DUAS RODAS, UM CONTINENTE Uma viagem fiosófica pela América Latina

Escrever sob a forma de um documentário, a aventura de dois amigos professores, um de Filosofia, o outro de História, resolvem conhecer a América Latina, viajando numa moto Harley Davidson. Durante a viagem, visitando as principais provincias e capitais dos países, vão desenvolvendo diálogos sobre os aspectos sócioecononomicos das regiões por onde passam, observando os costumes, a cultura, as relações sociais e a vida política local.

A proposta tem grande potencial porque a viagem pode funcionar simultaneamente como documentário de estrada, ensaio filosófico, crônica histórica e investigação política da América Latina. Os dois professores não precisam apenas “conhecer lugares”: eles podem procurar compreender por que um continente tão rico em história, cultura e recursos permanece marcado por desigualdades, violência, dependência e extraordinária capacidade de reinvenção.

Uma estrutura possível seria esta:

DUAS RODAS, UM CONTINENTE
Uma viagem filosófica pela América Latina


Personagens

Álvaro, professor de Filosofia, 58 anos. Cético, observador, interessado em ética, poder, liberdade, desigualdade e nas contradições da modernidade.

Tomás, professor de História, 61 anos. Conhecedor da formação colonial latino-americana, das guerras de independência, das ditaduras, dos movimentos populares e da geopolítica continental.

A motocicleta é uma Harley-Davidson antiga, pesada, negra, quase uma terceira personagem. Eles a chamam de La Libertad.

O documentário começa quando os dois estão diante de um mapa enorme da América Latina.

ABERTURA — O CONTINENTE

A câmera percorre lentamente um mapa.

Do México à Patagônia.

Cordilheiras.

Desertos.

Florestas.

Grandes cidades.

Pequenas aldeias.

Rios.

Favelas.

Plantações.

Portos.

Fronteiras.

A voz de Álvaro:


“Talvez nenhum continente tenha produzido tantas perguntas sobre si mesmo quanto a América Latina.”

Corta para Tomás colocando luvas.


“E talvez nenhum continente tenha sido tão frequentemente explicado pelos outros.”

A Harley é ligada.

O motor rompe o silêncio.

Álvaro olha para Tomás:

— Então vamos descobrir por nós mesmos.

Tomás responde:

— Não. Vamos descobrir que nunca conseguimos descobrir tudo.

A moto parte.

Título na tela:

DUAS RODAS, UM CONTINENTE

PRIMEIRO MOVIMENTO
MÉXICO — A CIVILIZAÇÃO SOB A PELE




6

A viagem começa pelo México.

Cidade do México.

Puebla.

Oaxaca.

Chiapas.

Yucatán.

A câmera registra mercados, igrejas, universidades, vendedores ambulantes, restaurantes populares e bairros periféricos.

Tomás observa:

— O México é uma espécie de arquivo vivo. Você anda pela rua e está atravessando séculos.

Álvaro:

— Mas um arquivo onde os mortos continuam disputando espaço com os vivos.

A conversa conduz à colonização espanhola, à civilização asteca, à Revolução Mexicana, ao PRI, à desigualdade e à fronteira com os Estados Unidos.

No sul, diante de comunidades indígenas, surge outra questão:

O que significa modernização, quando ela exige que uma cultura abandone aquilo que a tornou diferente?

SEGUNDO MOVIMENTO

GUATEMALA — A HISTÓRIA DOS QUE NÃO APARECEM




7

A motocicleta atravessa a fronteira.

Guatemala.

Antigua.

Lago Atitlán.

Cidade da Guatemala.

O documentário abandona temporariamente as grandes avenidas.

A câmera procura os pequenos povoados.

Tecidos indígenas.

Mercados.

Igrejas.

Agricultores.

Mulheres trabalhando.

Crianças brincando.

Tomás fala sobre a violência política e a guerra civil.

Álvaro pergunta:

— Como uma sociedade continua vivendo depois de descobrir que seus mortos foram esquecidos?

Tomás:

— Talvez não continue. Talvez apenas aprenda a carregar os mortos.

A câmera permanece em silêncio durante alguns segundos.

TERCEIRO MOVIMENTO

EL SALVADOR E HONDURAS — A GEOGRAFIA DA DESIGUALDADE




4

A viagem segue pela América Central.

San Salvador.

Tegucigalpa.


Os professores percebem que determinadas fronteiras políticas não correspondem às fronteiras humanas.

A pobreza se repete.

A violência se repete.

A migração se repete.

Tomás:

— É impressionante como as fronteiras mudam e os problemas permanecem.

Álvaro:

— Talvez porque os problemas nunca tenham sido nacionais.

A câmera mostra jovens trabalhando, pequenos comerciantes, ônibus lotados, trabalhadores informais.

A pergunta surge:

Quanto da pobreza latino-americana é resultado de escolhas internas e quanto é herança histórica de uma estrutura econômica internacional?

QUARTO MOVIMENTO

NICARÁGUA — A REVOLUÇÃO E O PODER


Manágua.

Granada.

León.

O documentário mergulha na Revolução Sandinista, na intervenção norte-americana, na Guerra Fria e nos dilemas do poder revolucionário.

Tomás:

— Toda revolução começa dizendo que vai libertar o homem.

Álvaro:

— E algumas terminam perguntando ao homem se ele ainda pode discordar.

Silêncio.

A paisagem continua bela.

Essa contradição se torna uma das marcas do documentário:

um país pode ser simultaneamente belo e politicamente inquietante.

QUINTO MOVIMENTO

COSTA RICA — É POSSÍVEL UMA OUTRA POLÍTICA?


San José.

Montanhas.

Florestas.

Comunidades rurais.

A Costa Rica oferece aos dois uma pausa.

Álvaro observa:

— Talvez a história também seja feita das coisas que não aconteceram.

Tomás pergunta:

— O que você quer dizer?

— Países que não entraram em determinadas guerras. Sociedades que fizeram escolhas diferentes. Instituições que resistiram.

O documentário começa então a comparar modelos latino-americanos.

Não existe uma América Latina única.

Existem várias.

SEXTO MOVIMENTO

PANAMÁ — O CONTINENTE E O MUNDO


Cidade do Panamá.

O Canal.

Navios gigantes atravessando a água.

Arranha-céus.

Bairros populares.

Capital financeira.

Tomás:

— Aqui está uma das grandes ironias latino-americanas.

— Qual?

— O continente possui riquezas extraordinárias, mas frequentemente são os outros que decidem como essas riquezas circulam.

Álvaro olha para os navios.

— Talvez o Canal seja uma metáfora da América Latina.

— Como assim?

— Todos atravessam.

— E nós?

— Nós ficamos olhando a passagem.

SÉTIMO MOVIMENTO

COLÔMBIA — ENTRE A VIOLÊNCIA E A INVENÇÃO




7

Bogotá.

Medellín.

Cartagena.

Eixo Cafeeiro.

A Colômbia permite um dos capítulos mais fortes.

A conversa passa pelo narcotráfico, pelas guerrilhas, pelo Estado, pela desigualdade e pelos processos de paz.

Mas os professores descobrem também uma Colômbia criativa.

Música.

Literatura.

Arte urbana.

Universidades.

Café.

Arquitetura.

Tomás:

— Talvez o maior erro seja explicar um país apenas por suas tragédias.

Álvaro:

— Porque os seres humanos nunca são apenas aquilo que lhes aconteceu.

OITAVO MOVIMENTO

EQUADOR — A ALTURA DO MUNDO


Quito.

Cotopaxi.

Cuenca.

A estrada sobe.

A Harley parece pequena diante da Cordilheira dos Andes.

Álvaro:

— Quando a paisagem fica maior que o homem, talvez o homem fique menos arrogante.

Tomás:

— Ou mais religioso.

O episódio aborda os povos indígenas, o conceito de Buen Vivir, a natureza, o desenvolvimento econômico e a relação entre modernidade e tradições ancestrais.

Surge uma questão central:

Pode existir desenvolvimento sem destruição?

NONO MOVIMENTO

PERU — QUANDO A HISTÓRIA SOBREVIVE




6

Lima.

Cusco.

Vale Sagrado.

Machu Picchu.

Os professores caminham entre ruínas.

Tomás fala sobre os incas.

Álvaro observa as pessoas.

— O que você está pensando?

— Que os impérios passam.

— E?

— E os povos permanecem.

O episódio investiga a herança indígena, a colonização, a exploração mineral, a pobreza, a urbanização e as tensões entre patrimônio cultural e turismo.

DÉCIMO MOVIMENTO

BOLÍVIA — O PAÍS QUE DESAFIA O OLHAR


La Paz.

El Alto.

Sucre.

Potosí.

A Bolívia produz um dos episódios mais políticos.

Altiplano.

Mineração.

Povos indígenas.

Movimentos sociais.

Evo Morales.

Nacionalismo.

Recursos naturais.

Álvaro pergunta:

— O que é ser indígena em um Estado moderno?

Tomás responde:

— Talvez essa seja uma pergunta que a Europa nunca conseguiu fazer corretamente.

DÉCIMO PRIMEIRO MOVIMENTO

CHILE — A PROSPERIDADE E O ABISMO


Santiago.

Valparaíso.

Atacama.

A paisagem muda.

O Chile aparece como uma das economias mais organizadas da região.

Mas as conversas revelam desigualdade, privatização, protestos e memória da ditadura.

Tomás diante de uma antiga construção:

— O Chile é um laboratório.

Álvaro:

— De quê?

— De uma pergunta que atravessa o mundo inteiro.

— Qual?

— Quanto crescimento econômico uma sociedade pode ter, antes de perguntar quem ficou para trás?

DÉCIMO SEGUNDO MOVIMENTO

ARGENTINA — O PAÍS QUE NÃO CONSEGUE ESQUECER




7

Mendoza.

Buenos Aires.

Córdoba.

Patagônia.

A Argentina é apresentada como uma sociedade permanentemente dividida entre memória e expectativa.

Peronismo.

Ditadura.

Democracia.

Crises econômicas.

Inflação.

Futebol.

Literatura.

Tango.

Os dois caminham por Buenos Aires.

Tomás:

— A Argentina parece sempre estar tentando recuperar alguma coisa.

Álvaro:

— Talvez um país também possa ter nostalgia.

DÉCIMO TERCEIRO MOVIMENTO

URUGUAI — A PEQUENA REPÚBLICA


Montevidéu.

Colônia do Sacramento.

Interior uruguaio.

O ritmo desacelera.

Mate.

Praças.

Livrarias.

Porto.

Conversas.

Álvaro:

— Talvez o tamanho de um país não determine o tamanho de sua experiência política.

Tomás:

— E talvez a civilização também seja uma questão de escala.

DÉCIMO QUARTO MOVIMENTO

BRASIL — O PAÍS QUE PARECE CONTINENTE




7

A chegada ao Brasil acontece pelo Sul.

Porto Alegre.

Curitiba.

São Paulo.

Rio de Janeiro.

Brasília.

Salvador.

Recife.

Fortaleza.

Amazônia.

O documentário ganha outra dimensão.

Os professores atravessam um país que parece conter vários países.

Tomás:

— Talvez o Brasil seja o resumo mais contraditório da América Latina.

Álvaro:

— Por quê?

— Riqueza e pobreza. Modernidade e atraso. Democracia e autoritarismo. Ciência e superstição. Universidade e analfabetismo. Cultura sofisticada e exclusão brutal.

Álvaro:

— Então talvez o problema brasileiro não seja falta de identidade.

— Qual seria?

— Identidade demais.

DÉCIMO QUINTO MOVIMENTO

A AMAZÔNIA — A ÚLTIMA FRONTEIRA?




7

Manaus.

Rio Negro.

Comunidades ribeirinhas.

A floresta.

A Harley finalmente fica estacionada.

Agora a viagem precisa continuar de barco.

É um momento simbólico.

A máquina moderna precisa abandonar a estrada.

Álvaro observa a floresta.

— Talvez tenhamos passado séculos tentando dominar a natureza.

Tomás:

— E agora descobrimos que dependemos dela.

— Descobrimos tarde.

ÚLTIMO MOVIMENTO
A ESTRADA DE VOLTA


A viagem termina não com uma conclusão, mas com uma pergunta.

Os dois estão novamente sobre a Harley.

A câmera acompanha a estrada.

Álvaro:

— Depois de atravessar tudo isso, você acha que existe uma América Latina?

Tomás demora a responder.

— Existe.

— Qual?

Tomás olha para a estrada.

— A que ainda está tentando existir.

Silêncio.

Álvaro:

— E o que aprendemos?

Tomás:

— Que não existe uma América Latina.

Álvaro olha para ele.

— Não?

— Existem muitas. E todas carregam umas às outras.

A câmera se afasta.

A Harley desaparece lentamente na estrada

EPÍLOGO — A ÚLTIMA CONVERSA

Meses depois.

Os dois professores estão novamente em sua cidade.

A motocicleta está estacionada na garagem.

As roupas ainda guardam poeira da estrada.

Eles se encontram numa universidade.

Uma turma de estudantes os espera.

Álvaro entra com um mapa.

Tomás entra carregando fotografias.

Um aluno pergunta:

— Professor, afinal, o que vocês descobriram?

Álvaro olha para Tomás.

Tomás sorri.

Álvaro responde:

— Descobrimos que viajar é uma maneira perigosa de estudar História.

O aluno ri.

— Por quê?

Tomás completa:

— Porque depois de conhecer as pessoas, você já não consegue acreditar completamente nos livros.

Álvaro acrescenta:

— E depois de conhecer a História, você nunca mais consegue olhar inocentemente para uma paisagem.

A câmera corta para o mapa da América Latina.

Do México à Patagônia.

A voz de Álvaro encerra:


“Talvez a América Latina não seja uma geografia. Talvez seja uma pergunta. Uma pergunta que atravessa séculos de conquista, escravidão, revolução, pobreza, riqueza, violência, esperança e resistência. Uma pergunta que ainda não encontrou resposta, porque talvez a resposta não esteja em nenhum país. Talvez esteja naquilo que os povos ainda estão tentando construir juntos.”

Tela preta.

Surge lentamente:

DUAS RODAS, UM CONTINENTE
Uma viagem pela história, pela política e pela alma da América Latina.


E, antes dos créditos, escuta-se novamente o motor da Harley.

Fim.


Acho que esta é a forma mais forte de levar o projeto adiante. O livro pode deixar de ser simplesmente “dois professores viajando pela América Latina” e tornar-se um romance-documentário de formação, no qual a viagem exterior provoca uma transformação interior.

Álvaro e Tomás precisam ter uma história anterior à estrada. Eles devem carregar fracassos, perdas, divergências políticas, lembranças familiares, dúvidas intelectuais e até ressentimentos antigos. Assim, cada país não será apenas um cenário: será uma espécie de espelho que modifica os dois.

Proponho que alguns personagens locais reapareçam por cartas, mensagens, lembranças ou encontros inesperados. Isso dará unidade ao continente e impedirá que a narrativa se torne uma sucessão de capítulos turísticos.

Abaixo uma versão mais desenvolvida, já concebida como romance-documentário literário, e não como simples roteiro.

DUAS RODAS, UM CONTINENTE
Romance-documentário de uma viagem pela América Latina
Prólogo
O homem que queria partir


Álvaro não gostava de despedidas.

Talvez por isso tivesse passado quase sessenta anos evitando as viagens que exigiam dizer adeus a alguma coisa.

Não era um homem sedentário. Viajava eventualmente para congressos, seminários, universidades. Conhecia hotéis de muitas cidades, aeroportos de muitos países e restaurantes onde jamais voltaria. Mas havia uma diferença entre viajar e partir.

Viajar era voltar.

Partir era aceitar que alguma coisa poderia mudar.

Naquela manhã de março, Álvaro estava diante da garagem observando a motocicleta.

A Harley-Davidson era preta, pesada, um pouco desproporcional para seu corpo já envelhecido. Tinha sido comprada de segunda mão, depois de uma negociação que Tomás considerara irresponsável.

— Você não tem mais idade para isso — dissera.

Álvaro respondera:

— É justamente por isso.

Tomás não entendera.
Álvaro tampouco sabia explicar.
Talvez estivesse cansado de envelhecer, dentro de uma sala de aula.
Durante trinta e quatro anos ensinara Filosofia.   Falara de Sócrates, Platão, Aristóteles, Agostinho, Descartes, Kant, Nietzsche, Hannah Arendt, Simone de Beauvoir.   Ensinara liberdade a estudantes, que nunca haviam experimentado a falta dela.   Falara sobre justiça, para jovens que ainda não tinham filhos.   Discutira a morte, com pessoas que ainda acreditavam que morrer era uma coisa distante.

Com o tempo, uma dúvida começara a incomodá-lo:

Para que servia uma filosofia, que não conseguia reconhecer o sofrimento de uma pessoa, quando ela estava diante dela?

A pergunta não nascera de um livro.
Nascera de uma mulher.   Sua mãe.

Nos últimos anos de vida, ela perdera progressivamente a autonomia. Álvaro, que conhecia tantas teorias sobre dignidade humana, descobriu que não sabia lidar com a fragilidade concreta de alguém, que um dia lhe parecera indestrutível.

Foi então que começou a desconfiar de sua própria profissão.

Tomás conhecia outra espécie de inquietação.   Era professor de História.
Quarenta anos ensinando revoluções, guerras, impérios, golpes de Estado, escravidão, colonialismo e movimentos sociais.
Sabia explicar, por que os países haviam chegado onde estavam.
Mas, nos últimos anos, começara a perguntar, se compreender o passado, realmente ajudava alguém a viver melhor o presente.

Tomás também carregava uma ferida.
Seu pai fora jornalista durante a ditadura brasileira. Não era um grande jornalista. Não era famoso. Não havia livros sobre ele. Mas havia sido preso durante alguns dias, interrogado, ameaçado e depois obrigado a abandonar o jornal onde trabalhava.

Tomás crescera ouvindo histórias incompletas.
O pai nunca explicava tudo.   Talvez por medo.   Talvez por vergonha.  Talvez porque algumas experiências, não coubessem em palavras.
Tomás se tornara historiador, em parte, para compreender aquilo que o pai jamais conseguira contar.

Álvaro e Tomás eram amigos havia trinta e sete anos.
Conheceram-se em uma universidade pública, quando ainda eram jovens professores.
Desde então, haviam discutido praticamente tudo.
Marx contra Tocqueville.   Nietzsche contra Habermas.   Revolução contra reforma.
Estado contra mercado.
Religião contra secularização.
Capitalismo contra socialismo.
Democracia representativa contra democracia direta.
E, sobretudo, uma questão que nunca conseguiram resolver:  o ser humano melhora com o passar da História?

Tomás dizia que sim.   Álvaro dizia que não.
Tomás acreditava que as instituições aprendiam.   Álvaro achava que os homens, apenas inventavam novas maneiras de repetir os mesmos erros.

Talvez a viagem tivesse começado, justamente porque nenhum dos dois suportava mais discutir sem verificar.

Naquela manhã, Tomás chegou à garagem carregando duas mochilas.

— Ainda dá tempo de desistir.

Álvaro olhou para ele.

— Você veio para desistir?

— Não.

— Então coloque a mochila.


Tomás colocou.

— Para onde vamos primeiro?


Álvaro apontou para o mapa.

— México.

Tomás olhou.   Depois olhou para a motocicleta.

— Você sabe que isso é uma loucura.


Álvaro colocou o capacete.

— É.

O motor despertou.
A cidade ainda não havia acordado completamente.

Eles partiram.   Não sabiam que levariam meses.   Não sabiam que percorreriam milhares de quilômetros.
Não sabiam que encontrariam pessoas, que jamais esqueceriam.   E não sabiam que, no final, a maior distância percorrida, não seria aquela entre o México e a Patagônia.
Seria a distância entre aquilo que pensavam saber, e aquilo que a vida lhes ensinaria.

PARTE I
MÉXICO

1. A primeira fronteira

A fronteira não parecia uma fronteira.
Álvaro esperava alguma coisa monumental, uma espécie de linha histórica, cortando o continente.
Encontrou trânsito.  Caminhões.  Comerciantes.  Policiais.  Famílias.  Crianças.  Homens esperando.  Mulheres carregando sacolas.
Um homem vendia água perto da estrada.

Tomás ficou observando.

— É estranho.


— O quê?

— Durante séculos, os historiadores trataram fronteiras, como se fossem linhas naturais.

Álvaro desligou o motor.

— E não são?

— São decisões políticas, transformadas em geografia.


Foi a primeira conversa da viagem.
E a primeira interrupção veio de um homem chamado Mateo.
Ele tinha pouco mais de cinquenta anos, e trabalhava transportando mercadorias.
Perguntou de onde eles vinham.

— Brasil.

Mateo arregalou os olhos.

— De moto?

— Sim.

Ele olhou para a Harley.

— E por quê?

Álvaro respondeu:

— Para conhecer a América Latina.

Mateo riu.

— Então vocês vieram ao lugar certo, para descobrir que ninguém sabe exatamente, o que é a América Latina.

Tomás gostou dele imediatamente.  Mateo ofereceu café.  Eles aceitaram.  A conversa durou quase uma hora.
Mateo tinha dois filhos.
Um trabalhava nos Estados Unidos.  O outro havia permanecido no México.

— Qual dos dois está melhor? — perguntou Tomás.

Mateo pensou.

— O que foi embora ganha mais dinheiro.

— E o outro?

— O outro vive comigo.


Álvaro percebeu que a resposta escondia alguma coisa.

— O senhor gostaria que seu segundo filho também fosse embora?

Mateo ficou sério.

— Não.

— Por quê?

— Porque quando um filho vai embora, a casa fica maior.


Álvaro não perguntou mais nada.  Mais tarde, na estrada, Tomás disse:

— Isso foi uma frase filosófica.

— Não.

— Por que não?

— Porque foi a vida que falou.


2. Cidade do México

A Cidade do México os confundiu.
Era grande demais para ser compreendida de uma vez.
Álvaro gostava disso.  Tomás não.  Tomás queria entender.  Álvaro preferia observar.
  
No centro histórico conheceram Lucía, uma jovem estudante de História, que trabalhava à noite em uma livraria.
Foi ela quem os conduziu por lugares, que não apareciam nos roteiros turísticos.
Um mercado.  Uma praça.  Uma pequena biblioteca.  Uma manifestação estudantil.
 Lucía tinha vinte e quatro anos e falava rapidamente.

— Vocês são professores?

— Somos.

— Então devem saber muito.


Álvaro respondeu:

— O problema de ser professor, é que você passa a vida descobrindo o quanto não sabe.

Lucía riu.  Ela lhes falou sobre sua família.  A mãe vendia comida.  O pai trabalhava como motorista.  Ela era a primeira da família a frequentar a universidade.

Tomás perguntou:

— E o que você quer fazer?

— Ser historiadora.

— Por quê?


Lucía pensou.

— Porque não quero que contem minha história sem mim.


Tomás ficou em silêncio.

Álvaro percebeu.

— Essa frase vai persegui-lo — disse.

— Já está.

3. Oaxaca


Em Oaxaca, conheceram Isabel, artesã indígena.
Ela trabalhava com tecidos.
Tomás perguntou sobre as figuras bordadas.
Isabel explicou.
Álvaro observou que as mãos dela se moviam com uma segurança, que nenhum professor poderia ensinar.

— Você aprendeu com sua mãe?

— Com minha mãe.

— E ela aprendeu com quem?

— Com a mãe dela.


Tomás sorriu.

— Então você carrega quatro gerações nas mãos.

Isabel respondeu:

— Mais.


Tomás perguntou:

— Quantas?

Ela olhou para ele.

— Não sei.

Álvaro sorriu.

— Essa é uma resposta melhor, que qualquer livro de História.


Isabel não entendeu.  Mas não precisava.

PARTE II
AMÉRICA CENTRAL


A partir da Guatemala, o livro começa a adquirir uma estrutura diferente.
Mateo, Lucía e Isabel, permanecem na memória dos dois.
Eles começam a enviar mensagens.
Lucía pergunta onde estão.  Mateo manda notícias do filho, que vive nos Estados Unidos.  Isabel envia uma fotografia de um novo tecido.

O continente deixa de ser uma sequência de países.
Passa a ser uma rede humana.

GUATEMALA
A mulher que não queria perder os filhos


Em uma aldeia próxima ao Lago Atitlán, conhecem Marta.
Ela cultiva milho.  Tem quatro filhos.  Dois querem emigrar.
Marta diz:

— Não quero que meus filhos tenham medo de permanecer.

Tomás pergunta:

— Eles têm medo?

— Não.

— Então por que querem ir?


Ela olha para ele.

— Porque têm esperança.

A resposta surpreende os dois.  Mais tarde, Álvaro dirá:

— Há países, onde a esperança virou sinônimo de partir.


Tomás escreverá essa frase no caderno.

EL SALVADOR
O homem que perdeu o irmão


Em San Salvador conhecem Rafael, motorista de ônibus.
Ele fala sobre o irmão, que desapareceu durante a guerra.
Tomás pergunta, se ele sabe exatamente o que aconteceu.

— Não.

— E isso é pior?


Rafael responde:

— O pior é não saber se você deve esperar, ou esquecer.

Tomás não consegue responder.
Naquela noite, confessa a Álvaro:

— Foi por isso que virei historiador.

— Por causa do seu pai?


Tomás demora.

— Porque eu queria acreditar, que aquilo que não conseguimos dizer, pode ser recuperado pela História.

Álvaro responde:

— Talvez algumas coisas não possam.


É uma das primeiras grandes fissuras entre os dois.
Tomás sente que Álvaro está sendo cruel.
Álvaro sabe que está sendo sincero.

NICARÁGUA
A revolução que envelheceu


Em Manágua, conhecem Esteban, antigo militante revolucionário.
Ele tem setenta anos.  Fala com entusiasmo sobre a juventude.
Depois, lentamente, sua voz muda.

— Nós acreditávamos que mudar o governo, seria mudar o mundo.

Álvaro pergunta:

— E não foi?


Esteban olha para o chão.

— Descobrimos que o poder muda as pessoas mais rapidamente, do que as pessoas mudam o poder.

Tomás fica impressionado.

— Você se arrepende?

— Não.

— Mesmo de tudo?

— Eu me arrependo de algumas coisas. Mas não da esperança.


Álvaro olha para Tomás.
É a primeira vez que concordam sem discutir.

PARTE III
COLÔMBIA E OS ANDES


Na Colômbia, o personagem central será Julián, músico de Medellín.
Ele apresenta aos dois uma cidade, que não pode ser reduzida ao narcotráfico.

Julián perdeu um irmão para a violência.
Mas toca música nas praças.
Quando Álvaro pergunta por quê, ele responde:

— Porque, se a violência matou meu irmão, não vou permitir que ela mate também, o resto da minha vida.


Essa frase modifica Álvaro.  Ele começa a perceber que resistência, não é apenas protestar.  Às vezes é simplesmente continuar criando.

EQUADOR
O homem que não queria ser desenvolvido


Nos Andes, conhecem Manuel, agricultor indígena.

Tomás pergunta:

— O que você gostaria que o governo fizesse, por sua comunidade?


Manuel responde:

— Que não atrapalhasse.

— Só isso?

— Já seria bastante.


Álvaro ri.  Depois pergunta:

— O senhor se considera pobre?

Manuel demora.

— Tenho pouco dinheiro.

— Isso é pobreza?

Manuel olha para o campo.

— Não sei.

E então pergunta:

— Professor, uma pessoa com dinheiro, mas sem terra, sem família e sem tempo, é rica?

Álvaro não responde.  Naquela noite, escreve:

“Talvez riqueza, seja aquilo que sobra, depois que retiramos do homem, aquilo que ele pode comprar.”

PERU
A memória das pedras


No Peru, Tomás reencontra a História, que ensinara durante décadas.  Mas agora ela tem cheiro.  Tem poeira.  Tem fome.  Tem turismo.  Tem vendedores.  Tem crianças.
Conhecem Rosa, guia turística de Cusco.  Ela sabe tudo sobre os incas.
Mas sua família vive com dificuldades.

Álvaro pergunta:

— Você acha que o turismo ajuda?


Rosa responde:

— Ajuda.

Pausa.

— Mas também transforma nossa história, em mercadoria.


Tomás olha para Álvaro.

Desta vez, é ele quem diz:

— Essa frase é filosofia.

Álvaro sorri.

— Não. É a vida falando.

BOLÍVIA
A mulher de Potosí


Em Potosí conhecem Elena, cujo marido trabalha na mineração.

Ela fala sobre dinheiro.  Depois sobre doença.  Depois sobre medo.
A prata que enriqueceu impérios, parece ter deixado pouco, para aqueles que continuam retirando riqueza da terra.

Tomás diz:

— A História parece repetir-se.


Elena responde:

— Não.

Os dois se surpreendem.

— O que muda, então?

Ela aponta para os homens entrando na mina.

— Os nomes.

PARTE IV
CHILE E ARGENTINA


No Chile, os dois conhecem Sofía, professora universitária que participou dos protestos sociais.

No início, Tomás a vê como representante de uma geração.  Álvaro o corrige:

— Não transforme uma pessoa em categoria histórica.


Essa será uma regra importante da narrativa:

nenhum personagem local existe para ilustrar uma tese.

Cada um deve contradizer a tese.
Sofía é socialista, mas critica a esquerda.
Julián é pobre, mas rejeita ser tratado como vítima.
Marta é indígena, mas deseja que os filhos tenham acesso à modernidade.
Rafael perdeu alguém para a violência, mas não deseja vingança.
Manuel critica o capitalismo, mas gosta de tecnologia.

Essas contradições impedirão que o romance transforme a América Latina em caricatura ideológica.


Na Argentina, surge Diego, dono de um pequeno café em Buenos Aires.
Ele é peronista.
Tomás não consegue resistir.

— Então você é peronista?

Diego ri.

— Professor, aqui ninguém pergunta isso, antes de perguntar seu nome.

A amizade entre os três cresce.

Diego apresenta a eles uma Buenos Aires, que não aparece nos livros.

Fala da inflação.  Dos pais.  Do futebol.  Da política.  Da juventude.  Da nostalgia.

— A Argentina é um país que lembra demais — diz.

Álvaro pergunta:

— E isso é bom?

— Só quando a memória não impede o futuro.

PARTE V
BRASIL — O CONTINENTE DENTRO DO CONTINENTE


A entrada no Brasil não encerra a viagem.  Ao contrário.  Ela transforma a viagem.  Porque agora os dois estão em casa.  E estar em casa, é muito mais perigoso do que estar estrangeiro.
Eles conhecem melhor a língua.  Reconhecem os costumes.  Entendem as piadas.  Sabem as referências.
E, por isso mesmo, começam a enxergar coisas, que antes pareciam invisíveis.

Em São Paulo conhecem André, entregador de aplicativo.
Em Salvador, Dona Celina, cozinheira.
No Rio, Marcos, professor de escola pública.
No Nordeste, João, pequeno agricultor.
Na Amazônia, Samuel, pescador ribeirinho.

Cada um deles introduz uma dimensão diferente do país.
André fala sobre trabalho e tecnologia.
Celina sobre escravidão, racismo e memória.
Marcos sobre educação.
João sobre seca, políticas públicas e migração.
Samuel sobre floresta e sobrevivência.

E, pouco a pouco, os dois percebem que não existe “o brasileiro”.

Existem milhões de experiências brasileiras.

AMAZÔNIA

O homem que não queria ser salvo
Samuel os leva de barco.
Álvaro pergunta:

— O que você acha que a cidade entende errado sobre a Amazônia?


Samuel responde:

— Que nós precisamos ser salvos.

— E não precisam?

— Precisamos de saúde. Escola. Segurança. Trabalho. Mas não precisamos que ninguém venha nos ensinar, que nossa vida é errada.


Tomás anota.

Depois fecha o caderno.

— Você sabe que acaba de desmontar quinhentos anos de política?

Samuel ri.

— Não sei.

— Desmontou.

— Então escreva direito.


PARTE VI
A ÚLTIMA CONVERSA


Depois de meses, Álvaro e Tomás estão cansados.

A Harley também.
Há pequenas marcas na pintura.  Um risco no tanque.  Poeira nas partes metálicas.  Uma peça substituída no Peru.  Outra no Brasil.  Ela deixou de ser apenas motocicleta.  Tornou-se arquivo.  Cada risco corresponde a uma estrada.  Cada marca lembra uma fronteira.  Cada reparo guarda uma história.

Na última noite, os dois estão sentados diante de uma estrada vazia.

Tomás pergunta:

— Você mudou de opinião?

— Sobre o quê?

— Sobre a humanidade.


Álvaro sorri.

— Essa é uma pergunta muito grande.

— Você sempre gostou das perguntas grandes.

— E você sempre gostou das respostas.


Tomás espera.

Álvaro finalmente diz:

— Eu achava que os homens repetiam a História.

— E agora?

— Agora acho que repetimos algumas coisas.

— Isso não é muito diferente.

— É.

— Por quê?


Álvaro olha para ele.

— Porque agora conheço pessoas, que conseguiram não repetir.

Tomás permanece calado.

Álvaro continua:

— A História não está apenas nas guerras que vencemos, ou perdemos. Está naquela mãe, que decidiu ficar. Naquele jovem, que decidiu voltar. Naquele músico, que continuou tocando. Naquela mulher, que conservou o tecido da mãe. Naquele professor, que continuou ensinando depois de perder a esperança.

Tomás pergunta:

— Então você acredita no progresso?


Álvaro olha para o horizonte.

— Não.

Tomás ri.

— Eu sabia.

Álvaro também ri.

— Mas acredito em pessoas.

EPÍLOGO

O continente que voltou com eles

Quando retornaram à universidade, já não eram exatamente os mesmos.
Tomás continuava sendo historiador.
Álvaro continuava sendo filósofo.
Mas alguma coisa havia mudado.
Tomás falava menos de “processos históricos”, e mais de pessoas.
Álvaro falava menos de “condição humana”, e mais de nomes.
Mateo.
Lucía.
Isabel.
Marta.
Rafael.
Esteban.
Julián.
Manuel.
Rosa.
Elena.
Sofía.
Diego.
André.
Celina.
Marcos.
João.
Samuel.

A América Latina agora tinha rosto.

No primeiro seminário depois da viagem, um estudante perguntou:

— Professor, afinal, o que vocês descobriram?


Tomás olhou para Álvaro.

Álvaro respondeu:

— Que nós tínhamos estudado a América Latina durante décadas sem conhecê-la.

— E agora conhecem?


Álvaro sorriu.

— Não.

— Então a viagem não serviu?


Tomás respondeu:

— Serviu para descobrir que conhecer, é uma coisa muito mais difícil do que estudar.

Na parede havia um grande mapa.

Tomás aproximou-se.

— Talvez o nosso erro tenha sido pensar, que a América Latina era um conjunto de países.

Álvaro perguntou:

— E o que ela é?

Tomás passou os dedos pelo mapa.

— Um conjunto de histórias que se cruzam.

Álvaro completou:

— E de pessoas que continuam tentando construir uma vida apesar da História.

Silêncio.  A câmera imaginária se afasta.  O mapa ocupa toda a parede.

O México.
A América Central.
Os Andes.
A Argentina.
O Brasil.
A Amazônia.
O continente inteiro.
E então surgem, uma a uma, as fotografias dos personagens que conheceram.
Mateo.
Lucía.
Isabel.
Marta.
Rafael.
Esteban.
Julián.
Manuel.
Rosa.
Elena.
Sofía.
Diego.
André.
Celina.
Marcos.
João.
Samuel.

O continente deixa de ser mapa.  Transforma-se em rostos.

A voz de Álvaro:

“Talvez a América Latina não seja um continente pobre, nem um continente rico. Talvez seja um continente desigual, contraditório, violentamente histórico e extraordinariamente vivo. Um continente, onde o passado ainda conversa com o presente, e onde milhões de pessoas continuam tentando inventar o futuro.”

Pausa.

“Nós viajamos para conhecer a América Latina. Descobrimos que ela já estava dentro de nós.”


A tela escurece.  O som da Harley retorna.  Depois, silêncio.

DUAS RODAS, UM CONTINENTE
A viagem termina. As histórias continuam.


Segunda etapa — transformar o romance em livro ilustrado

Aqui eu faria algo mais sofisticado, do que simplesmente colocar fotografias entre os capítulos. O livro poderia ter uma linguagem visual documental própria, como se o leitor estivesse acompanhando uma expedição cinematográfica.

Cada país poderia abrir com uma página dupla, contendo:uma fotografia-síntese do país;
mapa do percurso de Álvaro e Tomás;
capital e principais cidades visitadas;
população, indicadores sociais e econômicos essenciais;
uma pequena cronologia histórica;
uma frase retirada do capítulo;
uma imagem cotidiana que contrarie o cartão-postal turístico.

Por exemplo, no México, em vez de apenas uma fotografia de Teotihuacán, teríamos Teotihuacán + mercado indígena + metrô lotado + vendedor ambulante + periferia da Cidade do México.                                                        Assim, o livro visualmente sustentaria a própria tese do romance: um país não é sua paisagem monumental; é a vida das pessoas que vivem dentro dela.






O princípio visual do livro

Eu estabeleceria cinco categorias recorrentes de imagens:

1. O território
Estradas, montanhas, desertos, rios, florestas, fronteiras e paisagens.

2. O trabalho

Agricultores, pescadores, mineiros, vendedores, entregadores, artesãos, professores e trabalhadores informais.

3. A cidade

Arquitetura, transporte público, periferias, centros históricos, favelas, mercados e espaços de convivência.

4. A cultura
Música, dança, culinária, religião, artesanato, festas, indígenas, literatura e manifestações populares.

5. A política vivida

Manifestações, eleições, murais políticos, monumentos, memoriais, prédios públicos, movimentos sociais e cenas de conflito ou participação cívica.

Isso permitiria que cada fotografia tivesse função narrativa. Não seriam ilustrações decorativas, mas documentos que acrescentam uma segunda camada ao texto.
Um recurso que pode tornar o livro particularmente original
Eu acrescentaria, ao final de cada país, uma pequena seção chamada:

O QUE A ESTRADA NÃO MOSTRA

Ali, Álvaro e Tomás discutiriam aquilo, que a fotografia não consegue registrar.
Uma fotografia pode mostrar uma favela.  Mas não mostra quanto tempo uma pessoa leva, para chegar ao trabalho.
Pode mostrar um mercado indígena.  Mas não mostra a ameaça de desaparecimento de determinada tradição.
Pode mostrar uma floresta.  Mas não mostra o conflito econômico que existe por trás dela.
Pode mostrar uma manifestação.  Mas não mostra a esperança ou o medo de quem participa.

Assim, a imagem mostra; a narrativa interpreta; os personagens contradizem a interpretação.
Isso daria ao projeto uma dimensão documental, muito mais poderosa.

E há ainda, uma possibilidade estrutural, que considero especialmente interessante: fazer a própria Harley-Davidson funcionar como um diário físico da viagem.                                                                                                        Ao final de cada grande etapa, uma pequena fotografia da motocicleta, mostraria uma nova marca, risco, poeira, peça substituída ou objeto preso a ela.  A motocicleta começaria impecável, e terminaria marcada pelo continente.                                                                                                                       Seria uma metáfora visual da transformação dos dois homens.

O livro poderia assim, terminar com a Harley parada na garagem, coberta de poeira, enquanto ao lado dela, estão o mapa, os cadernos, as fotografias e os objetos recolhidos durante a viagem.                                                                A máquina voltou para casa; os dois professores, não inteiramente.                

Esse seria o projeto do livro, com a motocicleta parada na garagem coberta de poeira, a moto voltou para casa, os dois professores não. Vamos escreve-lo, então.

Vamos escrevê-lo como romance, não como roteiro. A viagem será a espinha dorsal, mas a verdadeira narrativa, estará nas pessoas que Álvaro e Tomás encontrarão, e nas mudanças que esses encontros provocarão neles.

Vou preservar a ideia central: a Harley volta para casa coberta de poeira; os dois professores, não. Eles voltarão, carregando outra compreensão da História, da Filosofia, da América Latina e, sobretudo, de si mesmos.

Começamos pelo Prólogo, que precisa estabelecer a atmosfera, os dois personagens e a razão íntima da partida, seguido do primeiro capítulo.


DUAS RODAS, UM CONTINENTE
Romance-documentário
A viagem termina. As histórias continuam.


PRÓLOGO

A motocicleta na garagem

Quando a viagem terminou, a motocicleta voltou para casa.

Os dois professores, não.

A Harley-Davidson permanecia na garagem, coberta por uma fina camada de poeira, que nenhum deles se apressava em retirar.                                       A poeira havia chegado de longe. Trazia pequenas partículas de estradas, que já não sabiam nomear, de cidades atravessadas de madrugada, de desertos, montanhas, planícies e caminhos secundários, que não apareciam nos mapas convencionais.

Havia poeira mexicana, nas partes mais baixas do motor. Poeira dos Andes, nos cantos das rodas.  Poeira da Patagônia, agarrada às pequenas frestas da carenagem.
E havia alguma coisa que eles não sabiam nomear.  Talvez fosse a poeira das pessoas.

Álvaro gostava de dizer, que a motocicleta tinha voltado carregando um continente.
Tomás achava exagero.

— Uma motocicleta não carrega um continente.

Álvaro olhava para ele.

— Então, o que você acha que carregamos?

Tomás nunca respondia imediatamente.  Essa pergunta tinha se tornado incômoda.  Porque, quando partiram, tinham imaginado que fariam uma viagem.
Agora sabiam, que uma viagem não é uma linha traçada entre dois pontos.
É uma perturbação.

A pessoa parte acreditando que conhece o lugar para onde vai, e volta descobrindo que aquilo que julgava conhecer, não passava de uma coleção de ideias.

Durante décadas, os dois haviam ensinado a América Latina.
Tomás ensinara sua História.
Álvaro ensinara algumas das perguntas filosóficas, que poderiam ser feitas sobre ela.

Tinham falado de colonização, escravidão, revoluções, independências, ditaduras, desigualdade, capitalismo, socialismo, democracia, religião, identidade, nacionalismo, desenvolvimento e dependência.

Sabiam datas.
Conheciam autores.
Tinham bibliotecas.
Tinham opiniões.

O que não tinham, era a experiência de olhar nos olhos de alguém, que precisava sobreviver àquilo, que eles explicavam em sala de aula.
Foi isso que a viagem lhes ensinou.
A pobreza não era um conceito.  Tinha o rosto de uma mulher.
A migração não era uma estatística.  Tinha a voz de um pai, que esperava o filho voltar.
A violência não era apenas um processo histórico.  Era uma fotografia guardada durante quarenta anos, dentro de uma gaveta.
A desigualdade não era um gráfico.  Era uma avenida que separava dois mundos.
 A tradição não era folclore.  Eram mãos de uma mulher indígena repetindo um desenho aprendido com a mãe.
A esperança não era uma palavra.  Às vezes era simplesmente a decisão de ficar.  Às vezes, a decisão de partir.

Talvez por isso a Harley, estivesse coberta de poeira.
Nenhum dos dois tivera coragem de lavá-la.
Ou talvez fosse apenas preguiça.

Tomás dizia que era preguiça.  Álvaro dizia que era memória.

A verdade era que ambos sabiam que, se removessem aquela poeira, alguma coisa da viagem desapareceria.
A motocicleta tinha sido comprada para a viagem.  Agora era um objeto de lembrança.
  
Naquela manhã, meses depois do retorno, Álvaro entrou sozinho na garagem.
Passou a mão sobre o tanque.  Encontrou um risco.  Não lembrava de onde vinha.  Abriu o baú traseiro.  Encontrou um pequeno tecido dobrado. Oaxaca.
Uma fotografia.  Uma criança diante de uma casa de madeira.
A Guatemala.
Um recibo amassado.
Colômbia.
Um pedaço de papel com uma frase escrita por Tomás:

“Os nomes mudam. As relações de poder permanecem.”


Álvaro sorriu.  Tomás tinha escrito aquilo em Potosí.
Depois havia outra frase, sua própria letra:

“Mas as pessoas também mudam.”

Ele ficou alguns segundos olhando para as duas frases.  Talvez a viagem inteira pudesse ser resumida naquela pequena discussão.
Tomás acreditava na força da História.  Álvaro acreditava na capacidade humana de escapar dela.
Durante décadas, haviam discutido quem estava certo.
Depois da viagem, nenhum dos dois tinha certeza.
E talvez essa fosse a primeira coisa verdadeiramente importante, que haviam aprendido.

Álvaro fechou o baú.  Aproximou-se da motocicleta.

— Você voltou — disse.


A Harley permaneceu silenciosa.

— Nós não.

Atrás dele, Tomás apareceu na porta da garagem.

— Está falando com a moto?


Álvaro não se virou.

— Estou.

— E ela respondeu?

— Mais do que muita gente.


Tomás riu.  Depois ficou sério.
Os dois olharam para a motocicleta.  Durante alguns segundos não disseram nada.
A viagem havia terminado.  Mas a história deles ainda não.
A câmera, se houvesse uma câmera, recuaria lentamente.

Primeiro a motocicleta.
Depois os dois homens.
Depois a garagem.
E, finalmente, a casa.

Mas antes que a imagem desaparecesse, voltaríamos ao começo.
Ao mapa.
À manhã, em que ainda não sabiam.
Ao dia, em que dois professores decidiram abandonar os livros por alguns meses, e tentar descobrir se a América Latina, era aquilo que haviam aprendido, ou aquilo que encontrariam, quando a estrada finalmente começasse.

PARTE I
O CONTINENTE COMEÇA NA ESTRADA
CAPÍTULO 1
O mapa


O mapa estava aberto sobre a mesa da sala de jantar.
Álvaro havia retirado tudo que pudesse atrapalhar.
Pratos.
Copos.
Livros.
Jornais.
Até o vaso de flores, que sua mulher deixara sobre a mesa, naquela manhã.

Quando ela entrou na sala, e viu a América Latina ocupando praticamente todo o espaço, não demonstrou surpresa.

— Então é verdade.


Álvaro levantou os olhos.

— O quê?

— Você vai mesmo.


Ele não respondeu.  Ela se aproximou.

Tinha convivido com Álvaro durante quase trinta anos, e aprendera que os silêncios dele, tinham diferentes significados. Alguns eram apenas silêncio. Outros eram respostas, que ainda não haviam encontrado coragem para virar palavras.
Aquele era um deles.

— Para onde?

Álvaro apontou para o mapa.

— México.

— E depois?

— Depois a estrada decide.


Ela olhou para ele.

— Isso é uma frase de Tomás.

Álvaro sorriu.

— Talvez.

— Vocês dois estão ficando loucos.

— Provavelmente.


Ela apoiou as mãos sobre a mesa.

— Quanto tempo?

Álvaro hesitou.

— Não sabemos.

— Álvaro.

— Alguns meses.


Ela respirou fundo.

— Você tem quase sessenta anos.

— Cinquenta e oito.

— Isso muda alguma coisa?

— Para a seguradora, talvez.


Ela tentou não rir.  Não conseguiu.  Álvaro também.  Mas havia preocupação em seus olhos.
Ele sabia.  Não era uma viagem simples.  Uma motocicleta pesada.
Milhares de quilômetros.  Fronteiras.  Estradas desconhecidas.  Altitude.
Desertos.
Montanhas.
Cansaço.
Acidentes.
Doenças.
Tudo aquilo estava presente.  Mas havia outra coisa.

Aquela viagem não era apenas uma aventura tardia, de dois professores.

Era uma espécie de fuga.

Álvaro não sabia exatamente de quê.  Talvez da própria vida.  Talvez da universidade.  Talvez do homem, em que havia se transformado.

Durante décadas ensinara Filosofia.  E começara a desconfiar de sua própria filosofia.  A desconfiança tinha um nome:  Helena.  Sua mãe.

Nos últimos quatro anos, ela envelhecera de maneira rápida e cruel.
Primeiro vieram os esquecimentos.  Depois as quedas.  Depois a dependência.

Álvaro passara a acompanhá-la em consultas médicas, exames, hospitais e longas tardes, em que ela parecia olhar para ele sem reconhecê-lo completamente.

Havia estudado durante toda a vida, o problema da dignidade humana.
Agora, sua mãe precisava de ajuda para tomar banho.
A Filosofia nunca lhe ensinara como suportar aquilo.

Ele sabia falar sobre a finitude.  Mas não sabia conversar com uma mulher, que lhe perguntava, às vezes, se ainda estava esperando o pai voltar.
Seu pai havia morrido vinte anos antes.

Álvaro dizia:
— Mamãe, papai morreu.

Ela olhava para ele.
— Eu sei.

Depois perguntava:
— Mas ele volta amanhã?

Álvaro descobrira que existem perguntas para as quais, a verdade é insuficiente.
Foi depois de uma dessas tardes que ligou para Tomás.

— Vamos viajar.


Tomás perguntou:

— Para onde?

— América Latina.


Silêncio.

— De carro?

— De moto.


Outro silêncio.

— Você enlouqueceu?

— Talvez.


Tomás não riu.  Porque conhecia o amigo.  Quando Álvaro dizia “talvez”, geralmente queria dizer “sim”.

CAPÍTULO 2
Tomás


Tomás tinha sessenta e um anos, e uma relação complicada com o passado.
Era historiador.
O que, segundo Álvaro, já constituía uma forma profissional de não conseguir esquecer.

Tomás não gostava da provocação.

— Você fala como se a memória fosse um defeito.


— Às vezes é.

— E a amnésia?

— Também.

— Então?

— A questão é saber o que fazer com aquilo que lembramos.


Tomás tinha uma história pessoal com a memória.

Seu pai, Antônio, fora jornalista.  Não famoso.  Não importante.  Não escrevera livros.  Não recebera prêmios.

Mas certa noite, quando Tomás tinha onze anos, dois homens foram buscá-lo em casa. 

Ele nunca esqueceu o som da campainha.  Seu pai mandou que ele fosse para o quarto.
Tomás não obedeceu.  Ficou escondido atrás da porta.
Ouviu vozes.

Depois ouviu o pai dizer:

— Eu não escrevi isso.

Uma voz respondeu:

— Não importa.


Foi tudo.
Pouco depois, Antônio desapareceu durante alguns dias.
Quando voltou, estava diferente.
Mais calado.  Mais velho.

Tomás nunca perguntou exatamente, o que acontecera.
Seu pai nunca explicou.

Anos depois, quando Antônio morreu, Tomás encontrou no fundo de uma gaveta, uma pasta com recortes de jornais.
Alguns artigos estavam marcados a lápis.  Outros tinham palavras circuladas.
Em um dos recortes havia uma frase:

“Um país começa a perder a liberdade, quando as pessoas passam a ter medo de dizer aquilo que pensam.”

Tomás guardou o recorte.  Tornou-se historiador.
Talvez tivesse passado a vida, tentando encontrar o nome dos homens que haviam entrado naquela casa.  Talvez quisesse descobrir, o contexto histórico daquilo que acontecera ao pai.  Talvez quisesse provar, que o sofrimento de uma pessoa, não desaparece simplesmente porque o Estado muda de regime.

Por isso, quando Álvaro propôs a viagem, Tomás aceitou.
Mas havia outro motivo.
Nos últimos anos, começara a sentir uma espécie de fracasso.
Ensinava História, para estudantes que conheciam o passado cada vez menos.
E, ao mesmo tempo, a política parecia repetir velhas paixões.
Novos discursos.  Novos inimigos.  Novos líderes.  Novas promessas.  Velhas formas de manipulação.

Tomás começara a se perguntar, se a História realmente ensinava alguma coisa.

Uma noite, depois de uma aula sobre autoritarismo, um aluno lhe perguntou:

— Professor, por que as sociedades continuam elegendo pessoas, que ameaçam a democracia?

Tomás respondeu o que esperava-se que um professor respondesse.

Falou sobre instituições.  Educação. Desigualdade.  Desinformação.
Crises econômicas.  Polarização.
Depois voltou para casa.  Mas a pergunta permaneceu.

Por que saber o que aconteceu, não impede que façamos novamente?

Foi naquela noite que decidiu acompanhar Álvaro.

CAPÍTULO 3
Dois homens e uma máquina


A Harley chamava-se La Libertad.

O nome havia sido escolhido por Tomás.

Álvaro detestou.

— Parece nome de bar de estrada.

— E daí?

— É pretensioso.

— Liberdade é pretensiosa?

— Uma motocicleta não é liberdade.

Tomás ficou olhando para ele.

— Então o que é liberdade?

Álvaro demorou.

— Uma coisa que você só descobre quando perde.

Tomás sorriu.

— Então precisamos viajar.

A motocicleta era preta.

Pesada.

Imponente.

Um pouco antiga.

Não tinha a elegância das motos esportivas nem a praticidade das motocicletas pequenas. Parecia feita para atravessar distâncias longas e difíceis.

Tomás gostava dela.

Álvaro gostava daquilo que ela representava.

Nenhum dos dois dizia.

Na manhã da partida, Tomás chegou cedo.

Trazia duas mochilas.

Uma caixa de ferramentas.

Documentos.

Mapas.

Um caderno.

Álvaro tinha um único caderno.

Tomás reclamou.

— Você não vai anotar nada?

— Vou lembrar.

— Você é filósofo. Deveria saber que a memória engana.

— E você é historiador. Deveria saber que documentos também.

Tomás fechou a mochila.

— Começamos bem.

Álvaro colocou o capacete.

— Ainda podemos desistir.

— Você quer?

— Não.

— Então vamos.

A motocicleta foi ligada.

O som atravessou a rua.

Algumas janelas se abriram.

Um cachorro latiu.

Um menino apareceu na calçada.

Tomás acenou para ele.

O menino olhou para a motocicleta.

Depois para os dois homens.

— Para onde vocês vão?

Tomás respondeu:

— América Latina.

O menino pareceu decepcionado.

— Mas onde?

Álvaro riu.

— É justamente isso que vamos descobrir.

A motocicleta começou a andar.

Durante os primeiros quilômetros, nenhum dos dois falou.

A cidade desapareceu.

Depois vieram as rodovias.

Postos de gasolina.

Caminhões.

Restaurantes.

Placas.

Outros motociclistas.

O país foi ficando para trás.

Tomás finalmente gritou:

— Está com medo?

Álvaro respondeu:

— Não ouvi!

Tomás aumentou a voz:

— ESTÁ COM MEDO?

Álvaro riu.

— UM POUCO!

Tomás respondeu:

— EU TAMBÉM!

Foi talvez a conversa mais honesta que tiveram em toda a viagem.

CAPÍTULO 4
A primeira fronteira


A fronteira demorou menos do que imaginavam.

Mas a sensação de atravessá-la demorou muito mais.

Havia algo de artificial naquele gesto.

Uma cancela.

Um posto.

Documentos.

Carimbos.

Policiais.

Uma linha invisível.

E, de repente, outro país.

Tomás desligou o motor.

— É estranho.

Álvaro tirou o capacete.

— O quê?

— Aqui termina um país.

Álvaro olhou para a estrada.

— Não.

— Não?

— Aqui termina uma ideia de país.

Tomás sorriu.

— Começamos cedo.

Um homem aproximou-se.

Tinha pouco mais de cinquenta anos.

Chamava-se Mateo.

Trabalhava com transporte de mercadorias e esperava a liberação de um caminhão.

Olhou para a Harley.

— Brasil?

— Brasil.

— Vocês vieram de lá?

— Viemos.

Mateo examinou os dois.

— Loucos.

Álvaro respondeu:

— Professores.

Mateo pensou.

— É quase a mesma coisa.

Tomás riu.

Mateo ofereceu café.

Sentaram-se.

O café era forte.

O assunto também.

Mateo tinha dois filhos.

Um morava nos Estados Unidos.

O outro continuava com ele.

Tomás perguntou:

— O que o filho que está nos Estados Unidos faz?

— Construção.

— Ganha bem?

— Melhor que aqui.

— E manda dinheiro?

— Às vezes.

Álvaro perguntou:

— Ele quer voltar?

Mateo ficou olhando o café.

— Não sei.

— E você quer que ele volte?

Mateo demorou.

— Quero.

— Por quê?

O homem olhou para os dois.

— Porque quando um filho vai embora, a casa fica maior.

Ninguém falou durante alguns segundos.

Tomás tentou voltar ao assunto econômico.

— A migração é um fenômeno muito complexo.

Mateo olhou para ele.

— Professor?

Tomás sorriu.

— Sim.

— O senhor está falando da minha família.

Tomás abaixou os olhos.

Foi uma pequena derrota.

Mas talvez tenha sido necessária.

Porque naquele momento percebeu algo que acompanharia os dois por toda a viagem:

os conceitos que usavam para compreender a América Latina, quase sempre tinham sido construídos longe das pessoas, que precisavam suportar suas consequências.

Quando finalmente voltaram à estrada, Tomás ficou silencioso.

Álvaro percebeu.

— Está pensando no quê?

— Em uma coisa que você vai achar engraçada.

— Diga.

— Acho que acabamos de começar a nossa viagem de verdade.

Álvaro sorriu.

— Por causa de um café?

— Por causa de um homem que não sabia que estava dando uma aula.

A Harley avançou.

Atrás deles, a fronteira desapareceu.

À frente, o México começava.

E com ele começava também a lenta desmontagem de tudo aquilo que os dois professores julgavam saber.

Este será o primeiro bloco efetivamente literário do romance. A partir daqui, a narrativa pode avançar em capítulos relativamente longos, mantendo três fios simultâneos: a estrada, os encontros humanos e a transformação interior de Álvaro e Tomás.

O próximo passo natural é entrar na Cidade do México, onde Lucía aparecerá pela primeira vez e funcionará como personagem recorrente. A partir dela, a viagem começará a ganhar uma rede humana que acompanhará os professores ao longo do continente.

Vamos avançar para os capitulos mantendo os tres fios simultaneos: a estrada, os encontros humanos e a transformação inte3rior de Alvaro e Tomas.

Perfeito. A partir daqui, vamos deixar a estrutura mais orgânica: a estrada conduzirá os acontecimentos; os personagens locais provocarão as reflexões; e cada experiência alterará alguma coisa em Álvaro e Tomás.

Não quero que eles simplesmente “passem” pelos países. Quero que alguns encontros permaneçam com eles, por centenas ou milhares de quilômetros, reaparecendo em conversas, mensagens, lembranças e conflitos. Assim, a América Latina vai se tornando uma presença humana contínua.

Comecemos pela Cidade do México.

DUAS RODAS, UM CONTINENTE
PARTE I — O CONTINENTE COMEÇA NA ESTRADA

CAPÍTULO 5

A cidade que não termina

A estrada começou a mudar antes que Álvaro e Tomás percebessem.

Durante horas, haviam atravessado uma paisagem que parecia não terminar. A motocicleta avançava e o México se revelava em camadas: pequenos povoados, postos de gasolina, caminhões carregados, vendedores à margem da estrada, casas isoladas, igrejas, terrenos secos, campos cultivados e, de tempos em tempos, um aglomerado de construções que crescia como se alguém tivesse simplesmente derramado uma cidade sobre a terra.

Tomás conduzia.

Álvaro vinha atrás.

Não gostava de viajar na garupa.

Gostava menos ainda de admitir isso.

— Está cansado? — perguntou Tomás, pelo intercomunicador.

— Não.

— Está mentindo.

— Como historiador, você deveria saber que não existe documento sobre isso.

Tomás riu.

— Você está ficando mais engraçado.

— É o ar mexicano.

A cidade apareceu primeiro como uma névoa.

Depois como um conjunto de edifícios.

Depois como trânsito.

E, finalmente, como uma massa humana que parecia não ter centro nem periferia.

A Cidade do México não se aproximava.

Ela os engolia.

Tomás reduziu a velocidade.

— Isso não é uma cidade.

Álvaro olhou para os lados.

— O que é?

— Não sei.

— Então chegamos.

A primeira coisa que os surpreendeu foi o ruído.

Não havia silêncio.

Mesmo quando paravam, alguma coisa continuava acontecendo.

Motores.

Buzinas.

Vendedores.

Música.

Gente conversando.

Crianças.

Cães.

Sirenes.

Um homem anunciava alguma coisa por um alto-falante.

Uma mulher vendia comida.

Um adolescente atravessava a rua olhando para o celular.

Um velho permanecia sentado diante de uma porta.

Tudo coexistia.

A cidade parecia não organizar seus habitantes.

Apenas colocá-los juntos.

Eles haviam reservado um pequeno hotel no centro histórico.

Quando chegaram, Tomás estacionou a Harley e ficou alguns segundos olhando para ela.

— Ainda está inteira.

Álvaro desmontou.

— Nós também.

— Fale por você.

Álvaro sorriu.

O proprietário do hotel era um homem magro chamado Ramón.

Tinha cerca de sessenta anos e uma maneira tranquila de falar, como se jamais tivesse necessidade de terminar uma frase depressa.

Ao ver a motocicleta, perguntou:

— Vieram de onde?

— Brasil.

Ramón olhou para a Harley.

Depois para eles.

— De motocicleta?

— Sim.

Ele balançou a cabeça.

— Vocês realmente não conhecem o tamanho do continente.

Tomás gostou da frase.

— É exatamente isso que estamos tentando descobrir.

Ramón entregou a chave.

— Então não tenham pressa.

Foi o primeiro conselho que receberam na Cidade do México.

Não o seguiram.

Ainda não.


Na manhã seguinte, saíram cedo.

Tomás queria visitar o Zócalo.

Álvaro queria caminhar.

Fizeram os dois.

A cidade histórica parecia existir sobre outras cidades.

Templos.

Catedrais.

Palácios.

Prédios coloniais.

Restos arqueológicos.

Comércio.

Turismo.

Polícia.

Vendedores.

Turistas.

Moradores.

A História estava em toda parte.

Tomás estava feliz.

Álvaro percebeu.

— Você está em casa.

— Como assim?

— Você fica assim quando encontra ruínas.

— Eu não fico assim.

— Fica.

Tomás parou diante de uma construção antiga.

— Você sabe qual é o problema da Filosofia?

Álvaro continuou andando.

— Qual?

— Ela gosta demais de perguntas.

— E a História?

— Gosta demais de respostas.

Álvaro olhou para ele.

— Essa foi boa.

— Anote.

— Não.

— Por quê?

— Porque vou esquecer.

Tomás sorriu.

— Então talvez seja Filosofia.

Eles continuaram.


Foi perto de uma pequena livraria que conheceram Lucía.

Ela estava sentada atrás do balcão, lendo.

Tinha vinte e quatro anos.

Cabelos escuros presos de maneira descuidada.

Óculos.

Uma camiseta preta.

E a expressão de alguém que havia aprendido cedo a não desperdiçar tempo com pessoas que falavam demais.

Tomás entrou primeiro.

Perguntou por um livro sobre História mexicana.

Lucía levantou os olhos.

— Qual?

— Um que não seja muito acadêmico.

— Isso elimina metade da seção.

Álvaro, atrás dele, riu.

Tomás olhou.

— Você não precisa ajudar.

Lucía observou os dois.

— Vocês são professores?

Tomás perguntou:

— Como sabe?

— Pelo jeito como estão procurando um livro.

Álvaro aproximou-se.

— E como professores procuram livros?

— Como se ainda esperassem que eles resolvessem alguma coisa.

Tomás olhou para Álvaro.

Álvaro olhou para Tomás.

Lucía voltou ao livro.

— Vocês querem história política ou história social?

Tomás respondeu:

— Social.

— Então não procurem apenas na História.

— Onde procuraríamos?

— No mercado.

Tomás ficou intrigado.

— Mercado?

Lucía fechou o livro.

— Se querem saber como um país vive, não olhem apenas para seus presidentes.

Foi assim que começaram a conhecê-la.


Lucía era estudante de História.

Trabalhava na livraria para pagar parte da universidade.

Sua mãe vendia comida em um pequeno mercado.

O pai era motorista.

Tinha dois irmãos mais novos.

Falava de tudo com uma segurança que irritava Tomás e encantava Álvaro.

Ela não tinha medo de contradizê-los.

E isso, para dois professores acostumados a serem ouvidos, era uma experiência saudável.

No terceiro dia, Lucía perguntou:

— O que vocês realmente estão fazendo aqui?

Tomás respondeu:

— Uma viagem.

— Isso eu sei.

— Conhecendo a América Latina.

Lucía riu.

— Isso também é uma frase de professor.

Álvaro perguntou:

— E qual seria a frase correta?

Ela pensou.

— Vocês vieram procurar uma América Latina que já imaginam existir.

Tomás cruzou os braços.

— E você acha que não existe?

— Existe.

— Então?

— Existem várias.

Álvaro sorriu.

— Agora gostei.

Lucía olhou para ele.

— O senhor é o filósofo?

— Sou.

— Então deve gostar de problemas.

— Mais do que deveria.

— Então venha comigo.


Ela os levou ao mercado.

Não a um mercado turístico.

A outro.

Mais barulhento.

Mais apertado.

Mais verdadeiro.

Havia frutas.

Carnes.

Peixes.

Temperos.

Comida pronta.

Artesanato.

Roupa.

Celulares.

Objetos usados.

Flores.

Velas.

Pequenos restaurantes.

Gente comprando.

Gente vendendo.

Gente simplesmente passando.

Lucía caminhava cumprimentando pessoas.

A mãe estava atrás de um balcão.

Chamava-se Elena.

Era uma mulher de pouco mais de cinquenta anos, baixa, forte, de mãos largas.

Lucía apresentou os dois.

— Professores brasileiros.

Elena olhou para Álvaro.

— O que ensina?

— Filosofia.

Ela olhou para Tomás.

— E você?

— História.

Elena ficou séria.

— Então vocês devem saber explicar por que nós ainda estamos aqui.

Tomás não entendeu.

— Como?

Ela continuou trabalhando.

— Depois de tanta História.

Álvaro percebeu a armadilha.

— E a senhora acha que alguém sabe?

Elena finalmente olhou para ele.

— Não.

E sorriu.

Foi a primeira conversa.

Depois vieram outras.

Elena falava enquanto trabalhava.

Sobre o marido.

Sobre os filhos.

Sobre preços.

Sobre política.

Sobre a dificuldade de pagar aluguel.

Sobre a universidade de Lucía.

Sobre a filha querer estudar História.

— Para quê? — perguntou Tomás.

Lucía respondeu:

— Para ser professora.

Elena levantou os olhos.

— Para não depender de ninguém.

Lucía protestou:

— Mãe!

— É verdade.

— Eu quero estudar porque gosto.

Elena sorriu.

— Isso também.

Álvaro observava.

Havia ali uma disputa que nenhuma teoria sociológica explicaria completamente.

Uma mãe queria segurança para a filha.

A filha queria liberdade.

As duas usavam palavras diferentes para dizer quase a mesma coisa.


Naquela tarde, Lucía levou-os a um bairro periférico.

A paisagem mudava aos poucos.

O centro desaparecia.

Os edifícios ficavam mais baixos.

As ruas mais estreitas.

As casas mais simples.

O transporte mais cheio.

O comércio mais improvisado.

Álvaro observava pela janela do táxi.

— É aqui que o país aparece.

Tomás respondeu:

— O país também estava no centro.

— Sim.

— Então?

Álvaro pensou.

— Aqui ele aparece sem maquiagem.

Lucía ouviu.

— Não diga isso.

— Por quê?

— Porque isso transforma pobreza em autenticidade.

Álvaro ficou em silêncio.

Ela continuou:

— Vocês, intelectuais, gostam de encontrar verdade nos lugares pobres.

Tomás olhou para ela.

Lucía estava séria.

— Às vezes o pobre só quer deixar de ser pobre.

A frase atingiu os dois.

Tomás olhou pela janela.

Uma menina caminhava com a mãe.

Um homem carregava caixas.

Dois adolescentes jogavam futebol.

Uma mulher estendia roupas na janela.

Um cachorro dormia na calçada.

Nada ali era uma tese.

Era uma vida.

Lucía prosseguiu:

— Não romantizem.

Álvaro perguntou:

— Você acha que fazemos isso?

— Ainda não.

— Ainda?

— Vocês estão começando.


Naquela noite, Tomás não conseguiu dormir.

Ficou sentado na janela do quarto.

A cidade continuava acesa.

Álvaro dormia.

Ou fingia dormir.

— Você está acordado — disse Tomás.

— Estou.

— Lucía me irritou.

— Por quê?

— Porque ela tem razão.

Álvaro abriu os olhos.

— Essa é uma boa razão para irritação.

Tomás permaneceu olhando a cidade.

— Passei a vida falando sobre desigualdade.

— Eu sei.

— Li Marx.

— Eu sei.

— Weber.

— Sei.

— Bourdieu.

— Tomás.

— O quê?

— Você está fazendo uma lista?

Tomás sorriu.

— Talvez.

Depois ficou sério.

— Mas eu nunca ouvi uma mulher dizer que não queria que eu romantizasse a pobreza.

Álvaro levantou-se.

Sentou ao lado dele.

— Talvez essa seja a diferença entre estudar uma realidade e estar diante dela.

Tomás ficou calado.

— E você? — perguntou.

— Eu?

— O que Lucía fez com você?

Álvaro olhou para a cidade.

— Ela me lembrou que até minhas boas intenções podem ser uma forma de arrogância.

Tomás virou-se.

— Isso é grave.

— Muito.

Ficaram em silêncio.

Lá embaixo, alguém tocava música.

Um carro passou.

Uma sirene.

Depois outra.

A cidade parecia respirar.

Tomás perguntou:

— Você ainda acredita que a Filosofia serve para alguma coisa?

Álvaro demorou.

— Não sei.

— Isso é preocupante.

— Talvez seja necessário.


No dia seguinte, Lucía apareceu na porta do hotel.

Trazia um saco de papel.

— Café.

Tomás abriu.

— Para nós?

— Não. Para a Harley.

Ele riu.

— Está ficando engraçada.

— Não. Estou ficando mexicana.

Ela entregou o saco.

Depois ficou olhando para a motocicleta.

— Posso fazer uma pergunta?

— Claro.

— Por que vocês escolheram uma Harley?

Tomás respondeu:

— Porque é resistente.

Lucía olhou para Álvaro.

— Isso é mentira.

Álvaro riu.

— Por quê?

— Porque vocês queriam uma motocicleta que parecesse importante.

Tomás fingiu indignação.

— Isso é preconceito.

— É observação.

Álvaro aproximou-se.

— Você está dizendo que a motocicleta é uma espécie de símbolo de masculinidade?

Lucía pensou.

— Estou dizendo que homens gostam de transformar máquinas em extensões de si mesmos.

Tomás olhou para Álvaro.

— Ela é perigosa.

Álvaro concordou.

— Muito.

Lucía sorriu.

— Vão para onde agora?

Tomás abriu o mapa.

— Oaxaca.

Lucía olhou.

— Não passem rápido.

— Por quê?

— Porque vocês ainda estão viajando como turistas.

Álvaro perguntou:

— E como devemos viajar?

Ela respondeu:

— Como quem não sabe.

Tomás fechou o mapa.

A frase ficou entre os três.

Como quem não sabe.

Era talvez a instrução mais difícil que dois professores poderiam receber.

CAPÍTULO 6
A estrada é uma professora

Saíram da Cidade do México no começo da manhã.

Lucía foi vê-los partir.

Elena também.

Ramón, o dono do hotel, apareceu por último.

— Vocês voltam?

Tomás respondeu:

— Talvez.

Ramón apontou para a motocicleta.

— Então não deixem isso virar uma viagem de passagem.

Álvaro perguntou:

— Como?

Ramón deu de ombros.

— Fiquem onde alguma coisa incomodar vocês.

Tomás guardou a frase.

Lucía abraçou Álvaro.

Depois Tomás.

— Não escrevam sobre nós como se soubessem tudo.

Tomás respondeu:

— Não prometo.

Ela o encarou.

— Então escreva sobre o que não entendeu.

Tomás ficou sério.

— Prometo.

A motocicleta partiu.

Lucía ficou na calçada.

Álvaro olhou para trás.

Ela parecia pequena.

Depois desapareceu.

A cidade voltou a crescer diante deles.


A estrada para Oaxaca ofereceu outro México.

Montanhas.

Curvas.

Pequenos povoados.

Plantações.

Postos.

Caminhões.

Animais.

Igrejas.

Crianças nas portas.

Mulheres vendendo alimentos.

Homens parados nas sombras.

A motocicleta avançava.

Tomás gostava daquela sensação.

Álvaro começava a gostar também.

A estrada tinha uma propriedade que nenhum livro possuía.

Ela obrigava o corpo a participar do conhecimento.

O calor não era uma informação.

Era calor.

O frio não era uma estatística.

Era frio.

A altitude não era uma nota de rodapé.

Era falta de ar.

A distância não era medida em quilômetros.

Era cansaço.

A História, pensou Tomás, talvez fosse parecida.

Durante muito tempo acreditara que estudar o passado era acumular informações.

Agora começava a perceber que talvez fosse necessário recuperar a experiência humana escondida dentro delas.

Pararam em um pequeno posto.

Um homem aproximou-se.

Chamava-se Miguel.

Tinha quarenta e poucos anos.

Trabalhava ali.

Observou a Harley.

— É brasileira?

— A motocicleta não — respondeu Tomás. — Nós somos.

Miguel riu.

— Então a motocicleta é mais americana que vocês.

Álvaro gostou.

Conversaram.

Miguel havia trabalhado durante alguns anos nos Estados Unidos.

Voltara.

Tomás perguntou:

— Por quê?

— Minha mãe ficou doente.

— E agora?

— Agora estou aqui.

— Não pensa em voltar?

Miguel olhou para a estrada.

— Todo mundo pensa em ir embora.

Pausa.

— Mas ninguém sabe exatamente para onde.

Álvaro perguntou:

— O que você ganhou trabalhando fora?

Miguel respondeu:

— Dinheiro.

— E o que perdeu?

O homem olhou para os dois.

— Tempo.

Tomás não anotou.

Dessa vez, foi Álvaro quem o impediu.

— Não.

— O quê?

— Deixe essa frase onde está.

Tomás entendeu.

Algumas frases não deveriam ser transformadas imediatamente em literatura.

Precisavam primeiro permanecer humanas.


Na estrada, depois de algumas horas, Tomás perguntou:

— Você está mudando?

Álvaro respondeu:

— Todo mundo está mudando.

— Não faça Filosofia comigo.

— Você começou.

— Estou falando sério.

Álvaro demorou.

— Talvez.

— Em quê?

— Estou ficando menos interessado em explicar as pessoas.

Tomás diminuiu a velocidade.

— E isso é bom?

— Não sei.

— Você está ficando muito parecido comigo.

— Isso seria uma tragédia.

Tomás riu.

Depois perguntou:

— E eu?

— Você está ficando mais interessado em ouvi-las.

Tomás não respondeu.

Era verdade.

A estrada continuou.


À tarde, pararam perto de uma pequena aldeia.

Uma menina observava a motocicleta.

Tinha talvez oito anos.

Olhou para Álvaro.

Depois para Tomás.

Depois para a Harley.

— É de vocês?

— É.

Ela apontou para o tanque.

— Quanto custa?

Tomás riu.

— Muito.

A menina pensou.

— Então deve ser boa.

Álvaro perguntou:

— O que você compraria com esse dinheiro?

Ela respondeu imediatamente:

— Uma casa.

Álvaro ficou sem resposta.

A menina continuou olhando para a motocicleta.

Depois correu para dentro de casa.

Tomás colocou o capacete.

— Vamos.

Álvaro permaneceu parado.

— O que foi?

— Nada.

— Álvaro.

Ele olhou para a casa.

— A gente atravessa um continente inteiro para descobrir que ainda não sabe o que fazer com uma criança que prefere uma casa a uma motocicleta.

Tomás não respondeu.

Ligou o motor.

A Harley despertou.

Dessa vez, o som pareceu diferente.

Não era mais apenas o som de uma máquina.

Era o som de duas pessoas, tentando descobrir por que haviam colocado tanta coisa sobre duas rodas.

E a estrada continuou.

A partir daqui, o romance pode ganhar um ritmo cada vez mais profundo. Oaxaca será o primeiro grande ponto de inflexão, porque ali introduziremos a questão indígena, a memória pré-colonial e a tensão entre tradição e modernização através de uma personagem local que poderá reaparecer mais tarde.

Depois, a narrativa seguirá para Guatemala e El Salvador, onde o tema da migração e da memória da violência política, começará a atingir diretamente Tomás, fazendo emergir o passado do pai. Paralelamente, Álvaro começará a perceber que sua crise, não é apenas intelectual: ele está tentando descobrir o que fazer, com a própria velhice, com a doença da mãe e com o medo da finitude.

Assim, a cada novo país, a viagem exterior avançará e, simultaneamente, a viagem interior dos dois, se tornará mais difícil de evitar.

Mario Moura

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