essa a grande sobrevivência do velho: alimentar-se do passado para suportar a estreiteza do amanhã.

As recordações tornam-se abrigo. Um amor vivido há cinquenta anos ainda aquece noites solitárias. A voz da mãe morta continua ecoando dentro da memória. Amigos desaparecidos reaparecem inteiros em tardes silenciosas. Há uma estranha beleza nisso: aquilo que o tempo destrói na matéria, muitas vezes preserva na lembrança.

Os velhos passam a habitar dois mundos ao mesmo tempo — o presente breve e o passado interminável.

Por isso contam histórias repetidas. Não é distração apenas. É resistência. Enquanto a memória existe, parte da vida continua respirando. Cada lembrança narrada é uma tentativa de salvar do esquecimento aquilo que o tempo insiste em apagar.

E talvez exista certa sabedoria melancólica nisso tudo.

A juventude acredita que viver é acumular futuros. A velhice descobre que viver foi acumular instantes. Pequenos momentos aparentemente banais que, anos depois, revelam-se gigantescos: uma risada num bar antigo, uma mão segurada durante a chuva, uma despedida que ninguém sabia ser a última.

No fim, o velho compreende algo que o jovem jamais consegue entender completamente: a vida nunca esteve no amanhã. A vida sempre esteve nos dias comuns que passaram despercebidos enquanto se esperava por algo maior.

E assim seguem os idosos, caminhando devagar entre perdas e memórias, sustentando a alma com os fragmentos luminosos de tudo aquilo que um dia amaram.

mario moura

(do livro Pequenas histórias sem testemunhas)


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