SOBRE A IMBECILIDADE CONTEMPORÂNEA: um pequeno ensaio e um conto ilustrativo
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SOBRE A IMBECILIDADE CONTEMPORÂNEA Pequeno ensaio sobre o desastre cognitivo de uma geração
Talvez uma das doenças mais silenciosas do nosso tempo não esteja no corpo, mas na maneira como aprendemos a desejar.
Nunca tivemos tantos objetos, tantas possibilidades de escolha, tantos meios de comunicação, tanta informação disponível. E, no entanto, nunca pareceu tão difícil responder a uma pergunta elementar: para que estamos vivendo?
Alguma coisa se rompeu no caminho entre a necessidade e o desejo. O consumo deixou de ser apenas uma atividade econômica e passou a constituir uma forma de existência. Já não compramos somente aquilo de que precisamos. Compramos para compensar ausências, preencher silêncios, afirmar identidades, produzir pertencimento, anestesiar frustrações. O objeto deixou de ser objeto. Tornou-se promessa.
Promessa de felicidade.
De juventude.
De reconhecimento.
De poder.
De uma vida que, muitas vezes, não sabemos mais como viver.
O problema não está em possuir coisas. O problema começa quando as coisas passam a possuir o indivíduo.
O modelo econômico contemporâneo compreendeu algo extraordinariamente eficiente: um ser humano satisfeito consome menos. Por isso, é preciso mantê-lo permanentemente insatisfeito. A publicidade não vende apenas produtos; fabrica inadequações. Ela nos convence de que somos insuficientes, de que nossa casa é pequena, nosso corpo inadequado, nossa roupa ultrapassada, nosso carro velho, nossa experiência incompleta, nossa vida aquém da vida dos outros.
E então compramos.
Compramos não porque precisamos, mas porque fomos ensinados a sentir que precisamos.
A sociedade de consumo transformou a insatisfação em combustível econômico. Quanto maior a distância entre aquilo que somos e aquilo que imaginamos que deveríamos ser, maior a possibilidade de consumo. O indivíduo passa a trabalhar para comprar, compra para parecer, parece para ser reconhecido e busca reconhecimento para suportar uma existência da qual já não sabe exatamente o sentido.
É uma espécie de círculo vicioso civilizatório.
E talvez seja isso que possamos chamar, provocativamente, de imbecilidade contemporânea: não a ausência de inteligência, mas a incapacidade de utilizar a inteligência para questionar o modo de vida que nos foi imposto.
Nunca fomos tão informados e talvez nunca tenhamos refletido tão pouco.
Sabemos o preço de quase tudo e o valor de quase nada.
Conhecemos marcas, modelos, lançamentos, promoções, influenciadores, tendências e algoritmos. Sabemos o que comprar antes mesmo de saber por que desejamos comprar. Somos capazes de acompanhar em tempo real acontecimentos ocorridos do outro lado do planeta, mas frequentemente somos incapazes de compreender aquilo que acontece dentro de nós.
A inteligência foi convertida em instrumento de consumo.
A tecnologia, que poderia ampliar nossa liberdade, frequentemente amplia nossa distração. A informação, que poderia produzir conhecimento, transforma-se em ruído. As redes, que poderiam aproximar pessoas, muitas vezes transformam relações humanas em vitrines de comparação permanente.
Vivemos cercados de estímulos e pobres de silêncio.
E sem silêncio torna-se difícil pensar.
Talvez por isso a doença do consumo seja tão perigosa: ela não destrói apenas recursos naturais ou compromete o equilíbrio econômico. Ela pode produzir uma erosão da interioridade.
O indivíduo deixa progressivamente de perguntar quem é para perguntar o que deve possuir.
Deixa de perguntar o que deseja ser para perguntar como deseja parecer.
Deixa de construir uma existência para construir uma imagem de existência.
A vida passa a ser medida por aquilo que pode ser exibido.
Nesse cenário, até a felicidade corre o risco de transformar-se em mercadoria. Viaja-se para fotografar a viagem. Come-se para publicar a comida. Ama-se para provar que se é amado. Envelhece-se tentando esconder a idade. Trabalha-se para consumir. Consome-se para mostrar que se trabalha. E mostra-se tudo isso para convencer os outros — e talvez a nós mesmos — de que estamos vivendo.
Mas viver não é consumir experiências.
Viver é produzir significado.
Uma civilização que confunde desenvolvimento com acumulação corre o risco de se tornar tecnologicamente sofisticada e existencialmente primitiva.
Essa talvez seja uma das grandes contradições do nosso tempo: podemos saber cada vez mais sobre o mundo enquanto compreendemos cada vez menos aquilo que significa estar no mundo.
O problema, portanto, não é apenas econômico. É antropológico.
Que tipo de ser humano estamos produzindo?
Um ser humano livre ou um consumidor permanentemente condicionado?
Um cidadão ou um cliente?
Uma pessoa capaz de escolher ou alguém treinado para desejar aquilo que o mercado escolheu por ele?
A pergunta é incômoda porque atinge o fundamento da sociedade contemporânea. O sistema não precisa necessariamente impedir o pensamento. Basta ocupar todo o tempo disponível para que ele não aconteça.
É suficiente manter o indivíduo ocupado, distraído, endividado, comparando-se, desejando, comprando e descartando.
A grande vitória de um sistema de consumo não acontece quando alguém compra alguma coisa.
Acontece quando alguém passa a acreditar que não pode ser feliz sem comprá-la.
Talvez seja necessário recuperar uma palavra quase esquecida: suficiência.
Não como apologia da pobreza, nem como rejeição da tecnologia, do conforto ou do progresso, mas como capacidade de reconhecer o limite entre aquilo que melhora a vida e aquilo que apenas ocupa a vida.
Precisamos reaprender a distinguir necessidade de desejo, conforto de ostentação, experiência de espetáculo, liberdade de escolha e liberdade interior.
Precisamos recuperar o direito de não querer.
Porque talvez uma das formas mais profundas de liberdade seja poder olhar para aquilo que o mundo nos oferece e dizer:
não preciso disso para existir.
Uma sociedade verdadeiramente civilizada não deveria ser aquela capaz de produzir infinitamente mais coisas, mas aquela capaz de produzir seres humanos menos dependentes delas.
Talvez o verdadeiro progresso comece quando deixarmos de perguntar quanto podemos consumir e voltarmos a perguntar quanto de humanidade ainda queremos preservar.
Porque o maior perigo não é que o homem venha a possuir demasiadas coisas.
É que, depois de possuir tantas coisas, descubra que já não possui a si mesmo.
SOBRE A IMBECILIDADE CONTEMPORÂNEA
O consumidor possessivo e a lenta perda da humanidade
Há uma forma de violência que não precisa de armas, prisões ou censura. Ela acontece silenciosamente quando uma sociedade consegue convencer seus indivíduos de que aquilo que possuem é mais importante do que aquilo que são.
Talvez seja essa uma das características mais perturbadoras da contemporaneidade.
O homem moderno não é necessariamente mais ignorante que seus antepassados. Ao contrário: dispõe de uma quantidade extraordinária de informação, recursos tecnológicos e possibilidades de acesso ao conhecimento. Entretanto, informação não produz necessariamente consciência. Uma sociedade pode tornar-se extraordinariamente sofisticada em seus instrumentos e permanecer profundamente primitiva na maneira como compreende a própria existência.
É nesse paradoxo que surge aquilo que podemos chamar, provocativamente, de imbecilidade contemporânea.
Não se trata da falta de inteligência individual. Trata-se de uma condição sociopsicológica na qual a inteligência é progressivamente subordinada à lógica do consumo, da aparência, da competição e da acumulação. O indivíduo continua pensando, mas passa a pensar dentro de categorias que já lhe foram fornecidas. Continua escolhendo, mas frequentemente escolhe entre alternativas previamente produzidas pelo mercado.
A liberdade permanece formalmente intacta enquanto sua imaginação é colonizada.
O nascimento do consumidor possessivo
Durante muito tempo, possuir coisas significava, sobretudo, satisfazer necessidades, garantir segurança ou demonstrar poder. A propriedade tinha uma função econômica, social e política relativamente definida.
O capitalismo contemporâneo acrescentou outra dimensão: a propriedade tornou-se identidade.
Não basta possuir. É preciso ser alguém através daquilo que se possui.
O indivíduo começa então a construir uma espécie de autobiografia material: o carro que dirige, a casa em que mora, a roupa que veste, o restaurante que frequenta, o telefone que utiliza, os lugares que visita, os objetos que exibe.
Surge, assim, uma nova figura antropológica: o consumidor possessivo.
Ele não é simplesmente aquele que compra muito.
É aquele que precisa possuir para sentir que existe.
O objeto deixa de cumprir uma função e passa a cumprir uma função psicológica. Ele oferece segurança, distinção, pertencimento, reconhecimento e, sobretudo, a sensação provisória de que a vida está sob controle.
O consumidor possessivo não compra apenas uma coisa. Compra a narrativa que acompanha a coisa.
Um automóvel pode significar liberdade. Uma roupa pode significar juventude. Uma casa pode significar sucesso. Um relógio pode significar prestígio. Uma viagem pode significar felicidade. Um aparelho eletrônico pode significar modernidade.
O objeto torna-se uma linguagem.
E o mercado aprende a falar essa linguagem com extraordinária eficiência.
A fabricação social da insuficiência
Para que o consumidor continue comprando, é necessário que ele nunca esteja completamente satisfeito.
Essa talvez seja uma das engrenagens psicológicas mais sofisticadas da sociedade de consumo: transformar a insuficiência em necessidade permanente.
A publicidade raramente diz apenas: "compre isto".
Ela diz, de maneira muito mais sutil:
Você poderia ser mais bonito.
Mais jovem.
Mais desejado.
Mais admirado.
Mais moderno.
Mais bem-sucedido.
Mais feliz.
E então apresenta o produto como solução.
O consumo passa a ocupar o espaço que antes pertencia à reflexão, à experiência, à convivência e à construção interior.
O indivíduo deixa de perguntar:
"O que realmente preciso?"
E passa a perguntar:
"O que preciso possuir para ser aquilo que esperam que eu seja?"
É uma mudança aparentemente pequena, mas antropologicamente devastadora.
Porque, quando a identidade depende da posse, a pessoa fica permanentemente vulnerável à comparação.
Sempre haverá alguém com uma casa maior, um carro mais caro, um corpo mais jovem, uma viagem mais exótica, uma roupa mais sofisticada, uma vida aparentemente mais interessante.
A sociedade transforma a existência numa competição sem linha de chegada.
O mercado descobriu a fragilidade humana
O capitalismo não inventou a vaidade, a inveja, a ambição ou o desejo de reconhecimento. Essas características acompanham a história humana.
Sua genialidade foi outra: aprender a transformar fragilidades humanas em mecanismos econômicos.
A insegurança virou mercado.
A solidão virou mercado.
O medo do envelhecimento virou mercado.
A necessidade de pertencimento virou mercado.
A insatisfação com o próprio corpo virou mercado.
O desejo de reconhecimento virou mercado.
Até a busca espiritual pode transformar-se em produto.
O sistema econômico não precisa destruir nossos desejos. Ao contrário: precisa ampliá-los.
O consumidor perfeito é aquele que nunca chega.
Nunca chega à casa ideal.
Nunca chega ao corpo ideal.
Nunca chega ao sucesso ideal.
Nunca chega à felicidade ideal.
Porque, no instante em que chegasse, deixaria de consumir.
A insatisfação, portanto, deixa de ser um acidente psicológico e passa a funcionar como combustível econômico.
O objeto que possui o proprietário
Existe uma ironia profunda na relação contemporânea com os objetos.
Pensamos que possuímos coisas.
Mas muitas vezes são elas que passam a nos possuir.
A casa exige manutenção.
O automóvel exige financiamento.
O celular exige atualização.
A aparência exige investimento.
O padrão de vida exige renda.
A renda exige trabalho.
O trabalho exige tempo.
E o tempo, uma vez entregue ao sistema, não retorna.
Chegamos então a uma inversão silenciosa:
trabalhamos para possuir coisas que nos obrigam a trabalhar ainda mais.
A propriedade, que deveria ampliar a liberdade, pode transformar-se em obrigação.
O indivíduo compra uma vida que depois precisa trabalhar para sustentar.
E talvez essa seja uma das formas mais sofisticadas de alienação contemporânea: não perceber que aquilo que imaginávamos adquirir para viver melhor está, progressivamente, determinando como devemos viver.
Quando consumir substitui viver
A sociedade de consumo não vende apenas objetos. Ela vende experiências.
Viaje.
Experimente.
Conheça.
Coma.
Descubra.
Registre.
Publique.
Compartilhe.
O problema não está em viajar, comer ou experimentar. O problema aparece quando a experiência deixa de ser vivida para ser convertida em prova de que foi vivida.
A fotografia passa a ser mais importante que a paisagem.
A publicação mais importante que o encontro.
A avaliação mais importante que a experiência.
A visibilidade mais importante que a memória.
É como se a vida precisasse de testemunhas para adquirir realidade.
E aqui encontramos outra dimensão da imbecilidade contemporânea: a substituição da experiência pela sua representação.
Não basta viver.
É preciso mostrar que se vive.
Não basta ser feliz.
É preciso parecer feliz.
Não basta amar.
É preciso demonstrar publicamente que se é amado.
O indivíduo torna-se simultaneamente pessoa e vitrine.
A sociedade da comparação permanente
A antiga comparação acontecia entre pessoas relativamente próximas.
Hoje, um indivíduo pode comparar sua existência com milhares de outras vidas antes mesmo do café da manhã.
E existe um problema fundamental nisso: ele compara sua vida real com a versão editada da vida alheia.
O resultado é previsível.
Insatisfação.
Ansiedade.
Sensação de fracasso.
Desejo de compensação.
E, finalmente, consumo.
O circuito sociopsicológico é perversamente eficiente:
comparação > insuficiência > desejo > consumo > satisfação temporária > nova comparação.
O indivíduo acredita estar buscando felicidade, quando muitas vezes, está apenas tentando reduzir a dor provocada pela comparação.
A perda da interioridade
Talvez a consequência mais grave desse processo não seja econômica.
É existencial.
Uma pessoa permanentemente estimulada perde progressivamente a capacidade de permanecer consigo mesma.
O silêncio incomoda.
A espera incomoda.
O tédio incomoda.
A solidão incomoda.
É necessário preencher cada intervalo.
Uma tela.
Uma compra.
Uma mensagem.
Um vídeo.
Uma notícia.
Uma promoção.
Uma distração.
A interioridade começa a parecer um espaço vazio que precisa ser imediatamente ocupado.
Mas é justamente no silêncio que frequentemente surgem as perguntas fundamentais:
Quem sou?
O que desejo?
O que realmente importa?
Que tipo de vida quero construir?
O que estou fazendo com meu tempo?
O que permanecerá de mim quando aquilo que possuo deixar de existir?
Uma sociedade que não permite essas perguntas produz indivíduos extremamente ocupados e profundamente desorientados.
O consumidor possessivo como personagem do nosso tempo
O consumidor possessivo talvez seja uma das figuras mais emblemáticas da nossa época.
Ele não é necessariamente rico.
Pode estar endividado.
Não compra porque pode.
Compra porque precisa sentir que pode.
Seu desejo de possuir cresce justamente quando sua sensação de insuficiência cresce.
Ele não quer apenas coisas.
Quer aquilo que imagina que as coisas dizem sobre ele.
Por isso, seu consumo é também uma tentativa de construção do eu.
Ele compra uma identidade pronta porque construir uma identidade própria exige algo que o mercado não pode vender: tempo, reflexão, experiência, sofrimento, maturidade e consciência.
O mercado oferece atalhos.
A humanidade exige caminho.
A pobreza de uma sociedade rica em objetos
Talvez devêssemos começar a perguntar se uma sociedade pode ser materialmente rica e humanamente pobre.
Pode.
Uma casa pode estar cheia de objetos, e vazia de conversa.
Uma mesa pode estar cheia de comida, e vazia de convivência.
Uma agenda pode estar cheia de compromissos, e vazia de sentido.
Um telefone pode estar cheio de contatos, e uma pessoa permanecer profundamente solitária.
Uma vida pode estar cheia de aquisições, e vazia de significado.
É essa contradição que precisamos enfrentar.
O problema não é possuir. É quando possuir passa a substituir ser.
O problema não é consumir. É quando consumir passa a determinar quem somos.
O problema não é desejar. É quando nossos desejos deixam de nascer de nós mesmos.
Recuperar a humanidade
Talvez a resistência ao consumidor possessivo não esteja em abandonar o mundo, rejeitar a tecnologia ou romantizar a pobreza.
Está em recuperar a capacidade de estabelecer limites.
Aprender novamente a palavra suficiente.
Suficiente não significa pouco. Significa aquilo que basta para que a vida não seja subordinada às coisas.
Precisamos reaprender a distinguir conforto de dependência, desejo de necessidade, liberdade de poder de compra, felicidade de aquisição.
Precisamos recuperar a capacidade de desejar coisas que não podem ser compradas.
Amizade.
Tempo.
Conhecimento.
Memória.
Afeto.
Solidariedade.
Contemplação.
Sabedoria.
Atenção.
Presença.
Nenhuma dessas coisas cabe numa vitrine. E talvez seja justamente por isso que sejam tão importantes.
A grande pergunta do nosso tempo não deveria ser: "Quanto podemos possuir?"
Deveria ser: "Quanto podemos possuir sem permitir que aquilo que possuímos destrua aquilo que somos?"
Porque talvez o verdadeiro desastre cognitivo da contemporaneidade, não seja termos nos tornado menos inteligentes.
É termos nos tornado inteligentes demais, para produzir tantas coisas e pouco conscientes para perguntar, por que precisamos de tantas delas.
O futuro da humanidade talvez dependa menos daquilo que conseguiremos inventar, do que daquilo que conseguiremos recusar.
Recusar o excesso. Recusar a comparação permanente. Recusar a felicidade como mercadoria. Recusar a identidade como vitrine. Recusar a ideia de que uma vida vale mais porque custa mais. E, sobretudo, recusar a transformação do ser humano, em consumidor de si mesmo.
Porque talvez a última fronteira da liberdade seja justamente esta:
possuir coisas sem precisar ser possuído por elas.
E talvez a verdadeira civilização comece quando descobrirmos que ser humano é uma experiência muito maior do que ter coisas suficientes para parecer humano.
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UM CONTO SOBRE A IMBECILIDADE CONTEMPORÂNEA
A cidade acordava cedo.
Não porque as pessoas tivessem alguma coisa importante a fazer, mas porque era preciso chegar cedo ao trabalho, produzir, receber o salário e, no fim do mês, comprar aquilo que a publicidade já havia decidido que elas precisavam.
Era assim todos os dias.
Milhares de pessoas atravessavam as ruas com os olhos fixos nas pequenas telas que carregavam nas mãos. Algumas caminhavam sem perceber quem vinha em sentido contrário. Outras atravessavam a rua sem olhar para os carros. Muitas não levantavam os olhos sequer diante de uma criança, de uma árvore florida ou de um velho sentado sozinho num banco.
A cidade estava cheia de informação.
E vazia de atenção.
Foi numa manhã de segunda-feira que o professor Elias percebeu, pela primeira vez, que alguma coisa havia mudado definitivamente.
Ele tinha setenta anos e passara quase toda a vida ensinando História.
Naquela manhã, entrou numa grande loja de departamentos apenas para comprar uma lâmpada.
Enquanto esperava no caixa, observou a fila.
Uma mulher segurava três sacolas.
Um homem carregava uma televisão enorme.
Uma adolescente abraçava uma caixa de sapatos.
Um menino pedia um brinquedo.
A mãe dizia:
— Você já tem um igual.
— Mas eu quero esse.
— Por quê?
O menino respondeu sem hesitar:
— Porque todo mundo tem.
Elias ficou olhando para ele.
A frase pareceu-lhe mais importante do que deveria.
Todo mundo tem.
Era talvez a sentença que melhor explicava aquela época.
As pessoas já não compravam porque precisavam.
Compravam porque os outros compravam.
Não escolhiam porque desejavam.
Desejavam porque alguém lhes havia ensinado o que desejar.
Não precisavam de coisas.
Precisavam da sensação de possuir coisas.
Havia uma diferença enorme entre essas duas necessidades.
E quase ninguém parecia percebê-la.
Na saída da loja, Elias encontrou seu velho amigo Augusto, professor de Filosofia, sentado num café.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou Elias.
— Esperando você.
— Como sabia que eu viria?
Augusto sorriu.
— Você sempre vem aqui às segundas-feiras.
Sentaram-se.
Por alguns minutos, ficaram em silêncio.
À frente deles, a cidade passava.
— Você percebeu? — perguntou Elias.
— O quê?
— Nós conseguimos colocar um computador dentro de um relógio, mandar uma mensagem para alguém do outro lado do planeta em menos de um segundo, fotografar uma galáxia distante, conversar com uma máquina que responde perguntas e enviar uma sonda para fora do sistema solar.
Augusto bebeu um pouco de café.
— E?
— E continuamos discutindo na internet por causa de futebol, política, celebridades e coisas que não sabemos.
Augusto riu.
— Você está descobrindo isso só agora?
— Não. Estou começando a compreender.
— E qual é a conclusão?
Elias olhou novamente para a rua.
— Ficamos tecnologicamente sofisticados e intelectualmente infantis.
Augusto não respondeu.
A frase ficou entre os dois.
Depois de algum tempo, disse:
— Talvez tenhamos confundido inteligência com capacidade.
Elias franziu a testa.
— Explique.
— Uma sociedade pode ser extraordinariamente capaz e profundamente estúpida.
— Como?
— Porque inteligência não é apenas aquilo que conseguimos fazer. É também saber por que fazemos.
Elias ficou em silêncio.
Era exatamente isso.
A humanidade havia aprendido a fabricar quase tudo.
Mas esquecera de perguntar para quê.
Naquela tarde, Elias decidiu fazer uma experiência.
Entrou em uma grande rede de supermercado.
Não precisava comprar nada.
Queria apenas observar.
Passou pelos corredores.
Havia produtos para emagrecer, produtos para rejuvenescer, produtos para perfumar a casa, produtos para perfumar o corpo, produtos para melhorar o humor, produtos para aumentar a produtividade, produtos para dormir, produtos para acordar.
Havia objetos para organizar objetos.
Máquinas para substituir tarefas que as pessoas já não tinham tempo de fazer.
Havia alimentos vendidos como experiências.
Experiências vendidas como mercadorias.
Felicidade em embalagens.
Juventude em frascos.
Status em caixas.
Desejo em promoção.
No corredor dos eletrônicos, Elias parou diante de uma televisão gigantesca.
Um anúncio dizia:
VOCÊ MERECE MAIS.
Ele ficou olhando.
Mais o quê?
Mais televisão?
Mais velocidade?
Mais objetos?
Mais distração?
Mais necessidade?
Mais dívida?
Mais comparação?
Mais ansiedade?
A propaganda não dizia.
Porque talvez essa fosse a grande inteligência do sistema: nunca explicar o que significa "mais".
Bastava fazer com que ninguém aceitasse o "suficiente".
Naquela noite, Elias voltou para casa.
Abriu a porta do apartamento.
Olhou ao redor.
Tinha livros.
Centenas.
Alguns comprados havia décadas.
Outros nunca lidos.
Tinha fotografias antigas.
Uma poltrona.
Uma mesa.
Uma pequena varanda.
E, principalmente, tinha silêncio.
Sentou-se.
Percebeu que o silêncio havia se tornado uma espécie de luxo.
As pessoas tinham medo dele.
Precisavam de música, televisão, notificações, vídeos, mensagens, notícias, comentários.
Qualquer coisa que impedisse o encontro consigo mesmas.
Elias compreendeu então algo ainda mais perturbador:
talvez o consumo não servisse apenas para vender coisas.
Servia para impedir que as pessoas percebessem o vazio que as coisas não conseguiam preencher.
Quanto maior o vazio, maior o consumo.
Quanto maior o consumo, maior a necessidade de trabalhar.
Quanto maior a necessidade de trabalhar, menor o tempo para pensar.
Quanto menor o tempo para pensar, maior a dependência daquilo que os outros pensavam por elas.
E então o círculo estava completo.
Produzir.
Consumir.
Distrair.
Repetir.
No dia seguinte, Elias encontrou Augusto novamente.
— Descobri uma coisa — disse.
— Isso é perigoso na nossa idade.
Elias sorriu.
— Descobri que talvez a nossa maior tragédia não seja termos criado uma sociedade de consumo.
— E qual seria?
— Termos criado uma sociedade na qual consumir passou a ser uma forma de existir.
Augusto ficou sério.
— Isso é mais grave.
— Muito mais.
— Porque, quando uma pessoa compra alguma coisa, ela possui o objeto. Mas quando transforma o consumo em identidade, é o objeto que começa a possuí-la.
Elias olhou para o amigo.
— Exatamente.
Ficaram novamente em silêncio.
Ao redor deles, pessoas fotografavam seus cafés antes de beber.
Casais sentavam juntos sem conversar.
Amigos mostravam uns aos outros aquilo que acabavam de encontrar nas redes.
Um homem, sentado sozinho, sorria para uma tela.
Elias perguntou:
— Você acha que as pessoas são felizes?
Augusto demorou a responder.
— Algumas são.
— E as outras?
— Confundiram felicidade com satisfação.
— Qual a diferença?
— A satisfação termina quando conseguimos o que queríamos. A felicidade começa quando descobrimos por que estamos vivos.
Elias abaixou os olhos.
— Então estamos em apuros.
Meses depois, os dois professores começaram a fazer pequenas palestras gratuitas em praças.
Não falavam de política.
Não falavam de religião.
Não falavam de dinheiro.
Falavam de coisas que pareciam ter desaparecido.
Tempo.
Amizade.
Morte.
Solidão.
Memória.
Amor.
Silêncio.
Propósito.
No início, quase ninguém aparecia.
Depois vieram cinco pessoas.
Depois dez.
Certa tarde, uma menina perguntou:
— Professor, o que é uma vida boa?
Elias olhou para Augusto.
Augusto olhou para Elias.
Nenhum dos dois tinha uma resposta pronta.
E isso foi talvez o melhor que poderiam fazer.
— Não sabemos — disse Elias.
A menina pareceu decepcionada.
— Vocês são professores.
— Justamente por isso — respondeu Augusto. — Aprendemos que algumas perguntas são grandes demais para caber numa resposta.
A menina pensou.
— Então como a gente descobre?
Elias sorriu.
— Começando a desconfiar das respostas que o mundo já deu por você.
Anos depois, Elias morreu.
Augusto encontrou, entre os papéis do amigo, uma pequena anotação.
Havia apenas uma frase:
"Talvez a verdadeira imbecilidade de nosso tempo não seja não saber. Seja não querer saber aquilo que poderia nos obrigar a mudar."
Augusto levou o papel consigo.
Naquela noite, caminhou pela cidade.
As vitrines continuavam iluminadas.
As pessoas continuavam comprando.
Os anúncios continuavam prometendo felicidade.
As telas continuavam brilhando.
E a humanidade continuava correndo.
Mas, pela primeira vez, Augusto percebeu uma coisa que lhe pareceu quase esperançosa.
No meio daquela multidão apressada, havia algumas pessoas paradas.
Um homem conversava com uma mulher sem olhar para o telefone.
Uma mãe brincava com o filho.
Um velho observava o pôr do sol.
Dois amigos riam sentados num banco.
Uma jovem lia um livro.
Nada daquilo estava à venda.
E talvez fosse justamente por isso que ainda pudesse salvar alguma coisa.
Augusto compreendeu então que a civilização não havia perdido completamente a capacidade de pensar.
Ela apenas havia esquecido.
E talvez esquecer fosse diferente de morrer.
Antes de voltar para casa, ele olhou para a cidade e pensou nos dois grandes mestres que haviam acompanhado a humanidade durante séculos: a necessidade e o desejo.
A necessidade dizia:
preciso.
O desejo dizia:
quero.
O mercado acrescentara uma terceira palavra:
mereço.
E talvez fosse aí que começasse a loucura.
Porque uma sociedade que transforma tudo em merecimento transforma também o supérfluo em direito, o desejo em necessidade e a posse em identidade.
E, quando já não sabemos distinguir o necessário do inútil, o essencial do acessório, o desejo da manipulação, começamos a viver uma existência que parece cheia por fora e absolutamente vazia por dentro.
Augusto caminhou lentamente.
Não comprou nada.
Naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, sentiu que havia feito uma aquisição extraordinária.
Tinha recuperado uma coisa que não podia ser vendida:
a consciência de que não precisava de quase nada daquilo que lhe ensinaram a desejar.
E descobriu, caminhando sozinho pela cidade iluminada, que talvez a última resistência possível contra a imbecilidade contemporânea fosse uma coisa muito simples:
aprender novamente a desejar uma vida que não possa ser comprada.
Mario Moura
do livro Pequenas Histórias sem Testemunhas
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