O PAÍS QUE ADIA A SI MESMO
O PAÍS QUE ADIA A SI MESMO
Floriano W. Silveira Jr. costumava dizer que a História não era uma coleção de acontecimentos passados.
— História — repetia — é aquilo que o passado continua fazendo conosco.
Silas S. Ramalho, antropólogo, seu amigo de muitos anos, costumava discordar.
— Não. A História é aquilo que ainda não conseguimos compreender sobre nós mesmos.
Era uma divergência antiga, dessas que não afastam dois amigos, mas os mantêm intelectualmente vivos.
Numa tarde de agosto, encontraram-se como tantas outras vezes no pequeno café de uma praça antiga. O lugar tinha mesas de madeira, ventiladores preguiçosos e uma janela aberta para a rua. Do lado de fora, o país passava apressado: automóveis, motocicletas, vendedores ambulantes, trabalhadores voltando para casa, estudantes, crianças, velhos sentados nos bancos da praça.
Floriano chegou primeiro. Sobre a mesa colocou um caderno cheio de anotações.
Silas apareceu alguns minutos depois.
— Você está com cara de quem descobriu uma tragédia.
— Não descobri. — Floriano fechou o caderno. — Apenas estou cansado de reconhecer a mesma.
Silas sentou-se.
— O Brasil?
Floriano sorriu.
— O Brasil.
Ficaram algum tempo em silêncio.
Era uma pergunta que os perseguia havia anos.
Como era possível?
Como um país de dimensões continentais, dotado de terras férteis, água abundante, petróleo, minérios, biodiversidade extraordinária, enorme mercado interno, capacidade industrial, agricultura competitiva e uma população numerosa pudesse continuar convivendo com desigualdades tão profundas?
Como uma sociedade tão diversa, inventiva e culturalmente rica podia permanecer tão desconfiada de suas instituições?
Como explicar a persistência da corrupção?
E, sobretudo, por que a democracia, depois de tantas experiências autoritárias, ainda parecia incapaz de produzir uma sociedade minimamente reconciliada consigo mesma?
Silas mexeu lentamente o café.
— Talvez estejamos fazendo a pergunta errada.
— Qual seria a pergunta certa?
— Não deveríamos perguntar por que o Brasil não consegue se desenvolver. Deveríamos perguntar por que o Brasil consegue sobreviver sem se desenvolver plenamente.
Floriano levantou os olhos.
— Isso é mais grave.
— É justamente por isso.
I
Floriano abriu o caderno.
— Vamos começar pelo princípio.
— Você sempre quer começar pelo princípio.
— Sou historiador.
— E eu sou antropólogo. Por isso desconfio dos princípios que os historiadores inventam.
Floriano riu.
— Então vamos começar sem princípio.
Virou algumas páginas.
— O problema brasileiro não começou ontem. Não nasceu com este ou aquele presidente. Não surgiu com um partido político. Não pode ser explicado apenas pela corrupção contemporânea.
— Concordo.
— O Brasil foi construído historicamente sobre uma estrutura profundamente desigual.
Silas interrompeu:
— Mas desigualdade não é apenas diferença de renda.
— Exatamente.
Floriano continuou:
— É diferença de poder. Diferença de acesso. Diferença de proteção. Diferença de reconhecimento. Durante séculos, alguns nasceram para mandar e outros para obedecer.
Silas inclinou-se para frente.
— E existe algo ainda mais profundo.
— O quê?
— A naturalização dessa desigualdade.
Floriano ficou em silêncio.
— O que você quer dizer?
— Quero dizer que uma sociedade pode ser desigual e lutar contra a desigualdade. Outra pode ser desigual e considerá-la normal.
Floriano fechou o caderno.
Silas prosseguiu:
— Talvez uma das grandes tragédias brasileiras seja termos aprendido a conviver com o absurdo.
O garçom passou perto da mesa.
Na rua, um homem de terno entrou num carro luxuoso. A poucos metros, uma mulher recolhia latas de uma lixeira.
Silas apontou discretamente para os dois.
— Está vendo?
— Estou.
— O problema não é apenas que um possui muito e outro quase nada. O problema é que ambos podem atravessar a mesma cidade todos os dias e já não enxergar a existência um do outro.
Floriano respirou fundo.
— A desigualdade deixa de ser apenas econômica. Torna-se moral.
— E depois cultural.
— E finalmente política.
II
— Mas não podemos transformar tudo em herança colonial — disse Floriano.
Silas sorriu.
— Finalmente discordamos.
— A colonização explica muita coisa. Não explica tudo.
— Concordo.
— Uma sociedade não pode passar quinhentos anos culpando os mortos pelos problemas dos vivos.
— Também concordo.
— Então?
Silas olhou pela janela.
— A História não é uma sentença. É uma estrutura de possibilidades.
Floriano pareceu satisfeito.
— Isso é bom.
— Não se anime. Ainda não terminei.
— Imaginei.
— A escravidão terminou formalmente, mas muitas das relações sociais construídas durante a escravidão sobreviveram. A República mudou as instituições, mas não eliminou completamente a cultura da hierarquia. O voto se universalizou, mas o acesso ao poder continuou desigual.
Floriano completou:
— A democracia política avançou mais rapidamente que a democracia social.
— Exatamente.
— Temos eleições.
— Mas nem sempre temos igualdade real de participação.
— Temos Constituição.
— Mas a Constituição não consegue entrar igualmente na vida de todos.
Floriano ficou alguns segundos olhando para a rua.
— Talvez esse seja o paradoxo brasileiro.
— Qual?
— Construímos instituições modernas sobre uma sociedade que ainda carrega comportamentos arcaicos.
Silas assentiu.
— E, às vezes, construímos instituições modernas para proteger interesses antigos.
A frase ficou entre os dois.
III
O café havia esfriado.
Floriano voltou ao problema da corrupção.
— Mas há outra questão. Como explicar a corrupção?
Silas respondeu imediatamente:
— Pela mesma razão que você acabou de apontar.
— Não acho suficiente.
— Corrupção não é um traço genético do brasileiro.
— Evidentemente.
— Tampouco é uma exclusividade brasileira.
— Evidentemente.
— Então precisamos abandonar a explicação moralista.
Floriano concordou.
— Corrupção prospera onde o poder público é percebido como propriedade de quem o ocupa.
— Patrimonialismo.
— Sim. Mas não apenas isso. Há também uma cultura de reciprocidades pessoais.
— O famoso “jeitinho”.
Silas fez uma expressão de reprovação.
— O jeitinho brasileiro é uma palavra simpática para uma questão que pode ser muito menos simpática.
— Explique.
— Em certas circunstâncias, o jeitinho é criatividade diante de uma burocracia absurda. Em outras, é simplesmente a transformação da regra pública em negociação privada.
Floriano sorriu.
— Ou seja: a regra vale para os outros.
— Essa talvez seja uma das frases mais perigosas da cultura política brasileira.
— “Você sabe com quem está falando?”
Silas riu.
— Exatamente.
Ficaram calados.
Depois Silas acrescentou:
— Quando uma sociedade aceita que a posição social determine a maneira como cada indivíduo é tratado pela lei, a democracia começa a perder sua substância.
— Porque a cidadania deixa de ser universal.
— E passa a ser graduada.
IV
Floriano tomou o último gole de café.
— Então chegamos à política.
— Sempre chegamos à política.
— O Brasil tem uma democracia consolidada?
Silas pensou antes de responder.
— Temos instituições democráticas importantes. Isso é diferente.
— Qual a diferença?
— Uma democracia não é apenas votar. É também acreditar que o outro tem direito de existir politicamente.
Floriano anotou a frase.
— Continue.
— Democracia exige confiança.
— E nós somos uma sociedade profundamente desconfiada.
— Desconfiamos do Estado, dos políticos, dos partidos, das instituições, dos vizinhos e, às vezes, uns dos outros.
— E por quê?
— Porque aprendemos historicamente que muitas instituições foram utilizadas contra nós.
Floriano concordou.
— O Estado brasileiro foi durante muito tempo percebido mais como autoridade do que como patrimônio coletivo.
— Exatamente.
— Daí a dificuldade de construir uma relação republicana com o Estado.
— E daí nasce um círculo perverso.
— Qual?
Silas enumerou:
— O cidadão desconfia do Estado. O Estado desconfia do cidadão. O político desconfia do eleitor. O eleitor desconfia do político. E todos passam a agir como se os outros fossem potenciais adversários.
Floriano completou:
— E, quando todos desconfiam de todos, ninguém consegue construir confiança pública.
Silas sorriu.
— Agora você está falando como antropólogo.
V
O assunto inevitavelmente chegou aos partidos.
Floriano perguntou:
— Por que nossa política parece tão frequentemente personalista?
— Porque instituições frágeis produzem dependência de pessoas.
— E o eleitor?
— O eleitor também participa disso.
Floriano franziu a testa.
— Não quero culpabilizar o eleitor.
— Nem eu.
— Então?
— Precisamos compreender.
Silas explicou:
— Uma pessoa que depende diretamente de favores políticos para conseguir acesso a serviços, emprego, proteção ou oportunidades tende a estabelecer uma relação pessoal com o poder. Não porque seja ignorante, mas porque está tentando sobreviver.
Floriano ficou pensativo.
— Então o clientelismo não é apenas uma doença política.
— É também uma adaptação social à precariedade.
— Isso muda bastante a interpretação.
— Claro. O problema é que aquilo que começa como estratégia de sobrevivência pode terminar como sistema político.
Floriano escreveu novamente.
— O pobre pede favor porque precisa.
— E o poderoso concede favor porque precisa do voto.
— E ambos acabam presos ao mesmo mecanismo.
— Exatamente.
VI
Já começava a anoitecer.
A praça adquirira outra aparência. As luzes se acendiam. As pessoas voltavam para suas casas.
Floriano fechou o caderno.
— Ainda falta uma coisa.
— Educação?
— Também.
— Então fale.
— Como esperar uma democracia sofisticada de uma sociedade que historicamente não conseguiu garantir educação de qualidade para todos?
Silas assentiu.
— Educação não resolve tudo.
— Mas sem ela...
— Sem ela, a democracia fica vulnerável à manipulação.
— Informação não é conhecimento.
— E conhecimento não é consciência.
Floriano sorriu.
— Essa é sua área.
— E a consciência política não nasce apenas da escola. Nasce da experiência de cidadania.
— Ou seja?
— A pessoa aprende democracia quando percebe que suas ações têm consequências para os outros.
— Então democracia é uma pedagogia coletiva.
— Exatamente.
VII
Floriano levantou-se para pedir outro café.
Quando voltou, perguntou:
— E o capitalismo?
Silas olhou para ele.
— Finalmente.
— Você estava esperando.
— Há algum tempo.
— Não podemos ignorar a economia.
— Não.
— O Brasil cresceu economicamente várias vezes sem produzir uma distribuição equivalente de riqueza.
— Porque crescimento econômico e desenvolvimento humano não são sinônimos.
— E porque o poder econômico também produz poder político.
Silas assentiu.
— Toda sociedade organiza conflitos em torno da distribuição dos recursos.
— Terra.
— Terra.
— Trabalho.
— Trabalho.
— Renda.
— Renda.
— Tributação.
— Tributação.
— Serviços públicos.
— E oportunidades.
Floriano concluiu:
— Então a questão brasileira não é apenas produzir riqueza.
— É decidir o que fazer com ela.
Houve silêncio.
Silas disse:
— Talvez esta seja a pergunta que sempre evitamos.
— Qual?
— Quem deve se beneficiar do país?
Floriano olhou para ele.
— Essa pergunta é política.
— Toda grande pergunta econômica termina sendo política.
VIII
A noite havia chegado.
O movimento da praça diminuíra.
Floriano perguntou:
— Então qual é a resposta?
Silas não respondeu.
— Para quê?
— Para o Brasil.
— Você quer uma resposta para um país inteiro?
— Quero uma hipótese.
Silas pensou demoradamente.
— Talvez o problema político brasileiro seja menos a ausência de recursos do que a dificuldade histórica de transformar recursos em projeto coletivo.
Floriano permaneceu imóvel.
— Explique.
— O Brasil sempre teve possibilidades extraordinárias. Mas possibilidades não constituem um projeto.
— Então?
— Um país não se constrói apenas com território, riqueza, população e instituições. Constrói-se quando uma sociedade decide o que pretende ser.
Floriano voltou-se para a praça.
— Talvez nunca tenhamos decidido.
— Exatamente.
— Tivemos projetos de governo.
— Muitos.
— Projetos econômicos.
— Também.
— Projetos de poder.
— Esses nunca faltaram.
Floriano sorriu.
— Mas talvez tenha faltado um projeto de sociedade.
Silas assentiu.
— E isso é muito mais difícil.
IX
Floriano sentou-se novamente.
— Você acredita que o Brasil está condenado?
Silas riu.
— Nenhuma sociedade está condenada.
— Nem mesmo a nossa?
— Especialmente a nossa.
— Por quê?
— Porque sociedades não fracassam definitivamente. Elas mudam. O problema é saber em que direção.
Floriano ficou olhando para o próprio caderno.
— Então ainda há esperança.
— Esperança não é suficiente.
— O que precisamos?
Silas respondeu:
— Consciência.
— Consciência de quê?
— De que nenhum país será melhor do que a relação que seus cidadãos estabelecem entre liberdade e responsabilidade.
Floriano acrescentou:
— Entre direitos e deveres.
— Entre indivíduo e sociedade.
— Entre riqueza e justiça.
— Entre poder e limite.
— Entre passado e futuro.
Silas sorriu.
— Agora você está fazendo História.
Floriano sorriu de volta.
X
Já era tarde quando decidiram ir embora.
Caminharam lentamente pela praça.
Ao passar diante de um edifício público, Floriano parou.
— Silas.
— Sim?
— Talvez a pergunta não seja por que o Brasil ainda é desigual.
— Qual seria?
Floriano demorou alguns segundos.
— Por que aceitamos durante tanto tempo que isso fosse normal?
Silas não respondeu imediatamente.
Olhou para as pessoas que caminhavam pela praça.
Um trabalhador cansado.
Uma jovem com livros nos braços.
Um homem dormindo num banco.
Uma família saindo de uma lanchonete.
Uma criança correndo atrás de uma bola.
Uma senhora carregando sacolas.
Um rapaz olhando o telefone.
Milhares de vidas diferentes atravessando o mesmo espaço.
Então disse:
— Porque talvez ainda não tenhamos aprendido a nos reconhecer como parte do mesmo país.
Floriano ficou em silêncio.
— Somos brasileiros — disse depois. — Mas talvez ainda não sejamos suficientemente republicanos.
Silas assentiu.
— Essa é a contradição.
Continuaram caminhando.
A cidade parecia enorme.
O país, muito maior.
Depois de alguns minutos, Floriano perguntou:
— Você percebeu que começamos tentando explicar o Brasil e terminamos falando de nós mesmos?
— Não poderia ser diferente.
— Por quê?
Silas respondeu:
— Porque um país não é uma abstração. É o resultado das relações entre pessoas.
Floriano pensou um pouco.
— Então o Brasil não está apenas no Palácio do Planalto, no Congresso, nos tribunais ou nos partidos.
— Está também no modo como tratamos quem está ao nosso lado.
— No modo como obedecemos ou burlamos uma regra.
— No modo como votamos.
— No modo como educamos nossos filhos.
— No modo como aceitamos privilégios.
— No modo como toleramos a desigualdade.
— No modo como tratamos o desconhecido.
Chegaram à esquina.
Era hora de se separarem.
Floriano estendeu a mão.
— Até amanhã.
Silas apertou-lhe a mão.
— Até amanhã.
Deram alguns passos em direções opostas.
Então Floriano voltou-se.
— Silas!
— O quê?
— Ainda não respondemos à pergunta.
Silas sorriu.
— Não.
— E isso não o incomoda?
— Não.
— Por quê?
Silas respondeu:
— Porque talvez o maior problema do Brasil seja justamente esse: temos passado séculos procurando respostas que nos permitam não fazer a pergunta essencial.
Floriano ficou parado.
— E qual é a pergunta essencial?
Silas olhou para ele pela última vez.
— Que país queremos ser quando finalmente decidirmos que o país pertence a todos nós?
E foi embora.
Floriano permaneceu alguns minutos na esquina.
Depois abriu o caderno.
Na primeira página escreveu uma única frase:
“O Brasil não é um país sem futuro. É um país que ainda não terminou de decidir o que fazer com o próprio futuro.”
Fechou o caderno.
A cidade continuava funcionando.
Os carros continuavam passando.
As pessoas continuavam indo para casa.
E, em algum lugar daquela imensa sociedade, o Brasil continuava adiando a mesma pergunta.
Talvez porque soubesse que, depois de respondê-la, já não poderia continuar sendo exatamente o mesmo país.
Mario Moura
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