DOIS VELHOS E SETE GATOS...
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DOIS VELHOS E SETE GATOS
Estava tudo em ordem na casa de Olavo e Joana, um casal com 70 e 65 anos. A convivência dos cinco gatos, era pacífica. Dividiam o espaço com tranquilidade, sem conflitos. Quem eram eles?
Zé Maria e Francisco Junior, os mais velhos do grupo. Já adultos, respeitavam-se, desde que cada um ficasse em seu território. Pipa era uma fêmea nova, amorosa, com seus grandes olhos azuis, não tomava partido. Vivia sua vida de gata, exigindo respeito e distância, permitindo maior intimidade com Butuca, um macho cinza, quase da mesma idade dela, e que desde cedo, encontraram um estranha afinidade. Onde estava um, lá estava o outro.
Eva era uma gata individualista, não apreciava o convívio coletivo, preferindo sempre estar à parte do grupo, Uma natureza antisocial. Era uma gata persa, vinda de um gatil, presente de uma filha. Acredito que essa origem nobre, dava-lhe o direito de ser soberana, exibindo um comportamento distinto dos demais da curriola, que viviam de correrias e patranhas. Mas o grupo era unido, sem maiores atritos.
Tudo mudou, com a chegada de dois irmãos siameses, João e Maria, filhotes que foram abandonados à própria sorte, e recolhidos por mão caridosa, diria mesmo "maõs franciscanas"... Eles chegaram por essas mãos caridosas à nossa casa. Foram acolhidos com amor.
Não imaginávamos a "ciumeira" e os transtornos que causariam na sociedade já estabelecida e organizada. Uma confraria fechada, em que não seria permitida a entrada de mais nenhum membro!
João e Maria ocuparam seus lugares, com a doação de uma amorosidade doce e cativante, o que lhes deu o lugar que escolheram e conquistaram com amor gratuito.
Estava armado o forrobodó!! Uma verdadeira revolução!!
Com essa narrativa resumida, escreva um conto explorando a recusa bélica inicial e a conquista lenta e gradual, estrategicamente praticada por João e Maria. Dividiam pacificamente a água, a comida, dando primazia aos mais antigos da casa, em sinal de respeito. Ganharam a confiança da confraria, e até passaram a liderar peraltices de gato!
Agora eram dois velhos e sete gatos...
Mario Moura
Antes de tudo, é preciso dizer que esta história não é propriamente sobre gatos. Ou melhor: é sobre gatos, mas também sobre aquilo que eles, sem saber, ensinam aos humanos. Porque toda casa habitada por muitos gatos é, no fundo, uma pequena sociedade, com suas leis invisíveis, seus territórios, suas alianças e suas delicadas negociações de poder.
Os moradores daquela casa eram dois velhos felizes: Olavo e Joana. Depois de tantos anos de casamento, haviam descoberto que a paz doméstica não dependia apenas do amor entre duas pessoas, mas também da capacidade de administrar sete vontades felinas, cada qual convencida de que o universo existia para servi-la.
Quando esta história começou, porém, eram apenas cinco.
Zé Maria era o patriarca. Persa alaranjado, caminhava lentamente pelos corredores como um filósofo aposentado, daqueles que já não precisavam provar nada a ninguém. Francisco Junior era igualmente veterano, mas preferia a discrição. Mantinha uma respeitosa distância do velho companheiro, como dois vizinhos que se cumprimentam todos os dias, sem jamais invadirem o jardim um do outro.
Pipa era dona de dois enormes olhos azuis e de uma delicadeza, que parecia incompatível com o mundo. Nunca brigava. Apenas observava.
Butuca, cinza como uma manhã de inverno, havia encontrado em Pipa uma amizade impossível de explicar. Não era namoro. Não era dependência. Era simplesmente a convicção de que a vida fazia mais sentido, quando um estava perto do outro.
Eva era outra história.
Persa de linhagem nobre, criada em gatil, presente de uma filha do casal, parecia carregar consigo, uma antiga memória aristocrática. Caminhava como quem concedia ao chão, o privilégio de ser pisado por suas patas. Participava pouco da vida coletiva. Preferia contemplar os demais, como uma rainha observa seus súditos, brincando no pátio do castelo.
Apesar das diferenças, havia paz.
Uma paz construída ao longo dos anos.
Cada um conhecia seus horários, seus lugares ao sol, sua tigela favorita, sua cadeira preferida.
Era uma pequena república felina perfeitamente organizada.
Foi então que apareceram João e Maria.
Vieram do abandono.
Pequenos siameses, irmãos inseparáveis, haviam sido encontrados quase sem esperança de sobreviver. Magros, assustados e famintos, chegaram à casa pelas mãos de alguém, cuja compaixão lembrava aqueles antigos franciscanos, que viam irmãos em todas as criaturas.
Olavo e Joana olharam para os dois filhotes.
Não houve discussão. A decisão foi tomada, antes mesmo que qualquer palavra fosse pronunciada.
Ficariam.
Quem conhece gatos, sabe que a notícia foi recebida com entusiasmo apenas pelos humanos.
Naquela mesma tarde, os cinco moradores antigos convocaram, silenciosamente, aquilo que poderia ser chamado de Conselho Supremo da Confraria Felina.
As regras eram claras:
— Não aceitamos novos membros.
Os olhares falavam mais que qualquer miado.
Zé Maria observava de longe.
Francisco Junior fingia indiferença.
Eva simplesmente retirou-se, como quem considera indigno participar de assuntos menores.
Pipa e Butuca acompanhavam tudo com cautela.
João e Maria perceberam imediatamente que haviam entrado num território ocupado.
Poderiam responder como muitos gatos fazem: disputar espaço, desafiar os antigos moradores, transformar cada refeição numa batalha.
Mas não. Talvez porque conhecessem o abandono. Talvez porque a fome ensine mais diplomacia do que qualquer escola. Ou talvez porque o amor, às vezes, seja uma forma silenciosa de inteligência.
Escolheram outra estratégia.
Quando chegava a hora da comida, esperavam. Os mais velhos comiam primeiro.
Na tigela da água, jamais empurravam ninguém.
.........................................
O velho Zé Maria aproximava-se da tigela, João e Maria recuavam um passo. Não havia medo naquele gesto. Havia deferência. Era como se dissessem, à sua maneira:
— A casa é sua. Nós apenas pedimos licença para morar nela.
Ninguém ensinara aquilo aos dois pequenos.
Aprenderam na escola mais severa que existe: a da necessidade.
Os dias foram passando, e a resistência da velha confraria começou a encontrar pequenas rachaduras. A primeira ocorreu numa manhã ensolarada.
Butuca perseguia uma bolinha de papel pelo corredor quando João, esquecendo toda a prudência diplomática, entrou na brincadeira. Maria veio logo atrás. A bolinha mudou de direção, passou entre as pernas de Olavo, desapareceu debaixo do sofá, reapareceu na cozinha e terminou no quintal.
Pela primeira vez ouviu-se algo parecido com uma gargalhada felina.
Butuca havia aceitado brincar.
Pipa, observando tudo de longe, limitou-se a mover lentamente a cauda. Nos gatos, esse pequeno movimento equivale, muitas vezes, a um sorriso.
Naquela noite, os dois irmãos já podiam dormir um pouco mais próximos, dos antigos moradores.
Ainda havia distância. Mas já não havia hostilidade.
Eva permanecia irredutível.
Sentada sobre a poltrona favorita de Joana, acompanhava a movimentação dos recém-chegados, com a superioridade de uma duquesa inglesa, observando dois plebeus, tentando aprender as regras do chá da tarde.
Jamais os agrediu. Mas também jamais lhes concedeu um gesto de simpatia.
Maria resolveu iniciar uma campanha silenciosa.
Nunca invadia o espaço da aristocrata. Apenas deitava-se a uma distância respeitosa.
Fingia dormir.
No dia seguinte, fazia o mesmo.
Depois, aproximava-se alguns centímetros.
Dias depois, outros tantos.
Até que aconteceu o impensável.
Numa tarde chuvosa, Eva cochilava profundamente quando Maria acomodou-se perto dela.
Muito perto.
Olavo e Joana prenderam a respiração. Esperavam um rosnado. Uma patada. Qualquer manifestação da velha soberana.
Nada a conteceu.
Eva apenas abriu um dos olhos, avaliou a situação durante alguns segundos, e voltou a dormir.
Foi um tratado de paz assinado sem testemunhas.
Olavo comentou baixinho:
— Acho que fomos dispensados da mediação diplomática.
Joana sorriu.
— Eles estão resolvendo isso melhor do que muita gente.
A maior transformação, porém, ocorreu com Zé Maria.
O velho persa parecia carregar a serenidade de quem conhecia os segredos do tempo.
Numa tarde de inverno, escolheu o tapete da sala para seu longo cochilo habitual.
João aproximou-se devagar. Muito devagar. Deitou-se a poucos centímetros.
Esperou.
Zé Maria abriu os olhos. Olhou para o pequeno siamês. Ergueu lentamente uma das patas dianteiras, e pousou-a sobre o dorso do filhote.
Não era uma repreensão. Era uma bênção.
Naquele instante, sem qualquer cerimônia, o patriarca reconhecia o novo integrante da confraria.
A notícia espalhou-se pela casa sem um único miado.
Os gatos possuem uma misteriosa capacidade de compreender aquilo que jamais é dito.
Depois daquele dia, João e Maria deixaram de ser visitantes.
Tornaram-se família.
E, curiosamente, foram justamente os menores que devolveram à casa uma juventude inesperada.
Inventavam perseguições invisíveis. Transformavam folhas secas em grandes presas. Faziam emboscadas atrás das cortinas. Corriam pelos corredores, como se estivessem salvando o mundo de perigos imaginários.
No início, apenas Butuca participava das aventuras.
Depois Pipa.
Mais tarde, até Francisco Junior abandonou sua conhecida discrição, para envolver-se em perseguições, sem qualquer objetivo aparente.
Certa manhã, Olavo entrou na sala e encontrou uma cena memorável.
Sete gatos corriam em fila indiana, atrás de uma simples tampinha de garrafa.
Na frente da expedição estavam justamente João e Maria.
Atrás deles vinham Butuca, Pipa, Francisco Junior e, surpreendentemente, até Eva, que fingia participar, apenas para fiscalizar a ordem dos acontecimentos.
Por último seguia Zé Maria.
Não corria. Os anos já não permitiam.
Mas caminhava lentamente, como um velho general acompanhando soldados, que já não precisavam de seus comandos.
Olavo olhou para Joana e comentou:
— Veja só... os pequenos acabaram organizando uma revolução.
Joana corrigiu:
— Não foi revolução.
Foi amizade.
E talvez estivesse certa. Porque as grandes mudanças raramente acontecem pela força. Acontecem pela constância dos pequenos gestos.
João e Maria jamais exigiram um lugar.
Nunca disputaram liderança.
Nunca tentaram substituir os antigos moradores.
Fizeram algo muito mais inteligente. Respeitaram a história daquela casa.
Esperaram o tempo trabalhar por eles.
Compreenderam, sem jamais terem estudado filosofia, que pertencimento não se conquista pela imposição, mas pela confiança.
Pouco a pouco, descobriram que toda família possui fronteiras invisíveis. Elas não são abertas por quem bate mais forte à porta, mas por quem espera, com delicadeza, que alguém a abra por dentro.
Desde então, quem visitava a casa de Olavo e Joana via apenas uma curiosa cena doméstica: sete gatos espalhados pelos sofás, pelas janelas, pelas cadeiras e pelos pés dos dois velhos.
Parecia que sempre haviam vivido juntos.
Ninguém imaginaria que, um dia, aqueles mesmos animais travaram silenciosas batalhas por território, comida e afeto.
O tempo havia apagado as cicatrizes, conservando apenas os vínculos.
E Olavo, já com a sabedoria que só a velhice concede, costumava dizer aos amigos:
— As pessoas acreditam que fomos nós que salvamos João e Maria do abandono. Estão enganadas. Eles também nos salvaram. Trouxeram de volta o riso, o movimento da casa e nos lembraram que o amor não diminui quando é dividido. Ao contrário: ele cresce, encontra novos lugares para morar e faz da vida uma casa maior.
Assim, sem discursos, sem tratados e sem heróis, aquela pequena república felina descobriu a mais antiga das verdades: há conquistas que pertencem aos fortes, mas as mais duradouras pertencem aos mansos.
E foi assim que a casa de Olavo e Joana passou a ser conhecida, pelo menos entre aqueles que tinham o privilégio de frequentá-la, como o reino dos dois velhos e sete gatos, onde a paz não nasceu da ausência de conflitos, mas da paciência, do respeito e da extraordinária capacidade que o amor possui de transformar estranhos em família.
Mario Moura (do livro Pequenas Histórias sem Testemunhas, Ensaios e Vagas Anotações)
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