A IMBECILIDADE CONTEMPORÂNEA
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A IMBECILIDADE CONTEMPORÂNEA Pequeno ensaio sobre o desastre cognitivo de uma geração
Talvez uma das doenças mais silenciosas do nosso tempo, não esteja no corpo, mas na maneira como aprendemos a desejar.
Nunca tivemos tantos objetos, tantas possibilidades de escolha, tantos meios de comunicação, tanta informação disponível. E, no entanto, nunca pareceu tão difícil responder a uma pergunta elementar: para que estamos vivendo?
Alguma coisa se rompeu no caminho, entre a necessidade e o desejo. O consumo deixou de ser apenas uma atividade econômica e passou a constituir uma forma de existência. Já não compramos somente aquilo de que precisamos. Compramos para compensar ausências, preencher silêncios, afirmar identidades, produzir pertencimento, anestesiar frustrações. O objeto deixou de ser objeto. Tornou-se promessa.
Promessa de felicidade.
De juventude.
De reconhecimento.
De poder.
De uma vida que, muitas vezes, não sabemos mais como viver.
O problema não está em possuir coisas. O problema começa quando as coisas passam a possuir o indivíduo.
O modelo econômico contemporâneo compreendeu algo extraordinariamente eficiente: um ser humano satisfeito, consome menos. Por isso, é preciso mantê-lo permanentemente insatisfeito.
A publicidade não vende apenas produtos; fabrica inadequações. Ela nos convence de que somos insuficientes, de que nossa casa é pequena, nosso corpo inadequado, nossa roupa ultrapassada, nosso carro é velho, nossa experiência incompleta, nossa vida aquém da vida dos outros.
E então compramos.
Compramos, não porque precisamos, mas porque fomos ensinados a sentir que precisamos.
A sociedade de consumo transformou a insatisfação em combustível econômico. Quanto maior a distância entre aquilo que somos, e aquilo que imaginamos que deveríamos ser, maior a possibilidade de consumo. O indivíduo passa a trabalhar para comprar, compra para parecer, parece para ser reconhecido e busca reconhecimento, para suportar uma existência da qual já não sabe exatamente o sentido.
É uma espécie de círculo vicioso civilizatório.
E talvez seja isso que possamos chamar, provocativamente, de imbecilidade contemporânea: não a ausência de inteligência, mas a incapacidade de utilizar a inteligência, para questionar o modo de vida que nos foi imposto.
Nunca fomos tão informados, e talvez nunca tenhamos refletido tão pouco.
Sabemos o preço de quase tudo e o valor de quase nada.
Conhecemos marcas, modelos, lançamentos, promoções, influenciadores, tendências e algoritmos. Sabemos o que comprar, antes mesmo de saber por que desejamos comprar. Somos capazes de acompanhar em tempo real acontecimentos ocorridos do outro lado do planeta, mas frequentemente somos incapazes de compreender o que acontece dentro de nós.
A inteligência foi convertida em instrumento de consumo.
A tecnologia, que poderia ampliar nossa liberdade, frequentemente amplia nossa distração. A informação, que poderia produzir conhecimento, transforma-se em ruído. As redes, que poderiam aproximar pessoas, muitas vezes transformam relações humanas em vitrines de comparação permanente.
Vivemos cercados de estímulos e pobres de silêncio. E sem silêncio torna-se difícil pensar.
Talvez por isso, a doença do consumo seja tão perigosa: ela não destrói apenas recursos naturais, ou compromete o equilíbrio econômico. Ela pode produzir uma erosão da interioridade. Calcinar a subjetividade...
O indivíduo deixa progressivamente de perguntar quem é, para perguntar o que deve possuir. Deixa de perguntar o que deseja ser, para perguntar como deseja parecer. Deixa de construir uma existência, para construir uma imagem de existência.
A vida passa a ser medida por aquilo que pode ser exibido.
Nesse cenário, até a felicidade corre o risco de transformar-se em mercadoria. Viaja-se para fotografar a viagem. Come-se para publicar a comida. Ama-se para provar que se é amado. Envelhece-se tentando esconder a idade. Trabalha-se para consumir. Consome-se para mostrar que se trabalha. E mostra-se tudo isso, para convencer os outros — e talvez a nós mesmos — de que estamos vivendo.
Mas viver não é consumir experiências. Viver é produzir significado.
Uma civilização que confunde desenvolvimento com acumulação, corre o risco de se tornar tecnologicamente sofisticada, e existencialmente primitiva.
Essa talvez seja uma das grandes contradições do nosso tempo: podemos saber cada vez mais sobre o mundo, enquanto compreendemos cada vez menos o que significa estar no mundo.
O problema, portanto, não é apenas econômico. É antropológico.
Que tipo de ser humano estamos produzindo? Um ser humano livre, ou um consumidor permanentemente condicionado? Um cidadão, ou um cliente?Uma pessoa capaz de escolher, ou alguém treinado para desejar o que o mercado escolheu por ele?
A pergunta é incômoda, porque atinge o fundamento da sociedade contemporânea. O sistema não precisa necessariamente impedir o pensamento. Basta distraí-lo. Basta ocupar todo o tempo disponível com diversão, para que ele não aconteça.
É suficiente manter o indivíduo ocupado, distraído, endividado, comparando-se, desejando, comprando e descartando.
A grande vitória de um sistema de consumo, não acontece, quando alguém compra alguma coisa. Acontece quando alguém passa a acreditar que não pode ser feliz sem comprá-la.
Talvez seja necessário recuperar uma palavra quase esquecida: suficiência.
Não como apologia da pobreza, nem como rejeição da tecnologia, do conforto ou do progresso, mas como capacidade de reconhecer o limite entre o que melhora a vida, e o que apenas ocupa a vida.
Precisamos reaprender a distinguir necessidade de desejo, conforto de ostentação, experiência de espetáculo, liberdade de escolha e liberdade interior.
Precisamos recuperar o direito de não querer.
Porque talvez uma das formas mais profundas de liberdade, seja poder olhar para o que o mundo nos oferece e dizer: não preciso disso para existir.
Uma sociedade verdadeiramente civilizada, não deveria ser aquela capaz de produzir infinitamente mais coisas, mas aquela capaz de produzir seres humanos menos dependentes delas.
Talvez o verdadeiro progresso comece, quando deixarmos de perguntar quanto podemos consumir, e voltarmos a perguntar quanto de humanidade, ainda queremos preservar.
Porque o maior perigo não é que o homem venha a possuir demasiadas coisas. É que, depois de possuir tantas coisas, descubra que já não possui a si mesmo.
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