UM OLHAR MAIS AMPLO SOBRE O ETARISMO
UM OLHAR MAIS AMPLO SOBRE O ETARISMO
"O etarismo não pode ser considerado apenas como um preconeito individual, ou uma atitude cultural isolada. Trata-se de um determinante ético de saúde, capaz de influenciar políticas públicas, práticas institucionais, decisões clínicas e relações sociais." Mario Moura
O ETARISMO COMO DETERMINANTE ÉTICO DA SAÚDE
Envelhecimento, bioética, justiça e dignidade no cuidado à pessoa idosa
Resumo
O envelhecimento populacional constitui uma das mais significativas transformações demográficas da história contemporânea. Se, por um lado, o aumento da expectativa de vida representa uma conquista inequívoca da ciência, da medicina e das políticas públicas, por outro expõe uma contradição ética, ainda insuficientemente enfrentada: a persistência do etarismo, como forma estrutural de discriminação. Embora frequentemente tratado como um problema de natureza cultural ou comportamental, este ensaio sustenta que o etarismo deve ser compreendido como um determinante ético da saúde, capaz de influenciar decisões clínicas, limitar o acesso aos serviços de saúde, comprometer a autonomia dos pacientes e produzir desigualdades assistenciais.
Partindo das contribuições da Organização Mundial da Saúde, do Global Report on Ageism, da geriatria moderna, da bioética principialista* e da filosofia social, propõe-se uma leitura interdisciplinar do envelhecimento. Dialogam-se as reflexões de Simone de Beauvoir acerca da construção social da velhice, de Norbert Elias sobre a invisibilidade da morte nas sociedades modernas, de Marjory Warren e Linda Fried na redefinição clínica do envelhecimento, e de Beauchamp, Childress, Martha Nussbaum, Daniel Callahan e Atul Gawande, na construção de uma ética do cuidado.
Defende-se que o combate ao etarismo, não representa apenas uma exigência moral ou jurídica, mas uma condição indispensável para a efetivação do direito à saúde, e para a construção de sistemas assistenciais comprometidos com a dignidade humana. Em uma sociedade que envelhece rapidamente, reconhecer o valor da velhice, significa redefinir a própria compreensão do que significa cuidar.
Palavras-chave: etarismo; envelhecimento; bioética; geriatria; saúde pública; dignidade humana; justiça em saúde.
Introdução
O paradoxo da longevidade
Poucas conquistas da humanidade são tão expressivas quanto o aumento da expectativa de vida. Em menos de dois séculos, a espécie humana realizou aquilo, que durante milênios pertenceu ao domínio do improvável: transformou a longevidade em experiência coletiva. Graças aos avanços da medicina, da vacinação, do saneamento, da nutrição, da educação e das políticas públicas, viver oitenta ou noventa anos deixou de constituir exceção para tornar-se possibilidade concreta para milhões de pessoas.
Toda conquista civilizatória, entretanto, produz novos desafios.
A humanidade aprendeu a prolongar a vida antes de aprender a conviver com ela.
Esse talvez seja o maior paradoxo do século XXI.
Nunca houve tantos idosos. Nunca a medicina conheceu tão profundamente, os mecanismos biológicos do envelhecimento. Jamais existiram tantos recursos terapêuticos, capazes de preservar autonomia, funcionalidade e qualidade de vida.
Ainda assim, envelhecer continua sendo, em muitos contextos, uma experiência marcada pela invisibilidade, pelo paternalismo e pela discriminação.
Existe uma ironia silenciosa nesse fenômeno.
A sociedade celebra o aumento da expectativa de vida como indicador de progresso, mas frequentemente trata aqueles que alcançam essa conquista, como se representassem um problema a ser administrado.
A longevidade converte-se em estatística de sucesso. A velhice, em questão social. É precisamente nesse ponto que emerge o etarismo.
O termo designa o conjunto de estereótipos, preconceitos e práticas discriminatórias, dirigidas às pessoas em razão de sua idade. Embora possa atingir diferentes grupos etários, manifesta-se com maior intensidade, contra as pessoas idosas, produzindo efeitos que ultrapassam o campo das relações interpessoais e alcançam instituições, políticas públicas e sistemas de saúde.
Durante muito tempo, acreditou-se que o preconceito etário constituía uma manifestação secundária de discriminação, menos grave que o racismo ou o sexismo. Essa percepção começou a modificar-se de maneira significativa, quando a Organização Mundial da Saúde publicou, em 2021, o Global Report on Ageism. O documento reuniu evidências provenientes de dezenas de países, e demonstrou que o etarismo está associado ao agravamento de doenças, ao aumento do isolamento social, à pior saúde mental, à redução da expectativa de vida e à limitação do acesso aos serviços de saúde.
A conclusão implícita do relatório é profunda.
O preconceito envelhece o próprio envelhecimento.
Não apenas porque produz sofrimento psicológico, mas porque altera decisões clínicas, influencia políticas públicas e modifica a forma como uma sociedade distribui cuidado, atenção e recursos. Essa constatação desloca o debate. O etarismo deixa de ser compreendida apenas como um problema cultural. Passa a constituir um problema de saúde pública.
Mais ainda. Um problema ético.
Toda prática médica é construída sobre julgamentos. Julga-se a gravidade de uma doença. A urgência de uma intervenção. A relação entre riscos e benefícios. A capacidade funcional de um paciente.
Esses julgamentos são inevitáveis.
O problema surge, quando deixam de ser fundamentados na condição clínica, e passam a ser guiados por estereótipos.
Quando a idade cronológica substitui a avaliação individual, o diagnóstico torna-se prisioneiro do preconceito. É nesse instante que o etarismo deixa de ser uma opinião para transformar-se em erro assistencial.
Tal afirmação exige uma ampliação conceitual.
Tradicionalmente, os estudos em saúde coletiva, identificam como determinantes sociais da saúde, fatores como renda, escolaridade, moradia, saneamento, trabalho, acesso aos serviços e condições ambientais. Todos eles influenciam a forma como as pessoas adoecem e morrem.
Este ensaio propõe acrescentar outra dimensão a essa discussão.
O etarismo deve ser compreendido como um determinante ético da saúde.Não porque substitua os determinantes sociais clássicos, mas porque atua transversalmente sobre todos eles.
O preconceito relacionado à idade modifica prioridades institucionais, influencia decisões terapêuticas, limita investimentos públicos, altera a comunicação entre profissionais e pacientes, e redefine, muitas vezes de maneira invisível, quem merece ou não determinados cuidados.
Essa hipótese constitui o eixo central das páginas que se seguem. Ela nasce da convergência entre diferentes campos do conhecimento.
A filosofia demonstra que a velhice, nunca foi apenas um fenômeno biológico; ela sempre foi também uma construção cultural.
A sociologia revela, que as sociedades atribuem significados distintos ao envelhecimento, conforme seus valores históricos.
A bioética recorda que autonomia, beneficência, não maleficência, e justiça permanecem válidas independentemente da idade.
A geriatria demonstra que envelhecimento não equivale a doença, e que funcionalidade importa mais do que idade cronológica.
A saúde pública evidencia que combater o preconceito, melhora desfechos clínicos e reduz desigualdades.
Essas perspectivas convergem para uma mesma conclusão.
A forma como cuidamos das pessoas idosas, não depende apenas da qualidade da medicina que possuímos. Depende, sobretudo, da imagem de humanidade que cultivamos. Nenhuma tecnologia consegue compensar uma cultura que naturaliza a exclusão. Nenhum protocolo clínico elimina preconceitos silenciosamente incorporados ao cotidiano das instituições. Nenhuma política pública será plenamente eficaz enquanto persistir a convicção implícita de que envelhecer significa perder valor.
Talvez por isso o enfrentamento do etarismo exija uma mudança mais profunda do que a simples atualização de práticas assistenciais.
Ele exige uma revisão da própria ideia de pessoa.
A modernidade construiu extraordinários mecanismos para prolongar a existência biológica.
O desafio contemporâneo consiste em garantir que essa existência continue sendo reconhecida como igualmente digna em todas as etapas da vida. É precisamente nessa intersecção entre ciência, filosofia e ética que este ensaio se desenvolve.
Para compreender o etarismo será necessário, antes de tudo, compreender a própria invenção cultural da velhice. Pois aquilo que hoje chamamos de 'envelhecimento' nunca foi apenas um acontecimento biológico. Sempre foi, também, uma narrativa construída pelas sociedades acerca do tempo, da utilidade, da vulnerabilidade e do significado da existência humana.
É por esse caminho que a reflexão agora prossegue.
Esse texto constitui a abertura da obra.
O próximo capítulo, "A invenção social da velhice: Simone de Beauvoir, Norbert Elias e a condição humana", aprofundará a base filosófica do ensaio, mostrando que o etarismo, antecede o sistema de saúde: ele nasce na maneira como a cultura moderna, passou a compreender o tempo, o corpo e a finitude. A partir desse fundamento, todo o restante da argumentação ganhará unidade e profundidade.
(sigamos para o primeiro capítulo)
Mario Moura (do libro Pequenas Histórias sem Testemunhas, Ensaios e Vagas Anotações)
O ETARISMO COMO DETERMINANTE ÉTICO DA SAÚDE
Envelhecimento, bioética, justiça e dignidade no cuidado à pessoa idosa.
Resumo:
O envelhecimento populacional constitui uma das mais significativas transformações demográficas da história contemporânea. Se, por um lado, o aumento da expectativa de vida representa uma conquista inequívoca da ciência, da medicina e das políticas públicas, por outro, expõe uma contradição ética ainda insuficientemente enfrentada: a persistência do etarismo, como forma estrutural de discriminação. Embora frequentemente tratado como um problema de natureza cultural ou comportamental, este ensaio sustenta que o etarismo deve ser compreendido como um determinante ético da saúde, capaz de influenciar decisões clínicas, limitar o acesso aos serviços de saúde, comprometer a autonomia dos pacientes e produzir desigualdades assistenciais.
Partindo das contribuições da Organização Mundial da Saúde, do Global Report on Ageism, da geriatria moderna, da bioética principialista e da filosofia social, propõe-se uma leitura interdisciplinar do envelhecimento.
Dialogam-se as reflexões de Simone de Beauvoir acerca da construção social da velhice, de Norbert Elias sobre a invisibilidade da morte nas sociedades modernas; de Marjory Warren e Linda Fried na redefinição clínica do envelhecimento, e de Beauchamp, Childress, Martha Nussbaum, Daniel Callahan e Atul Gawande, na construção de uma ética do cuidado.
Defende-se que o combate ao etarismo não representa apenas uma exigência moral ou jurídica, mas uma condição indispensável para a efetivação do direito à saúde, e para a construção de sistemas assistenciais comprometidos com a dignidade humana.
Em uma sociedade que envelhece rapidamente, reconhecer o valor da velhice, significa redefinir a própria compreensão do que significa cuidar.
Palavras-chave: etarismo; envelhecimento; bioética; geriatria; saúde pública; dignidade humana; justiça em saúde.
Introdução: O paradoxo da longevidade.
Poucas conquistas da humanidade são tão expressivas quanto o aumento da expectativa de vida. Em menos de dois séculos, a espécie humana realizou aquilo, que durante milênios pertenceu ao domínio do improvável: transformou a longevidade em experiência coletiva.
Graças aos avanços da medicina, da vacinação, do saneamento, da nutrição, da educação e das políticas públicas, viver oitenta ou noventa anos, deixou de constituir exceção, para tornar-se possibilidade concreta para milhões de pessoas. Toda conquista civilizatória, entretanto, produz novos desafios. A humanidade aprendeu a prolongar a vida, antes de aprender a conviver com ela.
Esse talvez seja o maior paradoxo do século XXI. Nunca houve tantos idosos. Nunca a medicina conheceu tão profundamente os mecanismos biológicos do envelhecimento. Jamais existiram tantos recursos terapêuticos, capazes de preservar autonomia, funcionalidade e qualidade de vida. Ainda assim, envelhecer continua sendo, em muitos contextos, uma experiência marcada pela invisibilidade, pelo paternalismo e pela discriminação.
Existe uma ironia silenciosa nesse fenômeno. A sociedade celebra o aumento da expectativa de vida, como indicador de progresso, mas frequentemente trata aqueles que alcançam essa conquista, como se representassem um problema a ser administrado. A longevidade converte-se em estatística de sucesso. A velhice, em questão social.
É precisamente nesse ponto que emerge o etarismo. O termo designa o conjunto de estereótipos, preconceitos e práticas discriminatórias, dirigidas às pessoas em razão de sua idade. Embora possa atingir diferentes grupos etários, manifesta-se com maior intensidade, contra as pessoas idosas, produzindo efeitos que ultrapassam o campo das relações interpessoais, e alcançam instituições, políticas públicas e sistemas de saúde.
Durante muito tempo, acreditou-se que o preconceito etário constituía uma manifestação secundária de discriminação, menos grave que o racismo ou o sexismo. Essa percepção começou a modificar-se de maneira significativa quando a Organização Mundial da Saúde, publicou, em 2021, o Global Report on Ageism. O documento reuniu evidências, provenientes de dezenas de países, e demonstrou que o etarismo está associado ao agravamento de doenças, ao aumento do isolamento social, à pior saúde mental, à redução da expectativa de vida e à limitação do acesso aos serviços de saúde. A conclusão implícita do relatório é profunda.
O preconceito envelhece o próprio envelhecimento. Não apenas, porque produz sofrimento psicológico, mas porque altera decisões clínicas, influencia políticas públicas e modifica a forma como uma sociedade distribui cuidado, atenção e recursos. Essa constatação desloca o debate. O etarismo deixa de ser compreendido, apenas como um problema cultural. Passa a constituir um problema de saúde pública. Mais ainda. Um problema ético.
Toda prática médica é construída sobre julgamentos. Julga-se a gravidade de uma doença. A urgência de uma intervenção. A relação entre riscos e benefícios. A capacidade funcional de um paciente. Esses julgamentos são inevitáveis. O problema surge quando deixam de ser fundamentados na condição clínica e passam a ser guiados por estereótipos. Quando a idade cronológica substitui a avaliação individual, o diagnóstico torna-se prisioneiro do preconceito. É nesse instante, que o etarismo deixa de ser uma opinião, para transformar-se em erro assistencial.
Tal afirmação exige uma ampliação conceitual. Tradicionalmente, os estudos em saúde coletiva identificam como determinantes sociais da saúde, fatores como renda, escolaridade, moradia, saneamento, trabalho, acesso aos serviços e condições ambientais. Todos eles influenciam a forma como as pessoas adoecem e morrem. Este ensaio propõe acrescentar outra dimensão a essa discussão.
O etarismo deve ser compreendido como um determinante ético da saúde. Não porque substitua os determinantes sociais clássicos, mas porque atua transversalmente, sobre todos eles. O preconceito relacionado à idade, modifica prioridades institucionais, influencia decisões terapêuticas, limita investimentos públicos, altera a comunicação entre profissionais e pacientes e redefine, muitas vezes de maneira invisível, quem merece ou não determinados cuidados.
Essa hipótese constitui o eixo central das páginas que seguem. Ela nasce da convergência entre diferentes campos do conhecimento. A filosofia demonstra que a velhice, nunca foi apenas um fenômeno biológico; ela sempre foi também uma construção cultural.
A sociologia revela que as sociedades atribuem significados distintos ao envelhecimento, conforme seus valores históricos. A bioética recorda que autonomia, beneficência, não maleficência e justiça, permanecem válidas independentemente da idade. A geriatria demonstra que envelhecimento, não equivale a doença, e que funcionalidade importa mais do que idade cronológica. A saúde pública evidencia, que combater o preconceito melhora desfechos clínicos e reduz desigualdades.
Essas perspectivas convergem para uma mesma conclusão. A forma como cuidamos das pessoas idosas, não depende apenas da qualidade da medicina que possuímos. Depende, sobretudo, da imagem de humanidade que cultivamos. Nenhuma tecnologia consegue compensar uma cultura, que naturaliza a exclusão. Nenhum protocolo clínico elimina preconceitos silenciosamente incorporados ao cotidiano das instituições. Nenhuma política pública será plenamente eficaz, enquanto persistir a convicção implícita, de que envelhecer significa perder valor. Talvez por isso o enfrentamento do etarismo exija uma mudança mais profunda, do que a simples atualização de práticas assistenciais.
Ele exige uma revisão da própria ideia de pessoa.
A modernidade construiu extraordinários mecanismos para prolongar a existência biológica. O desafio contemporâneo consiste em garantir que essa existência, continue sendo reconhecida como igualmente digna em todas as etapas da vida. É precisamente nessa intersecção, entre ciência, filosofia e ética, que este ensaio se desenvolve. Para compreender o etarismo será necessário, antes de tudo, compreender a própria invenção cultural da velhice. Pois aquilo que hoje chamamos de envelhecimento, nunca foi apenas um acontecimento biológico. Sempre foi, também, uma narrativa construída pelas sociedades acerca do tempo, da utilidade, da vulnerabilidade e do significado da existência humana. É por esse caminho que a reflexão agora prossegue.
Esse texto constitui a abertura da obra. O próximo capítulo, "A invenção social da velhice: Simone de Beauvoir, Norbert Elias e a condição humana", aprofundará a base filosófica do ensaio, mostrando que o etarismo antecede o sistema de saúde: ele nasce na maneira como a cultura moderna passou a compreender o tempo, o corpo e a finitude. A partir desse fundamento, todo o restante da argumentação ganhará unidade e profundidade.
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