O DIÁRIO DO ANTROPÓLOGO SERAFIM RODRIGUES / Fragmentos de uma antropologia da ausência

 Tema interessante sobre anotações no diário de Serafim Rodrigues, um antropólogo solitário, cujo hobby é colecionar artigos sobre as mais recentes revelações de achados arqueologicos de documentos e utensílios de antigos agrupamentos humanos, sorte os quais tece consideraçções. São matérias escolhidas para fundamentar sua visão, de que a existência é um acidente aleatório sem explicações, num universo indiferente, embora filósofos, livres pensadores, cientistas e teólogos procurem demonstrar que a existencia humana, tem um sentido maior, que a inteligencia não consegue explicar, ou justificar, Alimentam dúvidas e certezas incertas. Fundamentam suas justificativas, sem méritos cientificos razoáveis, mas apenas em crenças, que negam fundamentos com finalidades que a justifiquem, já que há uma ordem cosmica incompreensível à razão humana.

A ideia de Serafim Rodrigues é muito poderosa porque permite construir um personagem que não procura respostas: ele coleciona vestígios da tentativa humana de encontrar respostas. Seu diário pode funcionar como uma espécie de arqueologia filosófica da espécie humana.

O mais interessante é que Serafim não precisa ser apresentado como alguém que simplesmente “não acredita em Deus”. Sua posição é mais radical: ele desconfia da própria necessidade humana de atribuir sentido à existência. Para ele, talvez a pergunta “por que existimos?” seja apenas uma consequência psicológica de nossa inteligência — uma inteligência que não suporta admitir que talvez não haja resposta alguma.

Eu desenvolveria o projeto assim:

O princípio filosófico de Serafim

Serafim coleciona notícias sobre descobertas arqueológicas: tabuletas, ossadas, ferramentas, sepultamentos, pinturas rupestres, inscrições, restos de habitações, objetos rituais, documentos esquecidos.

Mas ele não olha para esses achados como arqueólogo.

Ele olha para eles como provas da repetição humana.

Uma civilização desaparece. Outra surge. Homens constroem templos, inventam deuses, enterram seus mortos, criam leis, fazem guerras, amam, sofrem, deixam inscrições dizendo que sua existência possui algum significado.

Depois desaparecem.

E aquilo que parecia eterno transforma-se em fragmento.

Serafim escreve:

“Talvez a arqueologia seja a ciência que mais humilha o orgulho humano. Ela desenterra aquilo que um dia foi considerado indestrutível.”

É aí que nasce a sua tese central:

não existe evidência de que a existência humana possua uma finalidade; existe apenas uma quantidade gigantesca de seres humanos tentando produzir uma finalidade para suportar o fato de existir.

O paradoxo de Serafim

Há, entretanto, uma contradição literariamente muito rica.

Serafim acredita que o universo é indiferente.

Mas ele passa a vida inteira procurando provas dessa indiferença.

Ou seja: sua descrença também começa a adquirir uma espécie de fé.

Ele acredita que não existe sentido.

Mas como provar a ausência de sentido?

Essa questão pode persegui-lo durante todo o diário.

Ele próprio percebe:

“Passei quarenta anos procurando evidências de que não existe finalidade. Começo a suspeitar de que transformei a ausência de Deus em meu próprio Deus.”

Isso impediria que Serafim fosse apenas um porta-voz das ideias do autor. Ele se tornaria um personagem contraditório, vulnerável, inteligente e, sobretudo, incapaz de escapar da mesma condição humana que critica.

A estrutura do diário

Cada anotação poderia partir de uma descoberta arqueológica real ou plausível e depois produzir uma reflexão de Serafim.

Por exemplo:

1. Uma sepultura de milhares de anos

Encontram-se objetos junto aos mortos.

Serafim pergunta:

Por que enterramos nossos mortos com objetos?

Talvez porque não suportemos admitir que a morte seja definitiva.

2. Uma antiga inscrição religiosa

O povo desapareceu. A divindade sobrevive apenas como palavra.

Serafim escreve:

“Deuses são talvez as criaturas mais curiosas inventadas pelo homem: seres que nascem da nossa imaginação e depois passam a explicar a nossa existência.”

3. Uma ferramenta rudimentar

Uma pedra cuidadosamente trabalhada revela inteligência ancestral.

Serafim contrapõe:

“A inteligência permitiu que o homem dominasse o ambiente. Não conseguiu, entretanto, explicar por que deveria fazê-lo.”

4. Um antigo brinquedo

Esse achado pode ser particularmente bonito.

Serafim observa que, milhares de anos atrás, uma criança brincava com um objeto que alguém fabricou para ela.

A civilização desapareceu.

A criança desapareceu.

O fabricante desapareceu.

Mas o brinquedo permanece.

E Serafim é obrigado a admitir:

“Talvez seja este o verdadeiro documento arqueológico da humanidade: não os templos, mas aquilo que alguém fez para que uma criança sorrisse.”

Aqui começa a fissura em sua filosofia.


O DIÁRIO DE SERAFIM RODRIGUES

Eu daria ao livro um subtítulo:

Fragmentos de uma antropologia da ausência

E o diário poderia começar com uma anotação extraordinariamente simples:

O DIÁRIO DE SERAFIM RODRIGUES

Fragmentos de uma antropologia da ausência

3 de março

Encontrei hoje uma notícia sobre uma pequena cidade enterrada sob as areias do deserto.

Não me interessou a idade do sítio, embora o jornal a apresentasse como a grande revelação da semana. Não me interessaram os objetos encontrados, as técnicas de construção, os fragmentos de cerâmica, as inscrições religiosas.

Interessei-me pelo fato mais simples.

A cidade existiu.

Depois, deixou de existir.

É curioso como empregamos palavras diferentes para acontecimentos que, em última análise, são o mesmo.

Chamamos de nascimento o momento em que alguma coisa começa.

Chamamos de morte o momento em que alguma coisa termina.

Chamamos de civilização o intervalo entre essas duas coisas.

Talvez toda a história humana seja apenas isso: um intervalo.

O arqueólogo encontra ruínas e chama aquilo de passado. O historiador encontra documentos e chama aquilo de memória. O teólogo encontra símbolos e chama aquilo de revelação. O filósofo encontra o espanto e chama aquilo de pergunta.

Eu encontro tudo isso e chamo de evidência.

E a evidência me parece brutalmente simples:

nada indica que estivéssemos destinados a existir.

Existimos.

Isso é tudo.

A primeira coisa que me incomoda nos homens não é sua crueldade, nem sua vaidade, nem sua inteligência.

É a necessidade de transformar o fato de existir em alguma coisa além do próprio fato.

Não lhes basta nascer.

Precisam acreditar que nasceram por alguma razão.

Não lhes basta morrer.

Precisam imaginar que a morte não termina aquilo que começou.

Não lhes basta amar.

Precisam acreditar que o amor possui uma dignidade cósmica.

Não lhes basta contemplar as estrelas.

Precisam imaginar que as estrelas estão olhando de volta.

Talvez seja essa a mais sofisticada das nossas ilusões.

A inteligência humana produz perguntas que o próprio universo não parece ter obrigação de responder.

E então inventamos respostas.

Chamamos algumas delas de filosofia.

Outras de religião.

Outras de ciência, quando a ciência já não pode avançar.

E algumas simplesmente de esperança.

Não estou dizendo que sejam falsas.

Estou dizendo algo mais incômodo:

não sabemos.

E quase tudo que fizemos depois disso foi construir uma civilização sobre o desconforto dessa palavra.

Não sabemos.

Não sabemos por que existe alguma coisa em vez de nada.

Não sabemos se o universo possui uma finalidade.

Não sabemos se a consciência é apenas matéria organizada ou alguma coisa que ainda não conseguimos compreender.

Não sabemos se existe Deus.

Não sabemos sequer se a pergunta sobre Deus foi corretamente formulada.

E, sobretudo, não sabemos se a existência precisa ter uma justificativa.

Talvez a existência não seja uma resposta.

Talvez seja simplesmente um acontecimento.

Uma combinação improvável de matéria, tempo, acaso e condições favoráveis.

Primeiro a matéria.

Depois as estrelas.

Depois os planetas.

Depois moléculas capazes de copiar a si mesmas.

Depois organismos.

Depois olhos.

Depois cérebros.

Depois memória.

Depois linguagem.

E finalmente nós.

Nós.

A espécie que olhou para o céu e perguntou:

“Por quê?”

É quase engraçado.

A matéria tornou-se consciente e passou a exigir explicações da própria matéria.

Talvez esse seja o nosso maior equívoco.

Esperamos que o universo tenha uma resposta porque somos nós que fazemos perguntas.

Mas o universo não parece ter participado da conversa.


Às vezes me pergunto se os antigos eram mais honestos do que nós.

Encontravam um trovão e inventavam um deus.

Nós encontramos um fenômeno atmosférico e inventamos uma explicação científica.

A diferença é enorme, naturalmente.

Mas existe uma semelhança que me incomoda.

Ambos queremos que o trovão deixe de ser apenas trovão.

Precisamos que ele signifique alguma coisa.

Talvez a inteligência seja isso:

a incapacidade de aceitar o acontecimento sem transformá-lo em significado.


Hoje reli alguns filósofos.

É estranho observar como homens extraordinariamente inteligentes passaram a vida tentando descobrir se a existência possui sentido.

Uns encontraram Deus.

Outros encontraram a razão.

Outros encontraram a liberdade.

Outros encontraram a história.

Outros encontraram o absurdo.

Talvez cada um tenha encontrado aquilo que precisava encontrar.

Não os culpo.

Ser humano talvez seja precisamente isso: procurar uma ordem onde existe apenas complexidade.

Acreditar que existe uma arquitetura secreta por trás daquilo que não conseguimos compreender.

É possível que exista.

Não afirmo o contrário.

O que afirmo é apenas isto:

não temos provas suficientes para transformar nossa necessidade de sentido em verdade universal.

A ignorância deveria ser uma forma de honestidade.

Mas os homens não suportam a ignorância.

Preferem uma certeza falsa a uma dúvida verdadeira.


A notícia de hoje dizia que os arqueólogos encontraram restos de uma antiga cerimônia funerária.

Havia objetos cuidadosamente colocados junto ao corpo.

Isso me fez pensar.

Aquele homem morreu há milhares de anos.

Seus companheiros provavelmente acreditavam que alguma coisa aconteceria depois.

Talvez acreditassem em outro mundo.

Talvez em deuses.

Talvez em espíritos.

Talvez em uma continuação invisível da vida.

Nós sorrimos diante dessas crenças.

Somos modernos.

Iluminados.

Racionais.

E, no entanto, continuamos enterrando nossos mortos.

Continuamos fazendo cerimônias.

Continuamos dizendo palavras diante de corpos que já não podem ouvi-las.

Continuamos procurando uma maneira de fazer com que a morte pareça menos definitiva.

Talvez não tenhamos evoluído tanto quanto pensamos.

Mudamos os nomes.

Mudamos os instrumentos.

Mudamos os argumentos.

Mas o medo continua praticamente o mesmo.


Começo a suspeitar de uma coisa.

Talvez a religião não seja apenas uma tentativa de explicar o universo.

Talvez seja uma tentativa de impedir que o universo nos pareça insuportavelmente indiferente.

Se for assim, compreendo os religiosos.

O que não consigo compreender são aqueles que afirmam possuir certezas absolutas sobre aquilo que ninguém pode demonstrar.

Talvez Deus exista.

Talvez não exista.

Talvez exista alguma coisa para a qual a palavra Deus seja inadequada.

Talvez a realidade seja mais estranha do que nossas categorias permitem imaginar.

Mas transformar a ignorância em certeza não é conhecimento.

É apenas uma maneira sofisticada de fugir da dúvida.

E eu prefiro a dúvida.

A dúvida, pelo menos, não mente.


Há uma coisa, entretanto, que não consigo explicar.

Hoje, ao observar a fotografia do pequeno objeto encontrado no deserto — uma espécie de brinquedo de madeira, segundo os arqueólogos — senti algo que não sei nomear.

Era pequeno.

Muito pequeno.

Alguém o havia feito milhares de anos atrás.

Talvez para uma criança.

Talvez uma criança tenha segurado aquilo.

Talvez tenha dormido ao lado daquele objeto.

Talvez tenha chorado quando o perdeu.

Talvez alguém o tenha procurado.

Depois vieram os anos.

Depois os séculos.

Depois os milênios.

A criança morreu.

Quem fez o brinquedo morreu.

Todos os que conheceram aquela criança morreram.

A cidade desapareceu.

A língua desapareceu.

Os deuses desapareceram.

A memória desapareceu.

E o brinquedo permaneceu.

Passei alguns minutos olhando para aquela fotografia.

Não sei por quê.

E isso me incomodou.

Porque, pela primeira vez em muitos anos, encontrei alguma coisa que não consegui transformar imediatamente em argumento.

Talvez seja apenas sentimentalismo.

Talvez seja projeção.

Talvez meu cérebro tenha produzido uma emoção diante de um objeto sem qualquer significado cósmico.

É provável.

Muito provável.

Mas existe uma possibilidade que me parece ainda mais perturbadora.

Talvez o significado não esteja nas coisas.

Talvez esteja no encontro entre as coisas e aquele que as contempla.

Se for assim, minha tese não desaparece.

O universo pode continuar sendo indiferente.

Mas nós não somos.

E talvez isso seja tudo o que temos.

Não um sentido inscrito nas estrelas.

Não uma finalidade escondida na estrutura do cosmos.

Não uma promessa.

Apenas a estranha capacidade de atribuir importância àquilo que, sem nós, talvez não tivesse importância alguma.

Fechei o jornal.

Não escrevi mais nada.

Amanhã procurarei a publicação original sobre o brinquedo.

Não sei exatamente por quê.

Serafim Rodrigues

Esse pode ser o primeiro movimento do livro: Serafim ainda absolutamente convencido de sua tese, mas já encontrando pequenos acontecimentos que não cabem perfeitamente dentro dela.

E há uma possibilidade ainda mais interessante para os capítulos seguintes: quanto mais Serafim procura evidências de que a existência não possui sentido, mais a própria atividade de procurar começa a dar sentido à sua existência.

Isso cria um paradoxo literário muito forte: Serafim dedica a vida a provar que a vida não tem finalidade — e talvez sua própria busca seja a primeira finalidade que ele não consegue negar.

os capítulos seguintes: quanto mais Serafim procura evidências de que a existência não possui sentido, mais a própria atividade de procurar começa a dar sentido à sua existência. Isso cria um paradoxo literário muito forte: Serafim dedica a vida a provar que a vida não tem finalidade — e talvez sua própria busca seja a primeira finalidade que ele não consegue negar.

Sim. Esse deve ser o eixo secreto do livro. O romance pode avançar sem transformar Serafim num homem que simplesmente abandona sua tese. Seria muito mais interessante que ele continue acreditando no acaso, na indiferença cósmica e na ausência de finalidade objetiva — mas que, pouco a pouco, perceba que uma existência pode não possuir sentido cósmico e, ainda assim, produzir sentidos humanos.

A contradição não precisa ser resolvida. Ela precisa amadurecer.

Eu proporia os capítulos seguintes como uma lenta passagem da negação do sentido para a descoberta involuntária do valor da busca.

Estrutura da segunda parte — A arqueologia de Serafim

Capítulo II — A pedra que alguém segurou

Serafim encontra uma notícia sobre uma ferramenta de pedra de centenas de milhares de anos.

O arqueólogo descreve sua função: cortar, raspar, caçar.

Serafim se detém em outra coisa: alguém segurou aquela pedra.

Talvez uma mão semelhante à sua.

Talvez aquele homem também tenha sentido fome, medo, frio, desejo, curiosidade.

Serafim começa a perceber que a arqueologia não revela apenas sociedades desaparecidas. Revela individualidades que não deixaram nome.

Ele escreve:

“Durante toda a minha vida procurei civilizações. Hoje me ocorreu que talvez devesse procurar pessoas.”

É uma primeira fissura.


Capítulo III — O homem que inventou o túmulo

Um sepultamento muito antigo.

O corpo foi colocado cuidadosamente numa posição específica. Há objetos junto aos restos mortais.

Serafim argumenta que aquilo não prova nenhuma crença religiosa.

O ritual poderia ser simplesmente uma resposta emocional à morte.

Mas então aparece a pergunta:

se a existência não possui sentido, por que os homens sempre sentiram necessidade de criar significado para a morte?

Ele não encontra uma resposta.

E escreve:

“Talvez o homem não invente os deuses porque sabe que vai morrer. Talvez invente os deuses porque não consegue aceitar que a morte não se importe com o fato de ele ter amado.”


Capítulo IV — A criança de Çatalhöyük

Uma descoberta arqueológica envolvendo restos de uma criança.

Aqui o diário ganha uma dimensão mais íntima.

Serafim começa a imaginar aquela criança.

Não como “um indivíduo pré-histórico”.

Mas como uma criança.

Ela tinha medo?

Gostava de correr?

Tinha alguém que a chamava pelo nome?

Serafim percebe algo perturbador: ele está inventando uma história para alguém sobre quem praticamente nada sabe.

E, pela primeira vez, percebe que sua imaginação está fazendo aquilo que ele sempre criticou nos religiosos: preenchendo o desconhecido com significado.

Ele anota:

“Talvez toda narrativa seja uma pequena religião.”


Capítulo V — Os deuses que morreram

Serafim reúne notícias sobre antigas divindades.

Deuses que foram adorados durante séculos e hoje são conhecidos apenas por especialistas.

Ele se diverte com a ironia:

deuses também podem morrer.

Mas surge uma ideia mais inquietante:

Se deuses podem desaparecer, talvez aquilo que chamamos de verdade seja parcialmente dependente da memória.

Ele escreve:

“Um deus deixa de existir quando ninguém mais acredita nele? Não sei. Mas sei que uma civilização inteira pode desaparecer sem que o universo pareça notar.”

E então vem sua frase mais dura:

“Talvez o universo não seja cruel. Crueldade exige intenção. O universo talvez seja apenas indiferente.”

Essa distinção se torna fundamental para sua filosofia.


Capítulo VI — O primeiro gesto inútil

Serafim encontra um artigo sobre adornos pessoais muito antigos.

Colares, contas, pigmentos, objetos sem função prática evidente.

Isso o desconcerta.

Porque, se o objetivo fosse apenas sobreviver, aquilo seria desnecessário.

Alguém gastou tempo fabricando algo inútil.

Alguém quis ficar bonito.

Ou diferente.

Ou reconhecível.

Ou amado.

Serafim escreve:

“A civilização talvez tenha começado quando alguém decidiu fazer uma coisa inútil.”

E essa frase começa a corroer sua visão puramente funcional da existência.


Capítulo VII — O colecionador

Aqui acontece uma virada importante.

Serafim começa a perceber que ele próprio é um objeto arqueológico em construção.

Coleciona recortes.

Guarda livros.

Arquiva fotografias.

Classifica documentos.

Anota datas.

Preserva informações sobre pessoas mortas há milhares de anos.

Então percebe:

por que faço isso?

Ele não precisa.

Não recebe dinheiro.

Não tem alunos.

Não publica artigos.

Não participa de congressos.

Não busca reconhecimento.

É um homem solitário.

E, ainda assim, todas as manhãs abre o computador e procura novas descobertas arqueológicas.

A atividade que começou como hobby transformou-se numa espécie de ritual.

Ele escreve:

“Passei décadas afirmando que os homens inventam rituais para suportar o absurdo. Hoje descobri que tenho os meus.”


Capítulo VIII — A biblioteca de mortos

Este poderia ser um dos capítulos mais fortes.

Serafim mora praticamente dentro de um arquivo.

As paredes estão tomadas por livros, pastas, recortes, mapas, fotografias.

Um visitante eventual pergunta:

— Para que você guarda tudo isso?

Serafim responde:

— Para não desaparecer.

A resposta o surpreende.

O visitante pensa que ele está falando dos documentos.

Mas Serafim percebe que estava falando de si mesmo.

Ele começa então a compreender que seu trabalho possui uma dimensão que jamais admitira:

preservar é uma forma de resistência contra a morte.

Ele não acredita numa vida depois da morte.

Mas tenta impedir que tudo desapareça completamente.

Sua própria biblioteca passa a ser uma espécie de cemitério da humanidade.


Capítulo IX — A falácia da finalidade

Aqui Serafim retorna à filosofia.

Ele sistematiza sua tese:

  1. O universo não demonstra intenção.
  2. A vida surgiu sem que pudéssemos identificar uma finalidade anterior.
  3. A consciência humana não constitui evidência de uma finalidade cósmica.
  4. A existência de religiões não prova a existência de Deus.
  5. A necessidade humana de significado não prova que o significado exista objetivamente.

Ele acredita ter finalmente construído um argumento sólido.

Mas acrescenta uma frase que o incomoda:

“Talvez eu esteja confundindo duas perguntas diferentes: para que existimos e o que fazemos com o fato de existir.”

Essa distinção é a chave do romance.


Capítulo X — A mulher que perguntava demais

É preciso introduzir alguém que rompa a solidão de Serafim.

Não necessariamente um interesse amoroso.

Pode ser Helena, uma jovem arqueóloga que começa a trocar correspondência com ele depois de encontrar referências ao seu arquivo particular.

Ela discorda dele.

Mas não tenta convertê-lo.

Sua pergunta é muito mais incômoda:

— Serafim, por que você precisa tanto provar que nada tem sentido?

Ele responde:

— Porque provavelmente é verdade.

Ela insiste:

— Não foi isso que perguntei.

Esse diálogo poderia persegui-lo durante meses.

Porque Serafim nunca havia perguntado a si mesmo por que sua descrença era tão importante para ele.


Capítulo XI — O acaso

Serafim passa a pesquisar profundamente o conceito de acaso.

Descobre que “acaso” não significa necessariamente ausência absoluta de ordem.

Há sistemas complexos.

Probabilidades.

Emergências.

Auto-organização.

Padrões que surgem sem uma intenção central.

Isso não o converte em crente.

Ao contrário.

Sua tese fica mais sofisticada.

Ele passa a dizer:

“Talvez o universo não seja desordenado. Talvez seja ordenado sem propósito.”

Essa é uma ideia muito mais poderosa do que simplesmente dizer que “tudo é acaso”.

Porque agora Serafim admite a possibilidade de ordem sem finalidade.

E isso o coloca diante do mistério verdadeiro.


Capítulo XII — O sentido que ninguém encontrou

Serafim procura nos documentos arqueológicos sinais de que antigas sociedades haviam descoberto algum sentido universal.

Não encontra.

Encontra histórias diferentes.

Deuses diferentes.

Ritos diferentes.

Concepções diferentes da morte.

Cada civilização produziu uma explicação.

Nenhuma deixou uma resposta verificável.

Ele escreve:

“Talvez a humanidade seja uma espécie que produz respostas antes de possuir perguntas suficientemente boas.”

Mas depois acrescenta:

“Ainda assim, não consigo desprezá-la por isso.”

Essa frase seria importante.

Serafim começa a sentir ternura pela humanidade.

Não admiração.

Não fé.

Ternura.


Capítulo XIII — O pequeno museu

Serafim decide organizar sua coleção.

Não para publicar.

Não para ganhar dinheiro.

Não para ser reconhecido.

Ele simplesmente quer deixar tudo organizado.

Começa a catalogar os documentos.

Cria categorias:

Nascimento.

Morte.

Trabalho.

Guerra.

Amor.

Religião.

Medo.

Infância.

Invenção.

Desaparecimento.

E percebe que está fazendo algo profundamente humano:

construindo uma ordem dentro do caos.

Ele sorri.

Porque percebe que sua vida inteira foi exatamente isso.


Capítulo XIV — A descoberta que não aconteceu

Este capítulo pode ser fundamental.

Serafim procura durante semanas uma descoberta arqueológica específica.

Uma pequena civilização desaparecida.

Há indícios de que ela teria deixado uma inscrição sobre a finalidade da vida.

Serafim fica obcecado.

Procura artigos.

Consulta bibliotecas.

Troca mensagens com arqueólogos.

Finalmente descobre que a notícia original estava errada.

A inscrição não existe.

A suposta civilização nunca foi encontrada.

Tudo era uma interpretação equivocada de um fragmento.

Serafim fica devastado.

E percebe algo terrível:

ele estava torcendo para que fosse verdade.

Pela primeira vez, sua objetividade é desmascarada.

Ele queria uma resposta.

Talvez não acreditasse que queria.

Mas queria.

Escreve:

“Passei a vida criticando os homens por desejarem respostas. Hoje descobri que também desejo uma. A diferença é que minha resposta preferida sempre foi que não existe resposta.”


Capítulo XV — O animal diante do espelho

Aqui Serafim começa a pensar na própria humanidade.

Talvez a consciência seja uma espécie de acidente evolutivo.

Mas um acidente capaz de produzir música, matemática, pintura, compaixão, tortura, guerra, poesia e telescópios.

Ele escreve:

“Se somos um acidente, somos um acidente extraordinariamente estranho.”

E depois:

“Talvez a palavra acidente não diminua aquilo que aconteceu.”

Essa frase muda tudo.

Porque Serafim começa a compreender:

algo não precisa ter sido planejado para ser extraordinariamente valioso.

Uma flor não precisa ter sido destinada a existir para ser bela.

Uma criança não precisa ter sido prevista pelo cosmos para ser amada.

Uma vida não precisa possuir uma finalidade universal para possuir importância.

Mas Serafim ainda não consegue admitir isso completamente.


Capítulo XVI — A finalidade inventada

Aqui surge o paradoxo central.

Serafim escreve:

“Talvez o sentido da existência não seja uma propriedade da existência.”

E continua:

“Talvez sentido seja aquilo que uma consciência produz quando decide que alguma coisa importa.”

Essa conclusão não transforma Serafim num religioso.

Ele continua ateu, agnóstico ou simplesmente metafisicamente desconfiado.

Mas sua posição mudou.

Ele não precisa mais perguntar:

“Qual é o sentido da vida?”

A pergunta passa a ser:

“O que fazemos com uma vida que talvez não tenha sentido algum?”


Capítulo XVII — O último recorte

Serafim encontra uma notícia sobre uma descoberta arqueológica banal.

Não é uma grande civilização.

Não é um templo.

Não é um texto sagrado.

É uma pequena marca encontrada numa parede.

Talvez feita por uma criança.

Talvez por um trabalhador.

Talvez por alguém que simplesmente quis deixar uma marca.

Serafim observa durante muito tempo.

E percebe que passou a vida inteira fazendo exatamente aquilo.

Deixando marcas.

Seus arquivos são sua marca.

Seu diário é sua marca.

Sua obsessão é sua marca.

Sua tentativa de compreender o absurdo é sua marca.

Ele escreve:

“Talvez seja isso que fazemos quando percebemos que vamos desaparecer: deixamos marcas uns nos outros.”


Capítulo XVIII — A primeira finalidade

Este seria o momento decisivo.

Serafim percebe que sua tese permanece intacta.

O universo pode continuar não tendo finalidade.

Não há prova de Deus.

Não há evidência de um plano cósmico.

A consciência pode continuar sendo resultado de processos naturais.

A morte pode ser definitiva.

Tudo isso pode ser verdade.

Mas algo mudou.

Porque Serafim percebe que sua própria vida adquiriu uma finalidade, ainda que não tenha recebido nenhuma finalidade do cosmos.

Ele procurou.

Catalogou.

Leu.

Comparou.

Pensou.

Preservou.

E, sobretudo, lembrou-se de pessoas que ninguém mais lembrava.

Ele escreve:

“Talvez eu tenha passado a vida procurando o sentido da existência quando deveria ter perguntado o que vale a pena preservar dela.”

E essa é a grande descoberta de Serafim:

o sentido não estava escondido no universo.

Estava sendo produzido pela própria busca.


E então o diário pode terminar de maneira circular

Serafim não precisa morrer.

Seria mais forte terminar com ele envelhecido, diante de sua mesa, recebendo uma nova notícia arqueológica.

Outra descoberta.

Outra civilização.

Outro povo desaparecido.

Outra tentativa humana de sobreviver ao tempo.

Ele lê.

Recorta.

Coloca a matéria numa pasta.

Depois abre uma página nova do diário.

E escreve:

18 de novembro

Hoje encontrei outra civilização desaparecida.

Tinham seus deuses.

Seus mortos.

Suas crianças.

Suas guerras.

Suas ferramentas.

Seus pequenos objetos inúteis.

Certamente acreditavam que o mundo continuaria.

Não continuou.

Ou melhor: continuou sem eles.

Talvez seja essa a única verdade que a arqueologia nos oferece sem precisar inventar nada:

tudo passa.

As cidades passam.

Os impérios passam.

As religiões passam.

As certezas passam.

Nós passamos.

Até aquilo que chamamos de verdade talvez passe, substituído amanhã por uma compreensão mais ampla daquilo que hoje julgamos compreender.

O universo não nos deve explicações.

Talvez nunca tenha prometido nenhuma.

Continuo acreditando que nossa existência pode ser um acidente.

Continuo acreditando que o cosmos pode ser indiferente.

Continuo sem encontrar qualquer evidência suficiente de que exista uma finalidade inscrita na arquitetura do universo.

Mas há uma coisa que já não consigo negar.

Passei a vida procurando.

E enquanto procurei, algumas coisas passaram a importar.

Uma criança desconhecida.

Um brinquedo quebrado.

Uma pedra segurada por uma mão que desapareceu há cem mil anos.

Uma mulher cujo nome ninguém sabe.

Um homem que morreu acreditando em um deus que hoje ninguém cultua.

Uma inscrição quase apagada.

Uma pequena marca na parede.

E talvez eu tenha entendido finalmente o meu erro.

Eu queria encontrar o sentido da existência como quem encontra uma inscrição enterrada.

Esperava que estivesse escrito em algum lugar.

Num templo.

Num fóssil.

Num manuscrito.

No fundo de uma caverna.

No movimento das estrelas.

Mas talvez não exista inscrição alguma.

Talvez ninguém tenha escrito.

Talvez não haja autor.

Talvez não haja plano.

Talvez não haja destino.

Talvez tudo isso seja apenas matéria acontecendo durante algum tempo.

E, ainda assim...

Nós estamos aqui.

Nós perguntamos.

Nós lembramos.

Nós amamos coisas que sabem que vão morrer.

Nós guardamos objetos de pessoas que jamais conheceremos.

Nós choramos por desconhecidos.

Nós inventamos deuses.

Nós inventamos filosofias.

Nós inventamos poemas.

Nós inventamos explicações.

E, quando nenhuma explicação parece suficiente, continuamos perguntando.

Talvez seja isso que a consciência faz.

Não descobre necessariamente o sentido.

Produz importância.

Talvez eu tenha passado a vida inteira procurando uma finalidade para existir quando, na verdade, minha finalidade — se posso usar uma palavra tão perigosa — foi simplesmente procurar.

Não sei se isso significa alguma coisa.

Ainda desconfio que não.

Mas amanhã continuarei.

Há uma nova descoberta arqueológica no norte da África.

Um pequeno agrupamento humano.

Algumas ferramentas.

Restos de uma fogueira.

Duas sepulturas.

Um objeto cuja função os arqueólogos ainda não compreenderam.

Vou ler o artigo.

Vou recortá-lo.

Vou guardá-lo.

E depois escreverei sobre ele.

Não porque o universo tenha pedido.

Não porque alguém tenha determinado que isso deveria acontecer.

Não porque exista uma razão escondida atrás das coisas.

Vou fazê-lo porque, por alguma razão que não sei explicar, isso importa para mim.

Talvez seja pouco.

Talvez seja tudo.

Fecho o diário por hoje.

Amanhã procurarei novamente.

Serafim Rodrigues

E eu encerraria o livro exatamente aí.

Não com uma conversão.

Não com Deus.

Não com uma revelação.

Não com Serafim abandonando o ateísmo ou sua visão do universo.

O fechamento seria muito mais filosófico: Serafim descobre que a ausência de sentido cósmico não impede a existência de sentido humano.

O universo não precisa ter finalidade para que uma vida tenha valor.

E isso cria uma conclusão particularmente elegante: Serafim passa a vida tentando provar que a existência é um acidente e termina descobrindo que um acidente também pode ser amado.


ÚLTIMO CAPÍTULO

O ACIDENTE

Serafim Rodrigues morreu sem encontrar a prova que procurara durante quase toda a vida.

Não que isso o surpreendesse.

Durante anos havia imaginado o momento em que finalmente encontraria, entre os restos de uma cidade desaparecida, uma inscrição, um artefato, uma ossada ou um documento suficientemente antigo para lhe oferecer aquilo que considerava a demonstração definitiva: nenhuma civilização fora destinada a existir; nenhum povo possuíra uma missão; nenhum homem nascera para cumprir um desígnio previamente escrito em algum lugar.

Tudo começara como uma hipótese.

Depois se transformara em convicção.

Finalmente, tornara-se método de vida.

Serafim colecionava ruínas como outros colecionam fotografias de família.

Fragmentos de cerâmica. Tábuas de argila. Ossos humanos encontrados em cavernas. Ferramentas primitivas. Enterramentos coletivos. Pequenas esculturas cuja finalidade ninguém conseguia determinar. Restos de habitações. Inscrições incompletas. Vestígios de crianças mortas há milhares de anos.

Quanto mais antiga a descoberta, maior lhe parecia a evidência.

Civilizações surgiam.

Inventavam deuses.

Construíam cidades.

Criavam leis.

Amavam.

Guerreavam.

Enterravam seus mortos.

Escreviam poemas.

Depois desapareciam.

E o universo continuava.

Era esse o argumento que Serafim repetira durante décadas.

Tudo aquilo que os homens chamavam de destino parecia, diante da escala do tempo, apenas duração provisória.

Um intervalo.

Uma ocorrência.

Um acidente.

Agora, aos setenta e oito anos, sentado diante da janela de seu apartamento, Serafim compreendia que talvez tivesse passado a vida inteira tentando demonstrar algo que nunca fora exatamente uma descoberta.

O universo não precisava de uma finalidade.

Essa ideia continuava intacta.

Não havia nenhuma razão para supor que as estrelas tivessem sido acesas para iluminar os homens. Não havia evidência de que a matéria tivesse percorrido bilhões de anos para finalmente produzir consciência humana. Não havia fundamento para imaginar que a história possuísse um destino moral ou que o sofrimento de uma criança estivesse inscrito em alguma contabilidade cósmica.

O universo podia ser indiferente.

Talvez fosse.

Talvez sempre tivesse sido.

Mas, pela primeira vez, Serafim percebeu que havia cometido um erro silencioso.

Confundira duas perguntas.

Durante toda a vida perguntara:

Para que existe o universo?

E, diante da impossibilidade de responder, concluíra:

Então nada possui sentido.

Mas as duas coisas não eram equivalentes.

A descoberta lhe pareceu tão simples que quase o irritou.

O universo não precisava ter finalidade para que uma vida tivesse valor.

Uma pedra não precisava de uma missão para ser tocada por uma criança.

Uma árvore não precisava saber por que existia para oferecer sombra.

Um animal não precisava compreender o significado da própria existência para sentir medo, fome, prazer ou apego.

E um homem não precisava ter sido esperado pelo cosmos para amar alguém.

Serafim levantou-se.

Foi até a estante.

Ali estavam milhares de páginas.

Décadas de trabalho.

Seu pequeno arquivo particular da insignificância humana.

Passou os dedos pelas caixas etiquetadas.

MESOPOTÂMIA.

VALE DO INDUS.

EGITO.

AMÉRICA PRÉ-COLOMBIANA.

ÁFRICA ANTIGA.

SEPULTAMENTOS.

OBJETOS DE USO DESCONHECIDO.

EVIDÊNCIAS DE RITUAIS.

Abriu uma delas.

Retirou uma fotografia.

Era um pequeno objeto encontrado décadas antes em uma escavação arqueológica: uma figura rudimentar de barro, sem grande valor artístico, provavelmente produzida por alguém que vivera milhares de anos antes.

Serafim sempre a classificara como um dos mais eloquentes exemplos da inutilidade humana.

Uma pessoa gastara tempo moldando aquilo.

Outra provavelmente o guardara.

Talvez alguém tivesse dado o objeto a alguém.

Talvez tivesse pertencido a uma criança.

Talvez tivesse sido colocado junto ao corpo de um morto.

Nada se sabia.

Durante anos, Serafim escrevera ao lado da fotografia:

“Nenhuma finalidade demonstrável.”

Agora, porém, aquela frase lhe pareceu insuficiente.

Nenhuma finalidade demonstrável.

Sim.

Mas e daí?

Ele permaneceu olhando para a pequena figura.

Talvez fosse exatamente isso que as ruínas haviam tentado lhe ensinar durante toda a vida.

Não que a humanidade tivesse um sentido.

Mas que os homens haviam sido capazes de produzir sentidos, mesmo sabendo — ainda que vagamente — que morreriam.

Talvez fosse essa a estranha singularidade humana.

Não criar significado porque o universo o ordenara.

Criá-lo apesar de o universo não ordenar coisa alguma.

Serafim sentou-se novamente.

Pegou o diário.

Durante muitos anos escrevera nele como quem presta contas a um tribunal inexistente.

Cada anotação era uma tentativa de acrescentar mais uma evidência à sua tese.

Na primeira página ainda estava a frase que escrevera aos vinte e nove anos:

“Minha tarefa é descobrir se existe alguma razão para estarmos aqui.”

Sorriu.

Depois de quase cinquenta anos, percebeu que a pergunta talvez estivesse mal formulada desde o princípio.

Não se tratava de descobrir uma razão.

Tratava-se de compreender o que os homens faziam com a ausência dela.

Abriu uma página em branco.

Demorou muito antes de escrever.

Então registrou:

“Passei minha vida procurando provas de que a existência é um acidente.

Encontrei muitas.

Encontrei estrelas que nasceram sem testemunhas, espécies que desapareceram sem deixar memória, cidades destruídas, povos esquecidos, crianças enterradas sem nome e civilizações inteiras reduzidas a fragmentos que hoje cabem numa caixa.

Nada disso me parece menos verdadeiro.

Continuo acreditando que o universo não possui obrigação alguma para conosco.

Talvez não haja finalidade.

Talvez nunca tenha havido.

Mas hoje percebo que cometi um erro.

Confundi a ausência de sentido cósmico com a impossibilidade de sentido humano.

Não são a mesma coisa.”

Parou.

Olhou para a frase.

Continuou:

“Talvez o sentido não seja uma coisa escondida no universo esperando ser descoberta.

Talvez seja aquilo que fazemos uns com os outros enquanto estamos aqui.”

Serafim deixou a caneta sobre a mesa.

A casa estava silenciosa.

Durante décadas, aquele silêncio lhe parecera uma confirmação.

Agora parecia apenas silêncio.

E isso era diferente.

Pela primeira vez, não precisava que o silêncio dissesse alguma coisa.

Não precisava que o universo respondesse.

Não precisava que as estrelas justificassem a existência das pessoas.

Bastava que existissem pessoas.

Foi então que pensou em algo que jamais havia permitido entrar em suas anotações.

Uma lembrança de infância.

Sua mãe estava sentada na cozinha, muitos anos antes de morrer, descascando laranjas.

Serafim tinha oito anos.

Não se lembrava do que haviam conversado.

Não se lembrava sequer se haviam conversado.

Lembrava apenas da luz entrando pela janela e das mãos dela separando cuidadosamente os gomos da fruta.

Durante décadas, aquela lembrança não significara nada.

Era apenas uma imagem sobrevivente.

Agora percebeu que talvez não fosse.

Sua mãe não existia mais.

A cozinha não existia mais.

A casa havia sido demolida.

A árvore do quintal provavelmente desaparecera.

O menino que observara aquelas mãos também já não existia.

Mas algo permanecera.

Não no universo.

Nele.

E talvez isso bastasse.

Serafim fechou os olhos.

Pensou nos homens que estudara.

Aqueles que enterraram seus mortos.

Os que pintaram paredes de cavernas.

Os que fabricaram pequenos objetos inúteis.

Os que deixaram desenhos.

Os que inventaram histórias.

Os que construíram templos que um dia seriam abandonados.

Os que amaram sabendo que morreriam.

Talvez o mais estranho não fosse o fato de todos terem desaparecido.

Talvez o mais estranho fosse terem amado mesmo assim.

Serafim abriu novamente o diário.

Escreveu:

“O acidente não deixa de ser acidente porque é amado.

Uma flor que nasceu por acaso continua sendo uma flor.

Uma vida que não foi planejada pelo universo continua sendo uma vida.

Talvez o valor não esteja na origem.

Talvez esteja na experiência.”

Parou.

Depois acrescentou:

“Passei muitos anos acreditando que, se a existência não tivesse uma finalidade anterior a nós, então tudo seria vazio.

Hoje penso o contrário.

Talvez seja justamente porque não recebemos um sentido pronto que somos obrigados a construir algum.

Não é uma resposta para o universo.

É uma resposta para nós.”

A noite avançava.

Sobre a mesa estavam os objetos que haviam acompanhado quase toda a sua existência.

Pedras.

Fotografias.

Cópias de manuscritos.

Fragmentos.

Anotações.

Pequenas testemunhas de pessoas que haviam desaparecido.

Serafim olhou para tudo aquilo com uma espécie de ternura que não reconheceu imediatamente.

Foi então que percebeu outra coisa.

Seu arquivo inteiro — milhares de documentos reunidos para provar a insignificância da humanidade — era, involuntariamente, um monumento à importância que ele próprio atribuíra aos mortos.

Se nada importasse, por que guardara tudo aquilo?

Se aquelas pessoas fossem apenas acidentes estatísticos, por que passara décadas tentando impedir que desaparecessem completamente?

Por que aprendera suas línguas?

Por que copiara suas inscrições?

Por que se emocionara diante de sepultamentos de cinco mil anos?

Por que escrevera sobre crianças cujos nomes jamais saberia?

A pergunta o atingiu com uma simplicidade quase cruel.

Talvez seu trabalho tivesse sido uma contradição desde o começo.

Ele afirmava que ninguém importava.

E passara a vida inteira tentando lembrar daqueles que o mundo esquecera.

Serafim sorriu.

Não havia necessidade de negar a contradição.

Talvez ela fosse a coisa mais verdadeira que já encontrara.

Levantou-se mais uma vez.

Foi até a janela.

O céu estava limpo.

Algumas estrelas apareciam entre as luzes da cidade.

Serafim olhou para elas.

Não esperava mensagem.

Não procurava Deus.

Não procurava destino.

Não procurava sequer consolo.

Pela primeira vez, podia olhar para o céu sem exigir que o céu lhe respondesse.

Pensou:

Talvez não haja propósito algum.

E, pela primeira vez, essa possibilidade não lhe pareceu terrível.

Porque havia aprendido uma distinção fundamental.

O universo não precisava ter propósito.

Ele tinha tido uma vida.

E uma vida não precisava justificar-se diante das estrelas.

Serafim voltou à mesa.

Abriu o diário na última página.

Escreveu lentamente, com a letra já trêmula:

“Talvez eu tenha passado a vida tentando provar que a existência é um acidente.

Hoje aceito isso.

Somos acidentes.

A consciência é um acidente.

O amor talvez seja um acidente.

A memória é um acidente.

Esta pequena vida, perdida entre bilhões de outras, é um acidente.

Mas um acidente também pode ser amado.”

Serafim pousou a caneta.

Não escreveu mais nada.

Na manhã seguinte, o diário seria encontrado aberto sobre a mesa.

Ninguém saberia se aquela última frase era uma conclusão ou apenas uma confissão.

Talvez não fosse nenhuma das duas.

Talvez fosse apenas o primeiro pensamento de sua vida que não precisava ser provado.


Anos depois, quando o apartamento foi esvaziado, quase tudo foi descartado.

As caixas foram levadas para um arquivo universitário.

Alguns objetos desapareceram.

Outros foram catalogados.

O pequeno artefato de barro, aquele que Serafim considerara durante décadas uma evidência da inutilidade humana, acabou sendo colocado numa coleção arqueológica.

Sua origem permaneceu desconhecida.

Seu autor permaneceu desconhecido.

Sua finalidade permaneceu desconhecida.

Nada se descobriu sobre a pessoa que o moldara.

Ainda assim, alguém decidiu preservá-lo.

Talvez outro acidente.

Talvez uma escolha.

Talvez ambas as coisas.

No arquivo de Serafim, entre milhares de páginas, encontraram também uma anotação solta, escrita provavelmente poucos dias antes de sua morte.

Não havia data.

Não havia título.

Apenas uma frase:

“O universo pode não saber que existimos. Isso não significa que não devamos saber que existimos uns para os outros.”

Foi a última coisa que Serafim Rodrigues deixou.

Ou talvez não.

Porque, em algum lugar, muito depois de sua morte, alguém encontraria aquelas palavras.

E as leria.

E, por alguns segundos, pensaria em sua própria vida.

Talvez lembrasse de alguém.

Talvez telefonasse para uma pessoa que não via havia muito tempo.

Talvez acariciasse o rosto de um filho.

Talvez perdoasse alguém.

Talvez simplesmente olhasse pela janela e percebesse que estar vivo, ainda que sem explicação, era uma coisa extraordinária.

Serafim jamais saberia.

O universo também não.

Mas talvez não fosse necessário.

Porque, no fim, ele descobrira uma coisa que nenhum de seus documentos arqueológicos havia conseguido lhe ensinar:

o sentido não precisa existir antes da vida para nascer dentro dela.

E talvez essa seja a única resposta que um acidente pode oferecer.

Não uma finalidade.

Não uma explicação.

Não uma promessa.

Apenas isto:

ter acontecido.

E, depois de ter acontecido, ter sido amado.

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