OITO ENCONTROS ANTES DO FIM
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vamos escrever essa visão de dois sistemas filosoficos vivos, e cada encontro correspondendo a um tema: tempo, memória, corpo, amor, liberdade, história, morte e sentido.
Sim. Aqui o conto pode ganhar uma arquitetura muito mais ambiciosa: Domício e Antonio deixam de ser simplesmente dois idosos que conversam e passam a encarnar duas filosofias existenciais incompatíveis. O interessante é que nenhum deles deve “vencer” o outro. Ao longo dos oito encontros, cada um começa a perceber que sua própria filosofia contém uma insuficiência.
Eu estruturaria a obra como “Oito encontros antes do fim”, com um nono movimento final, em que o encontro já não acontece entre os dois homens, mas entre Antonio e a ausência de Domício.
Estrutura do romance-conto
- Tempo — O que significa envelhecer?
Domício vê o tempo como transformação; Antonio, como desgaste. - Memória — O passado nos pertence?
Antonio vive cercado pelas lembranças; Domício sustenta que lembrar não é recuperar. - Corpo — Somos aquilo que envelhece?
O médico fala da decadência fisiológica; o filósofo pergunta se o corpo esgota aquilo que somos. - Amor — Por que amar aquilo que podemos perder?
Antonio considera o amor uma das grandes armadilhas da existência; Domício, a única forma de aceitar a vulnerabilidade. - Liberdade — Somos realmente livres?
Antonio acusa a vida de aprisionar o homem em corpo, história e circunstâncias; Domício procura uma liberdade menor, porém possível. - História — O que aprendemos com as civilizações?
Domício contempla a longa história humana; Antonio enxerga uma sucessão de violência, dominação e fracasso. - Morte — O que significa saber que vamos morrer?
Aqui os dois se aproximam perigosamente: a morte não é mais uma ideia, mas uma presença. - Sentido — É possível viver sem uma finalidade?
O confronto final. Antonio sustenta que a ausência de sentido torna tudo absurdo. Domício responde que talvez o sentido não seja encontrado, mas produzido. - A ausência — O último argumento
Domício morre. Antonio precisa descobrir se alguma coisa da filosofia do amigo sobrevive àquele que a defendia.
E eu começaria a narrativa de maneira mais literária, quase como se estivéssemos apresentando dois personagens que são, simultaneamente, dois argumentos filosóficos:
OITO ENCONTROS ANTES DO FIM
I — TEMPO
Dois homens diante do mesmo relógio
Domício Siqueira tinha setenta e oito anos quando deixou de usar relógio.
Não foi uma decisão filosófica.
Isso era importante.
Ele não queria transformar a própria velhice em uma tese, nem pretendia fazer de cada gesto uma parábola sobre a existência. Havia passado quarenta anos ensinando filosofia e sabia que uma das maiores tentações dos filósofos é transformar a vida em argumento.
Deixara o relógio sobre a mesa de cabeceira numa manhã de terça-feira.
Naquele dia, não precisava chegar a lugar algum.
A universidade havia ficado para trás.
As aulas haviam ficado para trás.
As reuniões, os congressos, as provas, as bancas, os prazos, as viagens, os compromissos e até aquela ansiedade peculiar dos homens que acreditam que alguma coisa terrível acontecerá se chegarem cinco minutos atrasados haviam ficado para trás.
Domício descobrira uma coisa extraordinária:
não estar atrasado para nada era uma forma desconhecida de liberdade.
Aos setenta e oito anos, pela primeira vez na vida, podia acordar sem perguntar imediatamente:
Quanto tempo tenho?
Essa pergunta o acompanhara desde a juventude.
Quando era menino, queria saber quanto faltava para as férias.
Quando adolescente, quanto faltava para terminar a escola.
Quando jovem, quanto faltava para concluir a faculdade.
Depois vieram os prazos.
Depois os filhos.
Depois as contas.
Depois a aposentadoria.
Depois os exames médicos.
A vida inteira havia sido organizada em torno da passagem do tempo.
E agora, quando o tempo já não parecia uma coisa que pudesse ser administrada, Domício começava a suspeitar que talvez tivesse compreendido tudo errado.
O tempo não era uma estrada.
Era uma espécie de água.
Não caminhávamos sobre ele.
Estávamos dentro dele.
Foi por isso que começou a frequentar o parque todas as manhãs.
Sentava-se no mesmo banco, diante do lago.
Não fazia exercícios.
Não lia.
Não meditava.
Não praticava nenhuma dessas atividades que os homens inventam quando precisam justificar que estão parados.
Apenas ficava ali.
Observava.
Crianças correndo.
Jovens atravessando a praça.
Velhos caminhando lentamente.
Pombos disputando migalhas.
Uma mulher empurrando um carrinho de bebê.
Um homem sempre apressado, sempre ao telefone, sempre parecendo estar atrasado para alguma coisa que Domício jamais descobriria.
Era curioso.
Quanto mais velho ficava, mais gostava de observar aqueles que ainda acreditavam possuir o futuro.
O futuro era uma espécie de território imaginário que os jovens habitavam com absoluta confiança.
Domício também vivera lá.
Acreditara no futuro como quem acredita numa propriedade.
Teria uma profissão.
Uma casa.
Uma família.
Livros publicados.
Alunos.
Reconhecimento.
Viagens.
Talvez algum dia escrevesse algo que sobrevivesse a ele.
Tudo parecia possível porque o futuro era enorme.
Agora, o futuro cabia em intervalos.
A próxima manhã.
A próxima visita.
O próximo livro.
O próximo café.
A próxima conversa.
E, estranhamente, isso não lhe parecia uma diminuição.
Parecia uma concentração.
Foi numa dessas manhãs que Antonio Dumonte apareceu.
Sentou-se no banco ao lado sem pedir licença.
Tinha setenta e nove anos, era médico aposentado e carregava uma expressão que Domício classificaria, se solicitado, como “cientificamente pessimista”.
Antonio não parecia triste.
Era pior.
Parecia convencido.
Tinha o rosto de quem chegara a uma conclusão desagradável e passara décadas procurando provas para confirmá-la.
Durante alguns minutos, os dois permaneceram em silêncio.
Antonio olhava o relógio.
Domício percebeu.
— O senhor ainda usa relógio.
Antonio olhou para o próprio pulso.
— E o senhor não.
— Deixei de usar.
— Por quê?
Domício apontou para o lago.
— Descobri que ele continua andando sem mim.
Antonio franziu a testa.
— O quê?
— O tempo.
Antonio olhou para o lago.
— Claro que continua.
— Essa é justamente a questão.
Antonio voltou-se para ele.
— O senhor é filósofo?
Domício sorriu.
— Fui professor de filosofia.
— Então é.
— E o senhor?
— Médico.
— Então também é.
Antonio pareceu não compreender.
— Também sou o quê?
— Um filósofo.
Antonio soltou uma pequena risada.
— Nunca estudei filosofia.
— Não é necessário.
— Para ser filósofo?
— Não. Para passar a vida inteira tentando responder às perguntas que não possuem resposta.
Antonio olhou para ele com desconfiança.
— E qual é a sua resposta?
— Para qual pergunta?
— Para a velhice.
Domício ficou alguns segundos em silêncio.
— A velhice não é uma resposta.
— É o quê?
— Uma pergunta.
Antonio riu.
— Isso é uma maneira elegante de não responder.
— E o que você responderia?
Antonio ajeitou-se no banco.
— Biologicamente?
— Não.
— Então filosoficamente?
— Também não.
Antonio ficou olhando para a água.
— A velhice é o momento em que o corpo começa a cobrar aquilo que a vida gastou.
Domício não respondeu.
Antonio continuou:
— O homem passa a primeira metade da vida acumulando energia e a segunda descobrindo que não consegue gastá-la.
— Você parece ter uma opinião bastante negativa sobre envelhecer.
— Não é opinião. É observação clínica.
Domício sorriu.
— Esse é o seu primeiro erro.
Antonio virou-se.
— Qual?
— Confundir o que pode ser observado com aquilo que pode ser concluído.
Antonio estreitou os olhos.
— O senhor sabe que está falando com um médico?
— Sei.
— Passei cinquenta anos observando pessoas envelhecerem.
— E eu passei quarenta ensinando pessoas a perguntar o que significa envelhecer.
— Então estamos empatados.
— Não.
— Não?
— Estamos começando.
Antonio olhou para o relógio.
Domício percebeu.
— Que horas são?
— Dez e quinze.
— E isso importa?
— Naturalmente.
— Por quê?
Antonio apontou para o relógio.
— Porque dez e quinze não volta.
Domício sorriu.
— Finalmente uma coisa em que concordamos.
Antonio pareceu satisfeito.
— Então estamos de acordo.
— Não exatamente.
— Qual é a diferença?
Domício olhou para o lago.
— Você acha que o fato de dez e quinze não voltar é uma tragédia.
— E o senhor não?
— Acho que é a condição que torna dez e quinze importante.
Antonio não respondeu.
Aquela frase o incomodou.
Não porque fosse convincente.
Mas porque não era inteiramente falsa.
Nos dias seguintes, encontraram-se novamente.
Depois novamente.
Nenhum dos dois combinou.
Apenas começaram a aparecer.
O banco tornou-se uma espécie de território neutro.
Domício chegava primeiro.
Antonio aparecia depois.
Às vezes discutiam.
Às vezes permaneciam em silêncio.
Aos poucos, descobriram que não eram simplesmente dois velhos com opiniões diferentes.
Eram duas maneiras de interpretar o fato de estar vivo.
Domício acreditava que a velhice podia ser uma forma de compreensão.
Antonio acreditava que era a fase final de uma deterioração.
Domício via a passagem do tempo como transformação.
Antonio, como perda.
Domício considerava a finitude uma condição inevitável que podia conferir valor à existência.
Antonio considerava-a uma crueldade biológica que não se tornava menos cruel porque era inevitável.
Domício dizia:
— A vida muda.
Antonio respondia:
— A vida deteriora.
Domício dizia:
— Nós nos transformamos.
Antonio:
— Nós envelhecemos.
Domício:
— Envelhecer é transformar-se.
Antonio:
— Transformar-se não significa necessariamente melhorar.
E talvez estivesse aí a primeira verdade de Antonio.
Domício sabia disso.
Mas não lhe dizia.
Ainda.
Certa manhã, Antonio chegou mais cedo.
Domício encontrou-o olhando fixamente para o relógio.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Você está olhando para ele há cinco minutos.
— Estou esperando.
— O quê?
Antonio mostrou o pulso.
— Dez e quinze.
Domício olhou.
— São dez e quinze.
— Exatamente.
— E?
Antonio demorou a responder.
— É estranho.
— O quê?
— Ontem, às dez e quinze, eu estava aqui.
— E hoje também.
— Sim.
— Então?
Antonio levantou os olhos.
— Ontem eu tinha vinte e quatro horas a mais.
Domício ficou em silêncio.
Antonio continuou:
— Hoje tenho vinte e quatro horas a menos.
— Isso é verdade.
— E o senhor acha bonito?
Domício sentou-se.
— Não.
Antonio pareceu surpreso.
— Não?
— Não acho bonito.
— Então?
Domício olhou para o lago.
— Acho profundo.
Antonio fez uma expressão de impaciência.
— Qual é a diferença?
Domício sorriu.
— A beleza consola.
— E a profundidade?
— A profundidade obriga a pensar.
Antonio ficou calado.
Domício prosseguiu:
— Talvez o problema da velhice seja que ela retira do homem a ilusão de que ainda existe tempo suficiente para não pensar.
Antonio baixou os olhos.
Dessa vez, não respondeu.
Naquela tarde, Domício voltou para casa pensando em Antonio.
Não gostava da maneira como aquele homem falava da velhice.
Havia nela alguma coisa que o incomodava porque era parcialmente verdadeira.
Domício conhecia o discurso da esperança.
Conhecia também o risco de transformar aceitação em conformismo.
Talvez sua própria filosofia escondesse uma covardia.
Talvez chamar a velhice de “nova etapa” fosse apenas uma maneira elegante de evitar dizer que algumas coisas estavam terminando.
Antonio, por sua vez, naquela mesma noite, permaneceu durante muito tempo diante do relógio.
Pensava na frase de Domício.
A condição que torna dez e quinze importante.
Tentou rejeitá-la.
Não conseguiu.
Porque havia alguma coisa nela que contradizia sua própria experiência.
Durante décadas, Antonio tratara a passagem do tempo como inimiga.
Mas, se o tempo não passasse, nenhuma vida teria acontecido.
Não haveria infância.
Nem juventude.
Nem sua mulher.
Nem os filhos.
Nem a medicina.
Nem os pacientes que salvara.
Nem os que perdera.
Nada.
A eternidade, percebeu, não era o contrário da morte.
Era o contrário da experiência.
E essa descoberta o irritou profundamente.
Porque, pela primeira vez, o tempo lhe pareceu menos culpado.
No encontro seguinte, Antonio chegou carregando duas xícaras de café.
Entregou uma a Domício.
— Pensei sobre o que você disse.
Domício recebeu a xícara.
— Isso é perigoso.
— Não se acostume.
— O que você descobriu?
Antonio olhou para o relógio.
Depois para o lago.
— Que talvez o tempo não seja nosso inimigo.
Domício sorriu.
— E isso significa que você está se tornando otimista?
— Não exagere.
— Desculpe.
Antonio tomou um gole de café.
— O tempo é apenas aquilo que faz com que as coisas acabem.
Domício pensou.
— E comecem.
Antonio levantou os olhos.
— Não estrague.
Domício riu.
Antonio também.
Foi uma risada curta.
Quase contrariada.
Mas suficiente.
E nenhum dos dois percebeu que naquele instante começava uma amizade.
Não uma amizade fundada em semelhanças.
Talvez justamente o contrário.
Uma amizade construída sobre a possibilidade rara de dois homens envelhecerem lado a lado sem exigir que o outro pensasse como eles.
Naquela manhã, ainda não sabiam que discutiriam sobre memória, corpo, amor, liberdade, história, morte e sentido.
Não sabiam que, ao final, um deles morreria.
Não sabiam que o outro ficaria sozinho diante daquele mesmo lago.
E não sabiam, sobretudo, que a pergunta que os reuniria não seria:
“O que é a velhice?”
Seria uma pergunta muito mais difícil:
“O que resta de uma vida quando já não podemos acrescentar nada a ela?”
Por enquanto, porém, tinham café.
Tinham o banco.
Tinham o lago.
Tinham aquela manhã.
E, para dois homens que haviam passado quase oitenta anos tentando compreender o que significava existir, talvez aquilo já fosse uma resposta.
Ainda que nenhum dos dois estivesse disposto a admiti-lo.
A partir daqui, eu faria cada capítulo não apenas desenvolver um tema, mas provocar uma pequena fissura na filosofia de um dos personagens. No segundo encontro, “Memória”, Antonio deverá estar em terreno aparentemente invencível — afinal, ele vive das lembranças —, mas Domício introduzirá uma ideia perturbadora: talvez lembrar não seja conservar o passado, mas reinventá-lo continuamente. E, no capítulo do corpo, o próprio Domício começará a sentir na carne aquilo que até então tratava filosoficamente.
Isso permitirá que os oito encontros sejam, ao mesmo tempo, debates filosóficos, episódios da vida de dois idosos e uma lenta transformação de ambos, até o momento em que a morte de Domício obrigará Antonio a enfrentar o último tema: se o sentido não existe, o que fazer com o sentido que uma amizade efetivamente produziu?
Sim. Vamos manter a arquitetura como romance filosófico em oito encontros, fazendo com que cada capítulo tenha três movimentos simultâneos: o debate intelectual, um acontecimento concreto na vida dos dois e uma fissura na convicção de um deles. A transformação deve ser lenta, quase contra a vontade dos personagens.
Comecemos pelo segundo encontro.
II — MEMÓRIA
O passado não está onde pensamos
Antonio Dumonte acreditava na memória porque não tinha alternativa.
O presente lhe parecia uma espécie de corredor estreito por onde o corpo caminhava em direção a uma porta que ninguém desejava atravessar.
O futuro, depois dos setenta anos, perdera o encanto.
Já não havia grandes projetos esperando por ele, nem a ilusão de que alguma coisa extraordinária poderia começar amanhã. Havia consultas, exames, alguns livros, telefonemas ocasionais dos filhos e uma quantidade cada vez maior de pessoas conhecidas que apareciam em fotografias antigas.
O passado, porém, permanecia.
O passado não exigia força.
Não exigia saúde.
Não exigia futuro.
Bastava lembrar.
Antonio tinha transformado a memória em território de resistência.
Guardava fotografias em caixas.
Cartas.
Receitas médicas.
Bilhetes de cinema.
Um ingresso de uma viagem à Europa.
Uma passagem aérea de vinte e oito anos antes.
Um guardanapo de papel com uma frase escrita pela mulher durante um jantar.
Uma fotografia em que ela aparecia de perfil, olhando para alguma coisa fora do enquadramento.
Antonio não sabia exatamente o que havia naquele fora de campo.
Mas gostava de imaginar.
Sua mulher, Helena, estava morta havia quinze anos.
E Antonio continuava conversando com ela.
Não em voz alta.
Isso seria uma espécie de loucura que ele, médico, não admitiria.
Conversava interiormente.
Quando acordava.
Quando entrava em casa.
Quando encontrava alguma coisa que sabia que ela teria gostado.
Quando precisava tomar uma decisão.
Quando sentia dor.
Sobretudo quando sentia dor.
Helena saberia o que fazer.
Era uma frase que nunca dizia, mas que aparecia dentro dele com uma frequência quase religiosa.
Domício descobriu isso numa manhã de setembro.
Estavam sentados no banco do parque.
Antonio havia levado uma fotografia.
— Quem é? — perguntou Domício.
Antonio pareceu ofendido.
— Helena.
— Eu sei que é Helena.
— Então por que perguntou?
— Porque quero saber quem ela é agora.
Antonio olhou para ele.
— Ela está morta.
— Eu sei.
— Então não pode ser “agora”.
Domício olhou para a fotografia.
— É exatamente isso que quero discutir.
Antonio guardou imediatamente a fotografia no bolso.
— Não transforme Helena em filosofia.
— Não pretendo.
— Você sempre pretende.
Domício sorriu.
— E você sempre transforma filosofia em diagnóstico.
Antonio ficou sério.
— A memória não é uma abstração.
— Concordo.
— É uma realidade.
— Também concordo.
— Então qual é o problema?
Domício apoiou as mãos sobre a bengala.
— Talvez a memória não conserve o passado.
Antonio franziu a testa.
— É claro que conserva.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Então me conte o que aconteceu há vinte anos.
Antonio começou.
Falou de uma viagem que fizera com Helena ao litoral.
Lembrou-se do hotel.
Do restaurante.
Da praia.
Da chuva que caiu na segunda noite.
Do vestido que Helena usava.
Do vinho.
Da discussão.
Da reconciliação.
Falou durante vários minutos.
Domício não o interrompeu.
Quando terminou, perguntou:
— E como você sabe que foi assim?
Antonio pareceu irritado.
— Porque eu me lembro.
— Essa é a resposta que estou questionando.
— Você está dizendo que eu inventei?
— Não.
— Então?
Domício inclinou-se.
— Estou dizendo que talvez você tenha reconstruído.
Antonio ficou calado.
— A memória — continuou Domício — não é uma fotografia guardada numa gaveta. É uma história que contamos a nós mesmos cada vez que precisamos voltar a ela.
— Isso é especulação.
— Não. É experiência.
— Você está dizendo que minha lembrança de Helena não é verdadeira?
Domício olhou para ele com cuidado.
— Estou dizendo que ela pode ser verdadeira de uma maneira diferente daquela que você imagina.
Antonio levantou-se.
— Não quero discutir isso.
— Tudo bem.
— Não quero que você transforme minha mulher morta numa tese.
— Antonio...
— Não.
Ele começou a caminhar.
Domício não o chamou.
Sabia que algumas ideias precisavam ser deixadas sozinhas depois de lançadas.
Naquela noite, Antonio abriu a caixa.
Era uma caixa de madeira escura.
Helena comprara numa pequena loja em Lisboa.
Antonio lembrava-se perfeitamente.
Ou acreditava lembrar.
Retirou as fotografias.
Uma por uma.
Havia fotografias de viagens, aniversários, hospitais, reuniões familiares, festas de Natal.
Em uma delas, Helena aparecia diante de uma janela.
Antonio observou o rosto dela.
Depois olhou para outra.
E outra.
Percebeu uma coisa estranha.
Nas fotografias, Helena parecia diferente da mulher que ele carregava na memória.
Não fisicamente.
Mas emocionalmente.
A Helena das fotografias sorria mais.
Parecia mais impaciente.
Mais irônica.
Mais viva.
A Helena que Antonio guardava dentro de si era silenciosa.
Compreensiva.
Quase sempre triste.
A Helena real talvez não tivesse sido assim.
Antonio sentiu um incômodo.
Pegou a fotografia da viagem.
Olhou demoradamente.
Então percebeu que não lembrava mais da cor do vestido.
Não conseguia lembrar exatamente o restaurante.
Não lembrava o nome do hotel.
Mas lembrava da chuva.
Por quê?
Talvez porque a chuva tivesse caído sobre alguma coisa que ele precisava preservar.
Ou talvez porque, depois de quinze anos, a chuva tivesse se tornado mais importante do que realmente fora.
Antonio levantou-se.
Foi até a estante.
Pegou um livro antigo.
Dentro dele havia um pedaço de papel.
A letra de Helena.
Ele conhecia aquela letra.
Não precisava ler.
Mesmo assim, leu.
Era uma lista de compras.
Pão.
Leite.
Café.
Sabão.
Laranjas.
Antonio sorriu.
Uma lista de compras.
Era tudo.
Nada profundo.
Nenhuma declaração de amor.
Nenhuma frase memorável.
Nenhuma revelação.
Apenas uma lista.
E, no entanto, aquela folha lhe pareceu mais viva do que todas as fotografias.
Porque de repente Helena não era mais a mulher morta.
Era a mulher que precisava comprar laranjas.
Antonio sentou-se.
E chorou.
Não pela morte.
Pelo detalhe.
No dia seguinte, não apareceu no parque.
Nem no outro.
Nem no seguinte.
Domício não telefonou.
Sabia que Antonio voltaria.
Voltou.
Uma semana depois.
Sentou-se no banco.
Domício estava lendo.
— Você estava certo — disse Antonio.
Domício fechou o livro.
— Isso é raro.
— Não fique satisfeito.
— Não estou.
Antonio respirou fundo.
— Talvez eu tenha passado quinze anos lembrando de uma mulher que não existe mais.
Domício esperou.
— E isso me assusta.
— Por quê?
— Porque talvez eu também não exista mais.
Domício ficou imóvel.
Antonio continuou:
— Se minhas lembranças mudaram, então eu mudei junto com elas. Talvez o homem que viveu aquelas coisas tenha desaparecido há muito tempo.
Domício olhou para ele.
— Essa é uma das coisas mais difíceis de aceitar sobre a memória.
— Qual?
— Ela não é apenas uma ponte para o passado.
Pausa.
— É uma máquina que transforma o passado em nós.
Antonio olhou para o lago.
— Então recordar é inventar?
— Não exatamente.
— Qual a diferença?
— Inventar é criar algo que não existia. Recordar talvez seja reconstruir alguma coisa que existiu, mas que já não pode voltar exatamente como foi.
Antonio ficou pensativo.
— Então a memória é uma espécie de ficção?
— Talvez toda memória seja uma ficção com compromisso com a verdade.
Antonio soltou uma risada.
— Isso parece uma definição de literatura.
— E talvez seja.
A conversa terminou quando uma mulher aproximou-se do banco.
Tinha pouco mais de quarenta anos.
— O senhor é o doutor Antonio Dumonte?
Antonio levantou-se.
— Sim.
Ela hesitou.
— Meu pai morreu há duas semanas.
Antonio não conhecia a mulher.
— Sinto muito.
— Ele falava muito do senhor.
Antonio ficou desconfortável.
— Quem era seu pai?
Ela disse o nome.
Antonio demorou alguns segundos.
Nada.
Nenhuma lembrança.
A mulher continuou:
— O senhor tratou dele durante muitos anos.
Antonio procurou desesperadamente na memória.
Nada.
— Desculpe — disse.
— Não tem problema.
Ela abriu a bolsa.
Retirou uma fotografia.
Entregou-lhe.
Antonio viu um homem sentado numa cadeira hospitalar.
Ele próprio estava ao lado.
Mais jovem.
Muito mais jovem.
Na fotografia, Antonio sorria.
O paciente também.
Antonio olhou para o rosto do homem.
Continuava sem lembrar.
— Ele guardou isso durante vinte e três anos — disse a filha.
Antonio sentiu um peso no peito.
— Eu não me lembro dele.
— Eu sei.
A mulher sorriu.
— Mas ele se lembrava do senhor.
Depois foi embora.
Antonio permaneceu parado.
Domício não disse nada.
Finalmente, Antonio voltou ao banco.
Sentou-se.
— Então é isso.
— O quê?
— Eu também existo na memória de pessoas que não existem mais na minha.
Domício assentiu.
— Sim.
— E talvez eu tenha sido importante para alguém sem saber.
— Talvez.
Antonio olhou para a fotografia.
— Isso é injusto.
— Por quê?
— Porque passei a vida acreditando que precisava lembrar para que alguma coisa permanecesse.
Domício ficou em silêncio.
Antonio continuou:
— E agora descubro que posso ter permanecido na memória de alguém que eu mesmo esqueci.
Domício pousou a mão sobre o ombro dele.
— Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas da memória.
Antonio retirou a fotografia do bolso.
Guardou-a cuidadosamente.
— Não diga bonito.
— Por quê?
— Ainda estou pensando.
Naquela noite, Antonio abriu novamente a caixa de madeira.
Retirou a lista de compras.
Pão.
Leite.
Café.
Sabão.
Laranjas.
Pegou uma caneta.
No verso do papel, escreveu:
Helena, hoje percebi que talvez não me lembre mais de você.
Parou.
Leu.
Riscou.
Escreveu novamente:
Helena, hoje percebi que talvez tenha passado quinze anos tentando lembrar de você, quando deveria simplesmente ter aceitado que você mudou dentro de mim.
Parou.
Dessa vez não riscou.
Dobrou o papel.
Guardou-o na caixa.
No dia seguinte, encontrou Domício no parque.
— Tenho uma pergunta.
— Faça.
— Se a memória reconstrói tudo, como sabemos quem fomos?
Domício demorou.
— Talvez não saibamos.
Antonio esperou.
— Isso não o incomoda?
— Muito.
— Então por que parece tão tranquilo?
Domício sorriu.
— Porque finalmente encontrei uma coisa que a velhice me ensinou.
— Qual?
— Não precisamos possuir uma versão definitiva de nós mesmos.
Antonio olhou para ele.
— Isso é perigoso.
— Por quê?
— Porque pode significar que nunca fomos exatamente quem pensamos.
Domício sorriu.
— Agora você está começando a entender.
Antonio ficou em silêncio.
O lago permanecia diante deles.
A água refletia as árvores.
Por um instante, Antonio pensou que aquela paisagem também era uma forma de memória.
Nada ali era exatamente aquilo que parecia.
A água não guardava as árvores.
Apenas devolvia uma imagem delas.
Talvez fosse isso que a memória fizesse com a vida.
Não guardava o passado.
Devolvia uma imagem dele.
E cada vez que o passado retornava, alguma coisa mudava.
Antonio percebeu então a primeira fissura em sua própria filosofia.
Durante quinze anos, acreditara que viver era resistir à perda através da memória.
Agora começava a suspeitar que talvez a memória não fosse resistência.
Talvez fosse transformação.
E se fosse assim, então Helena não estava apenas morta.
Estava mudando dentro dele.
Como ele próprio mudava.
Quando se levantaram para ir embora, Antonio perguntou:
— Você tem medo de esquecer?
Domício pensou.
— Sim.
Antonio pareceu satisfeito.
— Então você admite.
— Admito.
— O quê?
— Que existe uma coisa que a velhice pode tirar de nós e que eu não sei como aceitar.
— A memória?
Domício balançou a cabeça.
— A possibilidade de continuar lembrando.
Antonio entendeu.
Não era a perda das próprias lembranças que Domício temia.
Era a perda dos outros.
Os mortos.
Os amigos.
Os pais.
Os antigos alunos.
As pessoas que haviam dado forma à sua vida e que, pouco a pouco, desapareciam também da memória coletiva.
Antonio guardou as mãos nos bolsos.
— Então você também tem medo.
Domício sorriu.
— É claro.
— Você nunca parece ter medo.
— Essa é a vantagem de ser professor de filosofia.
— Qual?
— A gente aprende a esconder as perguntas atrás das respostas.
Antonio riu.
Dessa vez, riu demoradamente.
E Domício percebeu que a fissura não estava apenas em Antonio.
Também ele começava a compreender uma coisa incômoda:
aceitar a finitude não significava estar preparado para perder.
Talvez nenhuma filosofia pudesse preparar um homem para isso.
Naquela noite, Domício abriu um caderno que mantinha na gaveta.
Escreveu:
Antonio acredita que a memória salva o passado.
Depois pensou.
Riscou.
Escreveu:
Antonio precisa acreditar que a memória salva o passado.
Pensou novamente.
Riscou outra vez.
Finalmente escreveu:
Talvez todos nós precisemos acreditar que alguma coisa permanece.
Fechou o caderno.
E, antes de apagar a luz, pensou que aquela talvez fosse a única diferença entre ele e Antonio.
Antonio precisava acreditar que o passado podia ser preservado.
Ele precisava acreditar que o futuro ainda podia ser compreendido.
Nenhum dos dois sabia que, dentro de pouco tempo, o próprio corpo começaria a destruir essas duas certezas.
E que o próximo encontro seria justamente sobre aquilo que nenhum deles conseguia tratar como metáfora:
o corpo.
O arco das próximas fissuras
O capítulo seguinte precisa ser particularmente importante porque a filosofia de Domício começará a sofrer no próprio corpo. Até aqui, ele pode falar da velhice como transformação porque ainda possui certa distância dela. No terceiro encontro, essa distância desaparece.
III — CORPO: Domício sofre uma queda ou recebe um diagnóstico que o obriga a experimentar a dependência. Antonio, acostumado a interpretar o corpo como deterioração, descobre que o amigo não aceita ser reduzido ao diagnóstico. Mas a fissura será inversa: Domício percebe que sua filosofia de aceitação talvez tenha sido confortável enquanto a dor era apenas conceito.
IV — AMOR: Antonio reencontra uma antiga conhecida de Helena e descobre que seu amor pela esposa foi também marcado por ressentimento, culpa e ambivalência. Domício, que defendia o amor como aceitação da vulnerabilidade, começa a compreender que amar também pode significar desejar possuir o outro.
V — LIBERDADE: Antonio afirmará que nenhum homem é verdadeiramente livre: somos determinados pelo corpo, pela classe, pela família, pela história, pelos genes e pelo acaso. Domício defenderá uma liberdade mínima — a capacidade de escolher a atitude diante do inevitável. Mas será colocado diante de uma situação em que nem sequer essa liberdade parecerá disponível.
VI — HISTÓRIA: Domício levará Antonio a uma exposição arqueológica ou museu. O professor verá a longa história das civilizações como uma lenta transformação da consciência. Antonio enxergará guerras, escravidão, impérios, genocídios e dominação. A fissura ocorrerá em Domício: talvez a história não seja progresso, mas apenas sofisticação da capacidade humana de justificar a violência.
VII — MORTE: Antonio descobrirá que seu corpo está mais próximo da morte do que imaginava — mas será Domício quem estará realmente condenado. Pela primeira vez, Antonio, o médico cético, desejará que exista algo que a medicina não consegue oferecer: tempo.
VIII — SENTIDO: será o confronto final entre os sistemas. Antonio sustentará que a amizade dos dois não prova que a vida tenha sentido, porque tudo aquilo desaparecerá. Domício responderá com a tese mais radical do romance: uma coisa não precisa durar eternamente para ter sido real.
E então virá o movimento final, “A Ausência”: Domício morre, e Antonio retorna sozinho ao banco. Ali deverá acontecer a inversão decisiva. O homem que passou a vida afirmando que a existência é indiferente descobrirá que, embora o universo possa ser indiferente, uma vida humana não é indiferente a outra vida humana.
Esse será o ponto em que o romance poderá formular sua pergunta mais profunda:
Se o sentido não estava no universo, mas nasceu entre dois homens que conversaram durante seus últimos anos, será que o sentido precisa existir antes de nós para ser verdadeiro?
Essa pergunta pode ser o verdadeiro “último argumento” de Domício — e talvez a única coisa que Antonio jamais conseguirá refutar.
Vamos fechá-lo como um conto filosófico completo, mas sem transformar a filosofia em discursos independentes da vida. Cada ideia deverá nascer de uma situação concreta; cada situação deverá ferir uma convicção; e cada fissura deverá aproximar os dois homens de uma verdade que nenhum deles consegue dominar intelectualmente.
O título pode ser OITO ENCONTROS ANTES DO FIM. O último movimento, “Sentido”, não oferecerá uma reconciliação confortável: a amizade terá produzido sentido para Antonio, mas isso não provará que a existência tenha sentido. Essa distinção é essencial para preservar o realismo trágico que você propõe.
OITO ENCONTROS ANTES DO FIM
Um conto sobre o tempo, a memória e aquilo que não podemos compreender
I — TEMPO
Domício Siqueira deixou de usar relógio aos setenta e oito anos.
Não foi uma decisão filosófica.
Isso precisava ser esclarecido porque Domício passara quarenta anos ensinando filosofia e desenvolvera uma certa aversão às pessoas que transformavam cada gesto cotidiano numa conclusão sobre a existência.
Deixou o relógio sobre a mesa de cabeceira numa terça-feira de maio.
Não precisava chegar a lugar algum.
A universidade havia ficado para trás. As aulas, as provas, as bancas, os congressos, os prazos, os compromissos, os encontros marcados com semanas de antecedência e até aquela ansiedade dos homens que acreditam que cinco minutos de atraso podem comprometer o futuro haviam ficado para trás.
Descobrira uma coisa extraordinária:
não estar atrasado para nada era uma forma desconhecida de liberdade.
Aos setenta e oito anos, podia acordar sem perguntar imediatamente:
Quanto tempo tenho?
Durante toda a vida fizera essa pergunta sem perceber.
Quando menino, queria saber quanto faltava para as férias.
Adolescente, quanto faltava para terminar a escola.
Jovem, quanto faltava para se formar.
Depois vieram os prazos, os filhos, as contas, as reuniões, os livros, as doenças dos pais, a aposentadoria.
A vida inteira havia sido organizada pela passagem do tempo.
E agora que o tempo começava a se tornar visível, Domício suspeitava de que talvez tivesse compreendido tudo errado.
O tempo não era uma estrada.
Era uma espécie de água.
Não caminhávamos sobre ele.
Estávamos dentro dele.
Por isso começou a frequentar o parque todas as manhãs.
Sentava-se no mesmo banco, diante do lago.
Não fazia exercícios.
Não lia.
Não meditava.
Não fazia nada que pudesse ser classificado como produtivo.
Apenas observava.
Crianças correndo.
Jovens atravessando a praça.
Velhos caminhando lentamente.
Pombos disputando migalhas.
Uma mulher empurrando um carrinho de bebê.
Um homem sempre apressado, sempre ao telefone, sempre parecendo atrasado para alguma coisa.
Era curioso.
Quanto mais velho ficava, mais gostava de observar os que ainda acreditavam possuir o futuro.
O futuro era uma espécie de território imaginário que os jovens habitavam com absoluta confiança.
Domício também vivera lá.
Acreditara no futuro como quem acredita numa propriedade.
Teria uma profissão.
Uma casa.
Filhos.
Livros.
Alunos.
Reconhecimento.
Viagens.
Talvez alguma coisa sobrevivesse a ele.
Tudo parecia possível porque o futuro era enorme.
Agora, o futuro cabia em intervalos.
A próxima manhã.
O próximo café.
O próximo livro.
A próxima conversa.
E isso não lhe parecia diminuição.
Parecia concentração.
Foi numa dessas manhãs que Antonio Dumonte apareceu.
Tinha setenta e nove anos, era médico aposentado e carregava a expressão de quem havia chegado a uma conclusão desagradável e passara décadas procurando provas para confirmá-la.
Não parecia triste.
Parecia convencido.
Sentou-se no banco ao lado.
Os dois permaneceram em silêncio.
Antonio olhava o relógio.
Domício percebeu.
— O senhor ainda usa relógio.
Antonio olhou para o pulso.
— E o senhor não.
— Deixei de usar.
— Por quê?
Domício apontou para o lago.
— Descobri que ele continua andando sem mim.
Antonio franziu a testa.
— O quê?
— O tempo.
Antonio olhou para o lago.
— Claro que continua.
— Essa é justamente a questão.
Antonio voltou-se.
— O senhor é filósofo?
— Fui professor de filosofia.
— Então é.
— E o senhor?
— Médico.
Domício sorriu.
— Então também é.
Antonio pareceu não compreender.
— Também sou o quê?
— Um filósofo.
— Nunca estudei filosofia.
— Não é necessário.
Antonio soltou uma risada.
— E qual é a sua resposta?
— Para qual pergunta?
— Para a velhice.
Domício pensou.
— A velhice não é uma resposta.
— É o quê?
— Uma pergunta.
Antonio riu.
— Isso é uma maneira elegante de não responder.
— E o que você responderia?
Antonio apontou para o próprio corpo.
— A velhice é o momento em que o organismo começa a cobrar aquilo que a vida gastou.
Domício não respondeu.
— O homem passa a primeira metade da vida acumulando energia — continuou Antonio — e a segunda descobrindo que não consegue gastá-la.
— Você parece ter uma opinião bastante negativa sobre envelhecer.
— Não é opinião. É observação clínica.
Domício sorriu.
— Esse é o seu primeiro erro.
Antonio virou-se.
— Qual?
— Confundir o que pode ser observado com aquilo que pode ser concluído.
Antonio estreitou os olhos.
— Passei cinquenta anos observando pessoas envelhecerem.
— E eu passei quarenta ensinando pessoas a perguntar o que significa envelhecer.
— Então estamos empatados.
— Não.
— Não?
— Estamos começando.
Encontraram-se novamente.
Depois outra vez.
Não combinaram.
Apenas começaram a aparecer.
O banco tornou-se território neutro.
Domício chegava primeiro.
Antonio aparecia depois.
Aos poucos descobriram que não eram apenas dois velhos com opiniões diferentes.
Eram duas maneiras de interpretar o fato de estar vivo.
Domício acreditava que a velhice podia ser uma forma de compreensão.
Antonio acreditava que era a fase final da deterioração.
Domício via a passagem do tempo como transformação.
Antonio, como perda.
Domício considerava a finitude uma condição inevitável que podia conferir valor à existência.
Antonio considerava-a uma crueldade biológica que não se tornava menos cruel por ser inevitável.
Domício dizia:
— A vida muda.
Antonio:
— A vida deteriora.
Domício:
— Nós nos transformamos.
Antonio:
— Nós envelhecemos.
Domício:
— Envelhecer é transformar-se.
Antonio:
— Transformar-se não significa melhorar.
E talvez estivesse aí a primeira verdade de Antonio.
Domício sabia.
Mas não dizia.
Ainda.
II — MEMÓRIA
Antonio acreditava na memória porque não tinha alternativa.
O presente lhe parecia estreito.
O futuro perdera o encanto.
O passado, porém, permanecia.
Guardava fotografias, cartas, receitas médicas, ingressos, cartões, bilhetes e pequenos objetos que ninguém mais entenderia.
Guardava sobretudo Helena.
Helena morrera quinze anos antes.
Antonio continuava conversando com ela.
Não em voz alta.
Isso seria uma espécie de loucura que ele, médico, não admitiria.
Conversava interiormente quando acordava, quando chegava em casa, quando precisava tomar uma decisão.
Sobretudo quando sentia dor.
Helena saberia o que fazer.
Foi por isso que, numa manhã de setembro, levou uma fotografia ao parque.
— Quem é? — perguntou Domício.
Antonio ficou ofendido.
— Helena.
— Eu sei.
— Então por que perguntou?
— Quero saber quem ela é agora.
Antonio guardou a fotografia.
— Ela está morta.
— Eu sei.
— Então não existe “agora”.
Domício olhou para o lago.
— Talvez seja justamente isso que precisamos discutir.
Antonio levantou-se.
— Não transforme Helena em filosofia.
— Não pretendo.
— Você sempre pretende.
— E você sempre transforma filosofia em diagnóstico.
Antonio ficou sério.
— A memória é uma realidade.
— Concordo.
— Então qual é o problema?
— Talvez a memória não conserve o passado.
Antonio riu.
— É claro que conserva.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Então conte-me o que aconteceu há vinte anos.
Antonio contou.
Uma viagem ao litoral.
O hotel.
O restaurante.
A chuva.
O vestido de Helena.
Uma discussão.
A reconciliação.
Domício ouviu.
Depois perguntou:
— E como você sabe que foi assim?
— Porque me lembro.
— Essa é justamente a resposta que estou questionando.
Antonio levantou-se.
— Você está dizendo que inventei?
— Não.
— Então?
— Talvez você tenha reconstruído.
Antonio guardou a fotografia.
— Não quero discutir isso.
Foi embora.
Naquela noite abriu a caixa de madeira.
Retirou as fotografias.
Em uma delas, Helena aparecia diante de uma janela.
Antonio percebeu algo estranho.
A Helena das fotografias não era exatamente a Helena que carregava na memória.
Não fisicamente.
Mas emocionalmente.
Nas fotografias, ela parecia mais impaciente, mais irônica, mais viva.
A Helena que Antonio guardava dentro de si era silenciosa, compreensiva, quase sempre triste.
Talvez tivesse passado quinze anos lembrando de uma mulher que já não existia nem mesmo na memória.
Encontrou então uma lista de compras.
A letra de Helena.
Pão.
Leite.
Café.
Sabão.
Laranjas.
Antonio sorriu.
Uma lista de compras.
Nada profundo.
Nenhuma declaração de amor.
Nenhuma frase memorável.
Apenas uma mulher que precisava comprar laranjas.
E aquela folha pareceu-lhe mais viva do que todas as fotografias.
Porque de repente Helena não era a mulher morta.
Era a mulher que precisava comprar laranjas.
Antonio chorou.
Não pela morte.
Pelo detalhe.
Uma semana depois, voltou ao parque.
— Você estava certo — disse.
— Isso é raro.
— Não fique satisfeito.
— Não estou.
Antonio olhou para o lago.
— Talvez eu tenha passado quinze anos lembrando de uma mulher que não existe mais.
Domício não respondeu.
— E isso me assusta.
— Por quê?
— Porque talvez eu também não exista mais.
Foi a primeira fissura.
Antonio sempre acreditara que o passado era aquilo que permanecia.
Agora começava a perceber que a memória não conservava.
Transformava.
Nesse mesmo dia, uma mulher aproximou-se.
— O senhor é o doutor Antonio Dumonte?
— Sim.
— Meu pai morreu há duas semanas.
Antonio esperou.
— O senhor o tratou durante muitos anos.
Antonio não lembrava.
Ela mostrou uma fotografia.
Antonio estava ao lado do paciente.
Mais jovem.
Muito mais jovem.
Os dois sorriam.
— Ele guardou isso por vinte e três anos — disse ela.
Antonio olhou para o rosto do homem.
Nada.
Nenhuma lembrança.
— Desculpe — disse.
— Não tem problema.
Ela sorriu.
— Ele se lembrava do senhor.
Depois foi embora.
Antonio permaneceu imóvel.
Voltou ao banco.
— Então é isso.
— O quê? — perguntou Domício.
— Eu também existo na memória de pessoas que não existem mais na minha.
Domício assentiu.
— Sim.
Antonio olhou para a fotografia.
— Passei a vida acreditando que precisava lembrar para que alguma coisa permanecesse.
Domício ficou em silêncio.
— E agora descubro que posso ter permanecido na memória de alguém que eu mesmo esqueci.
Domício pousou a mão sobre o ombro dele.
— Talvez seja essa uma das coisas mais estranhas da memória.
Antonio não respondeu.
Naquela noite, escreveu no verso da lista de compras:
Helena, talvez eu não me lembre mais de você como você foi.
Parou.
Depois acrescentou:
Mas talvez aquilo que você se tornou dentro de mim também seja uma forma de você ter continuado.
Não sabia se acreditava naquilo.
Mas escreveu.
E guardou.
III — CORPO
O corpo foi o primeiro a trair Domício.
Aconteceu numa manhã de outubro.
Não houve aviso.
Não houve dor.
Apenas uma tontura.
Domício estava levantando-se do banco quando o chão pareceu afastar-se.
Antonio o segurou.
— Sente.
— Estou bem.
— Sente.
— Antonio...
— Você está pálido.
— Estou velho.
— Isso não é diagnóstico.
Domício sentou-se.
Antonio examinou-o ali mesmo.
Pressão.
Pulso.
Pupilas.
Perguntas.
— Vamos ao hospital.
— Não.
— Domício.
— Eu disse que não.
— Você acabou de quase cair.
— Quase.
— É assim que os velhos começam.
Domício olhou para ele.
— Não diga “os velhos” como se você tivesse vinte e cinco anos.
Antonio não sorriu.
— Você está com medo?
Domício demorou.
— Estou.
Foi uma resposta inesperada.
Antonio ficou quieto.
Naquela tarde, os exames revelaram um problema cardíaco.
Nada imediatamente fatal.
Mas suficiente.
O cardiologista falou em medicamentos, controle, acompanhamento, restrições.
Domício ouviu tudo.
Depois perguntou:
— E quanto tempo?
O médico respondeu:
— Não podemos saber.
Domício saiu do consultório irritado.
Antonio percebeu.
— Você não gostou.
— Passei a vida dizendo que não precisamos possuir o futuro.
— E?
— Descobri que não possuir não significa que eu não queira.
Foi a segunda fissura.
A filosofia parecia diferente quando era o coração que estava sendo discutido.
Durante algumas semanas, Domício passou a andar mais devagar.
Isso o irritava.
Não porque sentisse dor.
Mas porque precisava medir.
Antes atravessava o parque sem pensar.
Agora calculava a distância.
Parava.
Respirava.
Esperava.
O corpo havia introduzido uma palavra nova em sua filosofia:
limite.
Antonio, por sua vez, descobriu algo que nunca aprendera na medicina.
O corpo não era apenas um mecanismo.
Era também uma biografia.
Quando Domício se cansava, Antonio não via apenas um coração com menor reserva funcional.
Via o homem que correra pelos corredores da universidade.
O homem que viajara de trem pela Europa.
O homem que carregara caixas de livros.
O homem que jogara futebol aos vinte anos.
O homem que dançara com a mulher em uma festa de casamento.
O corpo de Domício continha coisas que nenhum exame mostrava.
— Você está ficando sentimental — disse Domício.
— Estou ficando velho.
— Isso é contagioso.
— Não brinque.
Domício sorriu.
— O médico está começando a enxergar o corpo.
Antonio respondeu:
— E o filósofo está começando a senti-lo.
Nenhum dos dois riu.
Certa manhã, Domício teve dificuldade para levantar-se.
Antonio ofereceu a mão.
Domício recusou.
Tentou novamente.
Não conseguiu.
Tentou outra vez.
Antonio segurou seu braço.
Dessa vez, Domício aceitou.
Foi um gesto pequeno.
Mas para ele significou uma derrota.
— Não diga nada — pediu.
Antonio não disse.
Domício ficou de pé.
— Eu sempre pensei que aceitar a velhice fosse aceitar a dependência.
— Não é?
— Talvez.
— E agora?
Domício olhou para a mão de Antonio.
— Agora estou descobrindo que ninguém é independente.
Antonio ficou em silêncio.
— A diferença — continuou Domício — é que os jovens podem fingir.
Naquela tarde, Antonio recebeu uma mensagem da filha.
Pai, preciso que você vá ao médico.
Ele não respondeu.
Domício perguntou:
— Problemas?
— Minha filha.
— O que ela quer?
— Que eu vá morar com ela.
— E você?
— Não.
— Por quê?
Antonio olhou para Domício.
— Porque não quero que ela veja o que está acontecendo comigo.
— E o que está acontecendo?
Antonio não respondeu.
Domício entendeu.
— Você está envelhecendo.
— Não diga isso.
— Por quê?
— Porque vindo de você parece uma sentença.
Domício sorriu tristemente.
— Agora você sabe como eu me sinto quando você fala como médico.
Foi a primeira vez que Antonio percebeu que o diagnóstico também podia ser uma forma de violência.
Não uma violência intencional.
Mas ainda assim violência.
Reduzir um homem àquilo que seu corpo começava a perder era tão injusto quanto reduzi-lo àquilo que ainda conseguia fazer.
A medicina explicava.
Mas não compreendia tudo.
Antonio, pela primeira vez, aceitou isso.
IV — AMOR
Helena apareceu quando Antonio menos esperava.
Não ela.
A memória dela.
Foi uma mulher que o procurou.
Chamava-se Teresa.
Havia estudado com Helena na faculdade.
Antonio a reconheceu depois de alguns segundos.
Encontraram-se por acaso numa livraria.
Teresa estava muito mais velha.
Antonio também.
Conversaram.
Depois ela perguntou:
— Você ainda fala dela?
Antonio ficou desconfortável.
— Às vezes.
Teresa sorriu.
— Ela falava muito de você.
— O que dizia?
Teresa hesitou.
— Quer mesmo saber?
— Sim.
— Ela achava você difícil.
Antonio riu.
— Isso não é novidade.
— Achava você brilhante.
Ele parou de rir.
— E?
— Achava você cruel às vezes.
Antonio ficou imóvel.
— Cruel?
— Você não percebia.
— Em que sentido?
Teresa deu de ombros.
— Você queria ter razão mesmo quando ela precisava apenas que você a escutasse.
A frase acompanhou Antonio durante dias.
Quando contou a Domício, esperava uma explicação.
Domício apenas perguntou:
— Você acha que ela estava certa?
Antonio não respondeu.
— Você não sabe.
— Não.
— Então talvez essa seja uma pergunta que a memória não consiga resolver.
Antonio olhou para ele.
— Eu amava Helena.
— Eu sei.
— Muito.
— Também sei.
— Então como podia ser cruel?
Domício pensou.
— Talvez o amor não nos torne melhores.
Antonio franziu a testa.
— O que o amor faz?
— Torna mais importante aquilo que fazemos.
A frase o perturbou.
Antonio sempre pensara no amor como a coisa que justificava os sacrifícios da existência.
Agora começava a suspeitar do contrário.
O amor aumentava a possibilidade de sofrimento.
Amar alguém era aceitar que o outro possuiria poder suficiente para feri-lo.
E, pior:
poderia morrer.
Antonio abriu novamente a caixa de Helena.
Encontrou uma carta.
Nunca a lera.
Não lembrava dela.
Era uma carta escrita durante uma crise do casamento.
Helena dizia que o amava.
Mas também dizia:
Às vezes tenho a impressão de que você ama mais a ideia que faz de mim do que a mulher que realmente sou.
Antonio precisou sentar-se.
A frase abriu uma ferida antiga.
Ele havia passado quinze anos idealizando Helena.
Talvez até a morte dela tivesse sido transformada em uma versão conveniente do amor.
Helena real era contraditória.
Impaciente.
Amorosa.
Ciumenta.
Generosa.
Às vezes injusta.
Às vezes cruel.
Humana.
Antonio percebera então que até o amor podia ser falsificado pela memória.
A morte havia tornado Helena perfeita.
E talvez isso fosse uma segunda injustiça.
Quando contou a Domício, este disse:
— Talvez amar seja permitir que alguém permaneça imperfeito dentro de nós.
— E se a imperfeição doer?
— Então dói.
— Só isso?
— O que você quer? Uma teoria que elimine a dor?
Antonio ficou irritado.
— Você sempre termina assim.
— Assim como?
— Admitindo que não há solução.
Domício sorriu.
— Porque geralmente não há.
Antonio olhou para o amigo.
— Você sabe que isso destrói boa parte da filosofia.
— Eu sei.
— E não se importa?
— Aos setenta e oito anos, descobri que algumas coisas são mais importantes do que salvar a filosofia.
V — LIBERDADE
O quinto encontro aconteceu durante uma greve de transporte.
O parque estava quase vazio.
Antonio chegara irritado.
— Somos livres? — perguntou, sem introdução.
Domício sorriu.
— Você acordou filosófico.
— Responda.
— Não.
Antonio pareceu satisfeito.
— Finalmente.
— Mas também não somos completamente determinados.
— Pelo corpo?
— Pelo corpo.
— Pela história?
— Pela história.
— Pela genética?
— Também.
— Pela família?
— Certamente.
— Pela economia?
— Em grande parte.
— Pela sociedade?
— Inevitavelmente.
Antonio abriu os braços.
— Então estamos presos.
Domício assentiu.
— Em muitos sentidos.
— E ainda fala em liberdade.
— Sim.
— Contradição.
— Talvez.
Antonio ficou olhando para ele.
— Então o que é liberdade?
Domício respondeu:
— Talvez seja uma margem.
— Uma margem?
— Entre aquilo que nos acontece e aquilo que fazemos com o que nos acontece.
Antonio riu.
— Isso é muito pouco.
— Talvez seja tudo.
Naquela mesma semana, Antonio recebeu a notícia de que sua filha havia sido diagnosticada com uma doença autoimune.
Não era fatal.
Mas seria crônica.
Tratável.
Imprevisível.
Antonio ficou devastado.
Não havia filosofia.
Não havia argumento.
Não havia margem.
Durante dias não apareceu no parque.
Quando voltou, parecia menor.
Domício perguntou:
— Como ela está?
— Vai viver.
— Isso é bom.
Antonio olhou para ele.
— Não fale como médico.
Domício ficou quieto.
— Você entende? — disse Antonio. — Eu passei a vida dizendo aos outros que certas doenças eram controláveis. Agora minha filha tem uma e eu não consigo controlar nada.
Domício aproximou-se.
— Você pode estar com ela.
— Isso não cura.
— Não.
— Não impede.
— Não.
— Não muda o diagnóstico.
— Não.
Antonio levantou os olhos.
— Então qual é a liberdade?
Domício respondeu:
— Talvez seja exatamente aquilo que permanece quando todo o resto falha.
Antonio chorou.
Domício não o abraçou.
Apenas ficou ao lado.
Depois de algum tempo, Antonio disse:
— Eu queria que você dissesse alguma coisa inteligente.
Domício respondeu:
— Eu também.
Foi talvez a resposta mais honesta que Antonio recebera em toda a vida.
A partir daquele dia, Antonio passou a visitar a filha com mais frequência.
Não porque tivesse recuperado a fé na liberdade.
Mas porque havia percebido que liberdade não era poder impedir.
Era poder permanecer.
Isso não resolveu nada.
A doença continuou.
O corpo continuou.
O futuro continuou incerto.
Mas Antonio começara a compreender a pequena liberdade de Domício.
Não era liberdade para escolher o mundo.
Era liberdade para não abandonar alguém dentro dele.
VI — HISTÓRIA
Domício levou Antonio ao museu numa manhã de sábado.
Havia uma exposição sobre civilizações antigas.
No primeiro salão, uma enorme reprodução de uma cidade mesopotâmica.
No segundo, armas.
No terceiro, objetos religiosos.
No quarto, inscrições.
Domício estava encantado.
Antonio, não.
— Veja — disse Domício. — Milhares de anos de humanidade.
Antonio observou.
— Milhares de anos de repetição.
— Não seja injusto.
— Impérios.
— Civilizações.
— Guerras.
— Transformações.
— Escravidão.
— Organização social.
— Sacrifícios humanos.
— Religiões.
Antonio apontou para uma vitrine.
— Tudo isso foi feito por seres humanos inteligentes.
Domício ficou quieto.
Antonio continuou:
— É isso que eu não consigo perdoar.
— O quê?
— A inteligência.
Domício olhou para ele.
— Explique.
— O homem inventou matemática, medicina, astronomia, música, filosofia. Descobriu como medir estrelas. Aprendeu a construir cidades. Escreveu poemas. Desenvolveu anestesia. Descobriu antibióticos.
Pausa.
— E descobriu também como matar milhões de pessoas de maneira eficiente.
Domício não respondeu.
Antonio apontou para outra vitrine.
— O progresso técnico não produziu necessariamente progresso moral.
Domício sentiu uma pequena fissura.
Durante toda a vida acreditara na história como transformação.
Não necessariamente progresso linear.
Mas transformação.
Agora, diante das vitrines, percebeu algo que nunca havia querido formular claramente.
Talvez a civilização não fosse a história do homem tornando-se melhor.
Talvez fosse a história do homem tornando-se mais sofisticado sem deixar de ser cruel.
Sentaram-se num café.
Antonio disse:
— Você ainda acredita na humanidade?
Domício respondeu:
— Não sei.
Antonio sorriu.
— Isso é novo.
— Estou ficando velho.
— A velhice melhora você.
— Não.
Domício olhou pela janela.
— A velhice apenas diminui a quantidade de certezas que consigo defender.
Antonio ficou em silêncio.
— Talvez a história não tenha direção — continuou Domício. — Talvez não exista nenhuma evolução moral garantida.
— Então você desistiu?
— Não.
— Por quê?
Domício olhou para ele.
— Porque, mesmo que a história não caminhe para algum lugar, cada geração ainda pode escolher não repetir alguma coisa.
Antonio respondeu:
— E quase sempre repete.
— Sim.
— Então?
Domício sorriu.
— Ainda assim.
Antonio balançou a cabeça.
— Você é incurável.
— E você também.
VII — MORTE
A morte chegou antes do esperado.
Não para Antonio.
Para Domício.
Foi uma manhã de novembro.
Domício não apareceu no parque.
Antonio estranhou.
Telefonou.
Ninguém atendeu.
No fim da tarde recebeu uma mensagem de um sobrinho:
Domício está internado. Infecção grave.
Antonio foi ao hospital.
Encontrou-o muito magro.
Havia tubos.
Monitores.
Um oxímetro.
Uma máquina emitindo sons regulares.
Domício abriu os olhos.
— Você veio.
— Claro.
— Não precisava.
— Não seja idiota.
Domício sorriu.
— Ainda médico.
— Sempre.
Antonio aproximou-se.
— O que disseram?
— O suficiente.
— Quero saber.
— Não há muito o que saber.
Antonio sentiu raiva.
— Há sempre alguma coisa a fazer.
Domício olhou para ele.
— Não diga isso.
Antonio parou.
Era a primeira vez que o amigo lhe pedia algo com medo.
— Não diga o quê?
— Que sempre há alguma coisa a fazer.
Antonio sentou-se.
Domício continuou:
— Passei a vida acreditando que compreender era uma forma de liberdade.
— E não é?
— Não sei.
Antonio olhou para os aparelhos.
— Você está com medo?
Domício fechou os olhos.
— Sim.
Antonio segurou sua mão.
— Eu também.
Domício abriu os olhos.
— Você?
— Claro.
— De quê?
Antonio demorou.
— De que você morra.
Domício apertou fracamente sua mão.
— Então finalmente descobrimos alguma coisa.
— O quê?
— Que o médico também não pode impedir.
Antonio abaixou a cabeça.
Domício piorou.
Houve uma melhora breve.
Depois outra infecção.
Depois insuficiência respiratória.
Depois uma manhã em que não conseguia mais conversar.
Antonio permaneceu ao lado dele.
Em determinado momento, Domício abriu os olhos.
Antonio aproximou o rosto.
— O quê?
Domício tentou falar.
Antonio não compreendeu.
— Repita.
Nada.
Domício fechou os olhos.
Antonio chamou a enfermeira.
Depois percebeu que talvez não houvesse nada a fazer.
Foi então que sua vida inteira pareceu desabar sobre uma constatação simples:
o conhecimento não salva necessariamente aquele que conhecemos.
Antonio sabia o nome da doença.
Sabia o mecanismo.
Sabia o prognóstico.
Sabia os limites terapêuticos.
Sabia exatamente o que estava acontecendo.
E não podia fazer nada.
Nada.
A inteligência humana chegara ali.
E ali terminava.
Não havia filosofia.
Não havia medicina.
Não havia argumento.
Apenas um homem vendo outro desaparecer.
Domício morreu às quatro horas e vinte e três minutos da manhã.
Antonio estava ao lado.
Quando o monitor emitiu o som contínuo, esperou que alguém desligasse.
Ninguém desligou.
Uma enfermeira entrou.
Fechou os olhos de Domício.
Cobriu seu corpo.
Antonio permaneceu sentado.
O quarto continuou existindo.
O hospital continuou funcionando.
Uma ambulância chegou.
Outra pessoa morreu em algum outro lugar.
Alguém nasceu.
Alguém discutiu.
Alguém tomou café.
O mundo não soube.
O universo não registrou.
A morte de Domício não produziu nenhum acontecimento cósmico.
Foi apenas a morte de um homem.
E talvez essa fosse a parte mais cruel.
VIII — SENTIDO
Antonio não foi ao funeral.
Foi ao parque.
Sentou-se no banco.
Domício não estava.
O lago continuava.
As árvores continuavam.
As crianças continuavam.
A vida continuava.
Antonio sentiu raiva.
Uma raiva antiga.
Quase infantil.
Durante anos acreditara que a morte era injusta.
Agora sabia que era pior.
Era indiferente.
A injustiça ainda pressupõe algum tipo de relação.
A indiferença não.
O universo não havia matado Domício.
Não o odiava.
Não o castigara.
Não o julgara.
Apenas não se importava.
Antonio ficou horas sentado.
Depois falou sozinho:
— Você estava errado.
Ninguém respondeu.
— Não havia nenhuma etapa nova.
Silêncio.
— Era só o fim.
Continuou olhando o lago.
— E não existe sentido.
A frase saiu quase como um alívio.
Durante toda a vida ele havia defendido aquilo.
Agora poderia finalmente prová-lo.
Domício estava morto.
O corpo desapareceria.
A memória falharia.
Os livros seriam esquecidos.
Os alunos morreriam.
O parque mudaria.
A cidade mudaria.
A civilização mudaria.
Tudo desapareceria.
Não havia finalidade.
Não havia garantia.
Não havia resposta.
Antonio respirou fundo.
Então percebeu uma coisa que o irritou profundamente.
A ausência de Domício doía.
Não era uma ideia.
Era dor.
A amizade havia terminado.
Mas a dor não era uma prova de que a vida tivesse sentido.
Era apenas prova de que ele havia amado alguém.
Antonio ficou muito tempo tentando decidir se isso significava alguma coisa.
Não conseguiu.
E essa foi talvez a última vitória do ceticismo.
Meses depois, a filha perguntou:
— Pai, por que você continua indo ao parque?
Antonio respondeu:
— Porque ele ia.
— Quem?
Antonio demorou.
— Um amigo.
— O professor?
— Sim.
— Você gostava muito dele?
Antonio olhou pela janela.
— Não sei.
A filha sorriu.
— Não sabe?
— Sei.
Pausa.
— Mas não sei se gostar é suficiente para explicar.
Ela não entendeu.
Antonio também não.
A primavera chegou.
Antonio continuou indo ao parque.
Às vezes levava o livro que Domício estava lendo quando se conheceram.
Não o abria.
Sentava-se.
Olhava o lago.
Observava as pessoas.
Crianças.
Jovens.
Velhos.
Um homem correndo.
Uma mulher empurrando um carrinho.
A vida.
Um dia, uma criança deixou cair uma bola perto do banco.
Antonio levantou-se com dificuldade.
Pegou-a.
Entregou.
A criança agradeceu e correu.
Antonio voltou a sentar-se.
Percebeu então que já não pensava em Domício todos os dias.
Isso o assustou.
A memória começava a fazer aquilo que Domício previra.
Transformava.
Antonio já não conseguia lembrar exatamente da voz do amigo.
Lembrava frases.
Gestos.
O sorriso.
A maneira como inclinava a cabeça quando ouvia uma coisa absurda.
Mas a voz estava desaparecendo.
Antonio sentiu culpa.
Depois lembrou-se da lista de Helena.
Pão.
Leite.
Café.
Sabão.
Laranjas.
Talvez esquecer também fosse parte daquilo que chamamos viver.
O passado não permanecia.
Mudava.
E aquilo que mudava podia desaparecer.
Certa manhã, Antonio abriu o caderno.
Na primeira página havia uma frase que escrevera anos antes:
Não existe sentido.
Ficou olhando.
Depois virou algumas páginas.
Encontrou uma anotação feita durante uma conversa com Domício:
Talvez o sentido não seja encontrado. Talvez seja produzido.
Antonio leu várias vezes.
Depois pegou a caneta.
Escreveu abaixo:
Não sei.
Parou.
Acrescentou:
E não acredito que possamos saber.
Pensou durante muito tempo.
Então escreveu:
Mas sei que aqueles meses mudaram alguma coisa em mim.
A frase o incomodou.
Parecia uma concessão.
Talvez fosse.
Antonio continuou:
Isso não prova que a vida tenha sentido.
Parou novamente.
Prova apenas que duas vidas podem afetar-se.
Fechou o caderno.
Não estava satisfeito.
Esperava que Domício tivesse deixado uma resposta maior.
Uma tese.
Uma conclusão.
Uma espécie de última palavra.
Mas não havia.
Apenas lembranças.
E agora até elas começavam a desaparecer.
No fim daquele ano, Antonio voltou ao banco numa tarde de chuva.
Sentou-se.
O parque estava quase vazio.
O lago recebia as gotas.
Antonio lembrou-se de uma conversa.
— Se o sentido não existe — perguntara certa vez — por que continuar?
Domício respondera:
— Não sei.
Antonio insistira:
— Você não tem resposta?
— Não.
— Então sua filosofia não serve para nada.
Domício sorrira.
— Talvez.
— E não o incomoda?
— Muito.
— Então por que continua?
Domício olhara para o lago.
— Porque ainda estou aqui.
Antonio fechou os olhos.
A lembrança era imperfeita.
Talvez Domício não tivesse dito exatamente aquilo.
Talvez tivesse dito outra coisa.
Talvez Antonio tivesse inventado.
Mas, naquele momento, isso já não importava.
Porque era aquela frase que permanecera.
Porque ainda estou aqui.
Antonio abriu os olhos.
Ele também estava.
E talvez isso fosse tudo.
Não uma resposta.
Não um sentido.
Não uma finalidade.
Apenas um fato.
Aos oitenta anos, Antonio passou a caminhar mais devagar.
Às vezes precisava da bengala.
Às vezes esquecia nomes.
Às vezes confundia datas.
Uma tarde, não conseguiu lembrar o nome do parque.
Ficou parado.
Tentou.
Nada.
Sentou-se.
Sentiu medo.
Não da morte.
Do desaparecimento.
Não queria morrer apenas.
Não queria começar a desaparecer antes da morte.
Foi então que compreendeu a última coisa que Domício talvez tivesse tentado lhe ensinar:
a consciência humana é poderosa o bastante para perguntar pelo sentido da existência, mas talvez não seja poderosa o bastante para encontrá-lo.
A inteligência podia construir teorias.
A ciência podia explicar doenças.
A filosofia podia formular perguntas.
A história podia registrar acontecimentos.
A memória podia reconstruir o passado.
O amor podia criar vínculos.
A amizade podia transformar duas pessoas.
Mas nada disso respondia à pergunta final.
Por quê?
Por que existir?
Por que sofrer?
Por que amar?
Por que perder?
Por que envelhecer?
Por que morrer?
Antonio não sabia.
Domício não soubera.
Nenhum dos dois soubera.
Talvez nenhum homem soubesse.
E talvez a maior tragédia da espécie humana fosse justamente essa:
ter inteligência suficiente para compreender a pergunta e insuficiente para alcançar a resposta.
Na última vez em que Antonio foi ao parque, não conseguiu chegar sozinho ao banco.
Sentou-se em outro lugar.
O lago estava diante dele.
O relógio marcava dez e quinze.
Antonio olhou.
Sorriu.
Lembrou-se de Domício.
Não conseguiu lembrar exatamente o que ele dissera naquela primeira manhã.
A voz havia desaparecido.
O rosto também começava a perder nitidez.
Mas alguma coisa permanecia.
Não a resposta.
Não a filosofia.
Não uma certeza.
Apenas a marca de uma presença.
Antonio fechou os olhos.
Pensou em Helena.
Pensou na filha.
Pensou no paciente cujo rosto esquecera, mas que havia guardado durante vinte e três anos uma fotografia sua.
Pensou em Domício.
Pensou na vida.
E finalmente admitiu:
talvez a existência fosse realmente indiferente.
Talvez não houvesse plano.
Talvez nenhuma consciência superior estivesse esperando para explicar o sofrimento.
Talvez a morte fosse apenas a dissolução de um organismo.
Talvez a história não conduzisse a lugar algum.
Talvez o amor fosse apenas uma necessidade biológica sofisticada pela cultura.
Talvez a memória fosse uma ficção construída pelo cérebro para manter alguma continuidade onde já não existe.
Talvez tudo aquilo que chamamos sentido fosse apenas uma invenção humana.
Antonio não encontrou nenhuma razão para discordar.
E, no entanto, havia algo que não conseguia negar.
Domício existira.
Helena existira.
Sua filha existia.
Ele próprio estava ali.
A chuva caía.
O lago recebia a chuva.
O tempo passava.
Nenhuma explicação veio.
Nenhuma revelação.
Nenhuma transcendência.
Nenhum deus.
Nenhuma filosofia.
Nenhum último argumento.
Apenas a vida acontecendo sem pedir licença.
Antonio levantou-se.
Deu alguns passos.
Parou.
Olhou para o banco onde tantas vezes haviam sentado.
E disse:
— Talvez você tivesse razão.
Não sabia exatamente sobre o quê.
Talvez Domício também não soubesse.
Antonio sorriu.
Depois continuou andando.
Devagar.
Muito devagar.
Não caminhava em direção a um futuro.
O futuro já não era suficientemente grande para isso.
Também não caminhava em direção ao passado.
O passado estava desaparecendo.
Caminhava simplesmente.
Porque podia.
Por enquanto.
E, naquele instante, isso não pareceu pouco.
Também não pareceu muito.
Não pareceu um sentido.
Foi apenas aquilo que era:
um homem velho atravessando mais uma tarde de sua existência, sem saber por que existia, sem saber para onde ia e sem conseguir transformar a própria ignorância em resposta.
Ao longe, o relógio da praça marcou onze horas.
Antonio não olhou.
Desta vez, não precisava.
O tempo continuava.
Sem ele.
Como continuaria depois dele.
E talvez essa fosse a única verdade que a inteligência humana pudesse alcançar sem mentir:
a vida não nos deve um sentido.
Nós é que, incapazes de suportar o vazio, passamos a vida inteira procurando um.
E Antonio, finalmente, descobriu que nem mesmo essa descoberta lhe oferecia consolo.
Continuou caminhando.
O parque ficou para trás.
O lago ficou para trás.
O banco ficou para trás.
Domício ficou para trás.
Helena ficou para trás.
Tudo ficou para trás.
Mas, durante alguns minutos, enquanto atravessava lentamente a rua, Antonio ainda estava vivo.
E isso não era uma resposta.
Era apenas um fato.
Talvez o último.
Talvez o único.
Este fechamento preserva justamente o que considero mais forte na proposta: Domício não “vence” Antonio e Antonio não “vence” Domício. A amizade transforma os dois, mas não resolve a questão metafísica. O sentido produzido entre eles é real como experiência humana, porém não prova que exista um sentido objetivo da existência. A morte de Domício não é redimida por uma revelação; a vida de Antonio não termina iluminada.
O que resta é mais incômodo e, por isso, mais literário: a inteligência consegue formular a pergunta sobre o sentido, mas talvez sua própria lucidez seja incapaz de produzir uma resposta satisfatória.
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