O ÚLTIMO REGIME II

 O ÚLTIMO REGIME  II

Capítulo – A Civilização que Sobreviveu a Si Mesma

Roberval permaneceu alguns minutos em silêncio.  A biblioteca parecia respirar junto com eles. Nas estantes, milhares de anos de História observavam dois homens, tentando responder à pergunta, que talvez tivesse acompanhado toda a humanidade, desde a primeira cidade cercada por muralhas.

— Gabriel... você realmente acredita que um dia existirá uma sociedade sem dominadores?

Gabriel não respondeu imediatamente.

Levantou-se, caminhou até a janela e observou a cidade.

Lá embaixo, pessoas atravessavam as ruas, sem imaginar que carregavam dentro de si, milhões de anos de herança biológica moldada pela escassez, pelo medo e pela competição.

— Não — respondeu finalmente. — Não acredito numa sociedade sem conflitos. Acredito numa sociedade, em que o conflito deixe de produzir violência.

Roberval sorriu discretamente.

— Isso muda tudo.

— Exatamente.

Durante quase toda a História, explicou Gabriel, cada avanço tecnológico ampliou a capacidade de destruir.

O bronze produziu espadas.

O ferro construiu impérios.

A pólvora transformou guerras em massacres.

A indústria fabricou exércitos.

A energia nuclear, tornou, possível eliminar cidades inteiras.

A inteligência artificial, começou a substituir o próprio julgamento humano.

A História parecia obedecer a uma lei perversa: toda inteligência criada pela civilização, era rapidamente apropriada pela lógica da dominação.

— Talvez — disse Roberval — porque nunca evoluímos moralmente, na mesma velocidade em que evoluímos tecnicamente.

Gabriel concordou.

— Esse foi o grande atraso da espécie.

Durante séculos, acreditou-se que bastaria mudar os governos.

Trocar reis por presidentes.  Presidentes por assembleias.  Assembleias por partidos.  Partidos por movimentos populares.  Nada disso eliminou a violência.  Mudavam-se os administradores do poder.  O poder permanecia idêntico.  Sempre baseado na possibilidade, de impor uma vontade sobre outra.

Foi somente no final do século XXI, que alguns pensadores começaram a formular uma hipótese radical.

Talvez o problema não fosse o regime.  Talvez fosse a arquitetura psicológica da civilização.

Os primeiros estudos vieram da neurociência.  Descobriu-se que boa parte das decisões políticas, era produzida por mecanismos emocionais ancestrais.  Medo.  Pertencimento.  Aversão ao diferente.  Busca por status. Necessidade de reconhecimento.

O eleitor imaginava escolher racionalmente.  Na realidade, respondia a circuitos cerebrais muito anteriores, ao surgimento da democracia.  Essa descoberta alterou completamente a filosofia política.

Percebeu-se que nenhuma Constituição seria suficiente, enquanto o cérebro humano continuasse organizado, para sobreviver num ambiente de escassez permanente.

Era necessário construir instituições, capazes de reduzir sistematicamente, os estímulos que alimentavam o medo coletivo.

A primeira transformação ocorreu na educação.

Durante milhares de anos, ensinar significou transmitir informações.  Depois passou a significar, desenvolver competências profissionais.  No novo século, educar passou a significar compreender a própria mente.

As crianças aprendiam, desde cedo:  como nasce um preconceito;  como funciona uma manipulação emocional;  como identificar discursos de ódio; como reconhecer uma mentira confortável;  como admitir um erro, sem sentir humilhação;  como mudar de opinião, sem considerar isso uma derrota.

A alfabetização emocional, tornou-se tão importante, quanto aprender matemática.

Não porque as pessoas se tornaram mais sensíveis.  Mas porque descobriram, que a maior parte das guerras, começava dentro das emoções individuais, antes de alcançar as fronteiras dos países.

A segunda mudança ocorreu na economia.  Durante séculos, riqueza significou acumulação.  Quanto maior a concentração de recursos, maior o prestígio.

No entanto, quando a automação eliminou grande parte do trabalho humano, tornou-se evidente, que uma economia baseada apenas na competição, produziria milhões de pessoas descartáveis.

Foi necessário redefinir o conceito de prosperidade.

A riqueza deixou de ser medida apenas pelo patrimônio.  Passou a incluir tempo livre.  Saúde.  Conhecimento.  Qualidade das relações humanas.  Equilíbrio ambiental.  Confiança social.

Uma sociedade em que poucos acumulavam fortunas, enquanto milhões viviam inseguros, deixou de ser considerada eficiente.

Era vista como tecnologicamente atrasada.

A terceira mudança foi talvez a mais difícil.

O poder tornou-se temporário.  Nenhuma pessoa poderia permanecer tempo suficiente, numa posição capaz de moldar instituições, segundo seus interesses.

Os próprios cidadãos eram auxiliados por sistemas de inteligência artificial, transparentes, públicos e permanentemente auditados.  Essas inteligências não governavam.  Impediam que alguém governasse acima das regras.

Pela primeira vez, o poder passou a ser fiscalizado por mecanismos incapazes de desejar riqueza, prestígio ou vingança.  A tecnologia deixou de servir ao governante.  Passou a servir às limitações humanas.

Mas nada disso teria sido suficiente, sem a maior revolução de todas.  A transformação cultural.

A civilização compreendeu, que havia confundido grandeza com superioridade.

Os heróis deixaram de ser conquistadores.  Os livros de História começaram a celebrar conciliadores.  Os monumentos já não homenageavam apenas generais.  Também lembravam professores.  Médicos.  Cientistas.  Filósofos.  Mediadores de conflitos.  Pessoas comuns, que haviam evitado guerras silenciosas, dentro de suas próprias comunidades.

A admiração coletiva mudou de direção.

E quando muda o que uma sociedade admira, muda lentamente o que seus jovens desejam tornar-se.

Roberval ouviu tudo atentamente.

Depois perguntou:

— Então, o Último Regime não era uma nova forma de governo...

Gabriel sorriu.

— Não.

Era o último regime psicológico da humanidade.  O regime da dominação.

Todos os anteriores haviam sido apenas, suas diferentes máscaras.

Quando a civilização compreendeu, que o verdadeiro inimigo não era o rei, nem o parlamento, nem o partido, nem o mercado, mas a necessidade permanente de transformar diferenças, em relações de poder, começou uma nova História.

Não foi o fim da política.  Foi o fim da política baseada na ameaça.

Não foi o desaparecimento das divergências.  Foi o nascimento de uma cultura capaz de conviver com elas.

Talvez aquela, fosse a primeira civilização que não se definia por suas armas, suas fronteiras ou seus impérios.  Definia-se pela capacidade inédita, de impedir que o medo governasse o destino coletivo.

E foi então que os historiadores do século XXIV, escreveram uma frase que intrigaria gerações futuras:

"A humanidade não encontrou a paz, quando venceu seus inimigos.  Encontrou-a, quando deixou de precisar inventá-los."


CAPÍTULO — DEPOIS DO ÚLTIMO REGIME

Gabriel permaneceu alguns minutos em silêncio.

O vento atravessava as árvores da praça, enquanto crianças brincavam sem perceber que, naquele banco, dois homens discutiam, não apenas a política, mas talvez o destino da própria espécie.

— Então... — perguntou Gabriel. — Se um dia todos os regimes desaparecerem, o que restará?

Roberval sorriu discretamente.

— A pergunta correta é outra.

— Qual?

— O que acontece, quando a humanidade vence a luta pelo poder?

Gabriel franziu a testa.

— Nunca pensei nisso!

— Quase ninguém pensa. Toda a História foi escrita, como se o conflito político fosse permanente. Mas imagine que, daqui a quatro ou cinco séculos, guerras nacionais tenham desaparecido. Não existam mais Estados competindo entre si. Não haja fome, nem miséria extrema, nem disputas territoriais.

— Uma civilização planetária.

— Exatamente.

— E seria o fim da História?

Roberval balançou lentamente a cabeça.

— Não. Seria apenas o fim da pré-história política da humanidade.

Gabriel permaneceu atento.

— O verdadeiro problema começaria depois.

— Depois?

— Sim. Porque vencer a violência não significa saber administrar uma civilização capaz de modificar a própria realidade.

Fez uma pausa.

— Imagine inteligências artificiais autoconscientes reivindicando direitos políticos.

— Máquinas cidadãs?

— Talvez nem possamos mais chamá-las de máquinas.

Gabriel permaneceu imóvel.

— Imagine seres humanos geneticamente modificados vivendo trezentos anos.

— Ou mil...

— Imagine pessoas capazes de transferir sua consciência para suportes artificiais.

— Ou misturar mente biológica com mente sintética.

— Imagine colônias humanas espalhadas por Marte, Europa, Titã e dezenas de exoplanetas.

Gabriel sorriu.

— Isso parece ficção científica.

— Toda História começa como ficção científica.

O silêncio voltou.  Roberval prosseguiu.

— Nesse momento, democracia e monarquia talvez deixem de ser os problemas centrais.

— Por quê?

— Porque surgirão perguntas que Aristóteles, Maquiavel, Marx ou Locke jamais precisaram responder.

Gabriel cruzou os braços.

— Como quais?

Roberval enumerou lentamente.

— Quem será considerado humano?

— Uma inteligência artificial, pode possuir dignidade?

— Um clone possui identidade própria?

— Um indivíduo geneticamente aperfeiçoado, continuará pertencendo à mesma espécie?

— Uma consciência digital pode morrer?

— Uma civilização espalhada entre dezenas de planetas, continuará formando um único povo?

Gabriel permaneceu impressionado.

— Nunca houve filosofia política para isso.

— Porque nunca houve tecnologia suficiente, para tornar essas perguntas inevitáveis.

O sol começava a desaparecer.

Roberval continuou.

— Durante milhares de anos lutamos para decidir quem deveria governar.

— Depois aprenderemos que a questão mais importante nunca foi essa.

Gabriel completou:

— Mas o que deve ser governado.

— Exatamente.

A NOVA FRONTEIRA DA CIVILIZAÇÃO

Roberval retirou do bolso um pequeno caderno.  Abriu numa página em branco.  Escreveu apenas uma frase.

Toda tecnologia amplia o poder da civilização. Apenas a ética, pode decidir para onde esse poder será utilizado.

Mostrou a Gabriel.

— Veja a História.

— O domínio do fogo permitiu cozinhar alimentos...

— ...e incendiar cidades.

— A agricultura alimentou bilhões...

— ...e criou impérios.

— A indústria aumentou a riqueza...

— ...e produziu guerras mundiais.

— A energia nuclear fornece eletricidade...

— ...e construiu Hiroshima.

— A inteligência artificial poderá curar doenças...

— ...ou controlar toda a humanidade.

Gabriel fechou o caderno.

— Então o problema nunca foi a tecnologia.

— Nunca.

— Foi o ser humano.

— Sempre.

A GRANDE TRANSIÇÃO

Pela primeira vez, Roberval parecia otimista.

— Mas acredito que existe uma saída.

Gabriel sorriu.

— Finalmente você está otimista.

— Porque talvez a evolução da civilização siga uma direção semelhante à evolução biológica.

— Como assim?

— No início, sobrevivem os mais fortes.

Depois, os mais organizados.  Depois, os mais inteligentes.

Mas talvez exista um estágio seguinte.

Gabriel aguardou.

— Sobrevivem os mais cooperativos.

Lembrou-se das pesquisas sobre sociedades humanas, formigas, abelhas, golfinhos e primatas.  A competição produz vencedores.  A cooperação produz civilizações.

O NASCIMENTO DA CIVILIZAÇÃO ÉTICA

Séculos depois — imaginava Roberval — os historiadores talvez dividissem a evolução humana em quatro grandes eras.

A Era da Sobrevivência, quando predominava a força.

A Era da Dominação, quando surgiram impérios, Estados e ideologias.

A Era Planetária, em que a humanidade compreendeu que seus problemas eram comuns.

E, finalmente,

A Era da Consciência.

Nela, o maior patrimônio da civilização não seria o ouro.  Nem petróleo.  Nem algoritmos.  Nem mesmo inteligência.  Seria a capacidade de limitar voluntariamente, o próprio poder.  Porque toda civilização desaparece, quando sua capacidade de destruir, supera sua capacidade de conviver.

O PARADOXO FINAL

Gabriel olhou novamente para o horizonte.

— Então o Último Regime não seria uma forma definitiva de governo.

— Não.

— O que seria?

Rogério sorriu.

— O momento em que a humanidade compreendeu, que nenhuma instituição pode substituir definitivamente, a responsabilidade moral dos indivíduos.

Os regimes haviam mudado inúmeras vezes.  As bandeiras também.  As constituições.  As revoluções.  Os impérios.  As ideologias.  Entretanto, a verdadeira revolução, nunca havia ocorrido nos palácios, nos parlamentos ou nos campos de batalha.

Ela começava, silenciosamente, na consciência.  E talvez fosse essa, a única revolução capaz de sobreviver ao tempo.

Capítulo Final

A Última Fronteira da Civilização

A noite já havia coberto a cidade.

As luzes acesas desenhavam rios luminosos, que serpenteavam entre edifícios, pontes e avenidas. Do alto da varanda, Roberval Silva Ferreira e Gabriel de Sá Osmundi permaneciam em silêncio.                                    Durante meses haviam atravessado, em suas conversas, quase cinco mil anos de História. Tinham visitado Atenas e Esparta, Roma, o Feudalismo, as Monarquias Absolutas, o Liberalismo, as revoluções, o Socialismo, o Fascismo, o Comunismo, as Democracias Modernas e os inúmeros experimentos políticos que marcaram a trajetória humana.

Agora, restava apenas uma pergunta.  Gabriel foi o primeiro a quebrar o silêncio.

— Então... qual foi o melhor regime?

Rogério sorriu discretamente.

— Talvez essa tenha sido a pergunta errada desde o início.

Gabriel voltou-se para ele.

— Como assim?

— Passamos séculos procurando a instituição perfeita. Mudamos constituições, reis, parlamentos, partidos, tribunais, ideologias. Sempre acreditamos que o próximo sistema resolveria o que o anterior não conseguiu resolver. Mas, em todas as épocas, quem administrava essas instituições, continuava sendo o mesmo animal humano.

Gabriel observou a cidade.

— Você está dizendo que fracassamos?

— Não. Estou dizendo que aprendemos lentamente.

Fez uma pausa.

— A História nunca foi a sucessão de regimes políticos. Sempre foi a lenta evolução da consciência humana.

O vento atravessou a varanda.

Lá embaixo, milhares de pessoas caminhavam, sem imaginar que participavam de uma experiência iniciada milhares de anos antes.

Roberval continuou.

— A escravidão parecia natural, durante milênios. Hoje nos horroriza. A tortura já foi justiça. Hoje é barbárie. Mulheres eram propriedade. Hoje possuem direitos. Crianças trabalhavam como ferramentas. Hoje isso nos causa indignação. Povos eram exterminados, em nome dos deuses, ou dos impérios. Hoje chamamos isso de crime contra a humanidade.

Gabriel assentiu lentamente.

— Então houve progresso.

— Não porque mudaram os governos. Porque mudou o que somos capazes de considerar moralmente aceitável.

O silêncio voltou.

Depois de alguns minutos, Gabriel perguntou:

— E qual será o próximo passo?

Roberval olhou para o céu.

— O mais difícil de todos.

— Qual?

— A humanidade está prestes a possuir um poder, maior do que qualquer civilização anterior jamais imaginou.

Falava agora como quem descrevia um horizonte inevitável.

— Inteligências artificiais capazes de criar conhecimento. Engenharia genética alterando a própria evolução biológica. Interfaces entre cérebro e máquinas. Colônias em outros planetas. Computadores quânticos. Nanotecnologia. Manipulação climática. Longevidade extrema. Talvez até novas formas de consciência.

Gabriel permaneceu atento.

— Estamos aprendendo a modificar a própria natureza.

— Exatamente.

Rogério respirou profundamente.

— E essa é a primeira vez na História, em que nosso poder cresce mais rápido do que nossa sabedoria.

A frase permaneceu suspensa entre os dois.  Era essa a verdadeira ameaça.

Não uma guerra.  Não uma revolução.  Nem mesmo uma ditadura.  Mas a possibilidade de uma inteligência extraordinária, permanecer subordinada a uma consciência moral ainda primitiva.

Gabriel compreendeu.

— Então o problema deixou de ser político.

— Tornou-se civilizacional.

A Democracia, a Monarquia, o Socialismo, o Liberalismo, todas aquelas disputas que haviam ocupado séculos, talvez fossem lembradas, um dia, apenas como etapas da infância da humanidade.

Assim como uma criança aprende primeiro a obedecer, antes de compreender, talvez as civilizações também precisassem atravessar longos períodos de dominação, antes de descobrir a cooperação.

Gabriel caminhou até o parapeito.

— Você acredita que um dia, não precisaremos mais de governos?

Roberval demorou a responder.

— Talvez sempre precisemos de instituições. O que talvez deixe de existir, seja a necessidade permanente de controlar pessoas, incapazes de controlar a si mesmas.

Os dois sorriram.  Era uma ideia ousada.  Mas toda grande transformação da História, começara como uma ideia improvável.

Depois de algum tempo, Roberval concluiu:

— O verdadeiro progresso, não será medido pela velocidade das máquinas, pela riqueza das nações, ou pelo tamanho das cidades. Será medido pela distância entre o poder que possuímos, e a responsabilidade com que o utilizamos.

Gabriel acrescentou:

— Quando a consciência crescer mais depressa que a tecnologia...

— ...a civilização terá atravessado sua última fronteira.

O relógio marcou meia-noite.  Um novo dia começava.  Talvez, também, uma nova etapa da História.

As luzes da cidade permaneciam acesas, como se fossem pequenas estrelas espalhadas sobre a Terra.

Roberval voltou os olhos para o horizonte.

— Durante milhares de anos, perguntamos quem deveria governar os homens.

Olhou para Gabriel.

— Talvez nossos descendentes façam uma pergunta muito diferente.

Gabriel sorriu.

— Qual?

Roberval respondeu, quase em um sussurro:

— Como nos tornarmos dignos, do poder que conquistamos?

Nenhum dos dois disse mais nada.

Não era necessário.  A resposta ainda não existia.  Ela seria escrita pelas gerações futuras.  E compreenderiam, então, que o último regime jamais fora uma forma de governo.  Era uma forma de consciência.

Porque toda a História humana — das primeiras cidades às futuras civilizações entre as estrelas — sempre caminhou na mesma direção.  Não rumo ao poder.  Mas rumo à sabedoria.

E talvez a verdadeira medida de uma civilização, não seja aquilo que ela é capaz de construir, conquistar ou dominar.  Talvez seja aquilo, que ela escolhe não fazer, mesmo quando possui poder para tudo fazer.

Nesse instante, Rogério e Gabriel compreenderam que a História nunca terminaria.

Cada geração herdaria mais conhecimento, mais tecnologia e mais possibilidades do que a anterior. Mas herdaria também, uma responsabilidade proporcional ao poder recebido.                                              A evolução da civilização não seria determinada pelas máquinas que construísse, nem pelos mundos que colonizasse, mas pela capacidade de ampliar o círculo da compaixão, da justiça e da consciência.

O universo permaneceria imenso e silencioso. Talvez existissem outras inteligências, espalhadas entre as galáxias. Talvez algumas tivessem desaparecido, pela incapacidade de sobreviver ao próprio poder. Talvez outras tivessem alcançado uma maturidade, que lhes permitiu transformar conhecimento em sabedoria.

A humanidade ainda caminhava nos primeiros passos dessa longa jornada. O futuro não pertencia aos mais fortes, aos mais ricos ou aos mais poderosos.  Pertenceria aos mais conscientes.

E, naquele momento, os dois amigos perceberam que todas as suas discussões — sobre reis e repúblicas, impérios e revoluções, democracias e utopias — haviam sido apenas, o prólogo de uma pergunta infinitamente maior.

A última fronteira da civilização, nunca esteve nos territórios da Terra, nem nas estrelas do cosmos.  Sempre esteve no território invisível da consciência humana.  Foi ali, e somente ali, que a História encontrava o seu verdadeiro horizonte.

mario moura

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