A CARA DO BRASIL

O problema político da democracia brasileira, tem origem no seu processo histórico? Uma herança do Brasil colônial? Ou imperial? Ou de uma república golpista, improvisada? Ou seria apenas, uma questão do exercício político por uma "elite" incompetente, ou corrupta? Qual o lugar do Brasil, no ranking da corrupção política? O que simoliza sua definição como um país terceiromundista? O atraso? A corrupção? O subdesenvolvimento? Haveria uma solução para corrigir os desvios, que historicamente, sacrificam o desenvolvimento do país? Solução que redistribuisse a renda de modo mais justo?

Sim — e talvez a pergunta mais fecunda seja justamente esta: o problema político brasileiro é apenas uma questão de corrupção contemporânea ou existe uma continuidade histórica mais profunda, na qual corrupção, desigualdade, patrimonialismo, concentração de poder e fragilidade da cidadania se reforçam mutuamente?

A resposta historicamente mais defensável é: não se trata de uma única causa. O Brasil contemporâneo herdou estruturas sociais e políticas de longa duração, mas também construiu instituições democráticas importantes. Portanto, não seria correto dizer que o Brasil está condenado por seu passado. O passado ajuda a explicar o problema; não determina o futuro.

1. A origem é anterior à República

Eu evitaria procurar um único momento fundador — Colônia, Império ou República. Há uma espécie de acumulação histórica.

Durante a Colônia, formou-se uma sociedade marcada por concentração fundiária, escravidão, enorme desigualdade social e poder privado exercido sobre populações com poucos direitos. O Estado colonial não se constituiu primordialmente como instrumento de universalização da cidadania.

O Império modificou profundamente a estrutura institucional, mas conservou elementos fundamentais daquela ordem social. A independência não significou uma democratização social profunda. A escravidão continuou até 1888, e a propriedade e o poder político permaneceram fortemente concentrados.

Esse é um ponto crucial: o Brasil construiu um Estado antes de construir uma cidadania social ampla.

Essa inversão ajuda a compreender muito da nossa história posterior.

2. A República nasceu sem uma revolução democrática

A proclamação da República em 1889 tampouco foi uma grande ruptura popular.

O novo regime nasceu de uma articulação militar e política e, durante a Primeira República, foi fortemente marcado por oligarquias estaduais, coronelismo, voto controlado e relações de dependência.

Portanto, há uma ironia histórica:

o Brasil mudou várias vezes de regime sem mudar proporcionalmente a estrutura social que sustentava o poder.

Monarquia → República.
República oligárquica → Era Vargas.
Democracia → Estado Novo.
Estado Novo → democracia.
Democracia → ditadura militar.
Ditadura → Nova República.

A forma institucional mudou repetidamente; as relações entre poder econômico, poder político e desigualdade social demonstraram muito mais continuidade.

O golpe de 1964 é outro capítulo dessa tradição de ruptura institucional. O regime militar desmontou ou restringiu severamente instituições democráticas existentes e remodelou profundamente o sistema político.

3. Mas seria correto chamar o Brasil simplesmente de "país corrupto"?

Não.

Essa explicação é excessivamente simples.

Corrupção existe e é um problema importante. Mas existe uma diferença fundamental entre afirmar:

"O Brasil é corrupto"

e afirmar:

"O Brasil possui estruturas institucionais que permitem que práticas corruptas prosperem."

A segunda formulação é muito mais interessante.

O próprio índice da Transparency International mostra a dimensão do problema. No CPI 2025, o Brasil recebeu 35/100 pontos e ficou em 107º lugar entre 182 países. A escala vai de 0 — percepção de corrupção pública muito elevada — a 100 — percepção de setor público muito íntegro. O Brasil melhorou um ponto em relação a 2024, mas continua abaixo da média mundial, que caiu para 42.

Portanto, o Brasil apresenta um problema significativo de corrupção pública, mas não está entre os casos extremos do mundo. E o próprio índice mede percepções de corrupção no setor público, não uma medida absoluta de "quanto dinheiro é roubado".

Esse detalhe é importante.

4. O problema maior talvez seja o "patrimonialismo"

Aqui chegamos a uma questão mais profunda.

Uma das características historicamente recorrentes da política brasileira é a dificuldade de separar completamente:

interesse público
de
interesse privado.

Quando o Estado é percebido como extensão dos interesses de grupos, famílias, empresas, partidos, corporações ou redes pessoais, surge uma lógica patrimonialista.

Ela pode assumir diversas formas:

  • clientelismo;
  • nepotismo;
  • troca de favores;
  • fisiologismo;
  • utilização privada de recursos públicos;
  • captura regulatória;
  • financiamento político opaco;
  • privilégios corporativos;
  • loteamento de posições;
  • influência econômica sobre decisões públicas.

Nem tudo isso é necessariamente crime.

E essa distinção é fundamental.

A corrupção é apenas a forma ilegal de um problema mais amplo: a captura do Estado por interesses particulares.

Uma democracia pode ser formalmente correta e ainda assim funcionar de maneira profundamente desigual.


5. E aqui aparece o problema da desigualdade

Este talvez seja o ponto mais importante da sua pergunta.

Não é possível compreender plenamente a política brasileira sem compreender a desigualdade.

O Banco Mundial continua registrando níveis elevados de desigualdade no Brasil: o índice de Gini foi aproximadamente 50,3 em 2024, segundo os dados mais recentes disponíveis na série consultada.

E desigualdade não significa apenas que algumas pessoas possuem mais dinheiro que outras.

Significa também desigualdade de:

  • educação;
  • acesso à Justiça;
  • saúde;
  • segurança;
  • oportunidades econômicas;
  • capacidade de influência política;
  • representação institucional;
  • acesso à informação;
  • tempo disponível para participação política.

Consequentemente, podemos ter uma situação paradoxal:

todos possuem formalmente um voto, mas nem todos possuem a mesma capacidade de influenciar o funcionamento do Estado.

É aí que a democracia formal começa a se distanciar da democracia substantiva.


6. "Terceiro-mundismo" não explica mais o Brasil

Eu teria bastante cautela com a expressão "país de Terceiro Mundo".

Ela pertence a uma classificação geopolítica da Guerra Fria e tornou-se inadequada para explicar a complexidade brasileira.

O Brasil não é simplesmente um país "atrasado".

É uma sociedade simultaneamente:

moderna e arcaica;
rica e pobre;
industrializada e desigual;
tecnologicamente sofisticada e socialmente precária;
democrática e profundamente hierárquica.

O país possui universidades, sistema financeiro sofisticado, indústria, agronegócio altamente produtivo, centros científicos, tecnologia digital e instituições públicas complexas.

Mas também convive com pobreza, desigualdade, violência, precariedade educacional e exclusão.

O Banco Mundial observa, por exemplo, que uma criança brasileira alcançaria apenas cerca de 55% de seu potencial de produtividade se tivesse acesso pleno à saúde e educação de qualidade; quando se incorpora o efeito do desemprego adulto, a estimativa cai ainda mais.

Portanto, talvez a expressão mais adequada não seja "Terceiro Mundo".

É:

modernização sem democratização plena das oportunidades.


7. Existe uma contradição extraordinária no Brasil

O Brasil possui hoje instituições democráticas muito mais sólidas do que em diversos momentos de sua história.

A Freedom House classifica o país como "Free", com 73/100 em seu índice de liberdade de 2026. O relatório reconhece eleições competitivas e pluralismo político, embora também registre corrupção em níveis elevados, violência política e exclusão econômica.

Isso significa que devemos evitar uma interpretação catastrofista.

O Brasil não é uma ditadura disfarçada nem uma democracia inexistente.

É uma democracia real, mas uma democracia submetida a fortes tensões.

E isso é muito diferente.


8. O verdadeiro problema talvez seja o círculo vicioso

Podemos representar o fenômeno brasileiro assim:

desigualdade histórica

concentração de poder econômico

influência desproporcional sobre o Estado

instituições capturadas ou fragilizadas

corrupção, clientelismo e privilégios

baixa qualidade das políticas públicas

educação e oportunidades insuficientes

reprodução da desigualdade

nova concentração de poder

E o ciclo recomeça.

Nesse sentido, corrupção não é necessariamente a causa original.

Ela pode ser simultaneamente causa, consequência e mecanismo de reprodução da desigualdade.


9. Então quem é responsável?

Não seria intelectualmente correto responsabilizar apenas "a elite".

Mas também seria insuficiente responsabilizar simplesmente "os políticos".

Há uma estrutura muito mais complexa.

Participam dela:

  • elites econômicas;
  • elites políticas;
  • burocracias;
  • partidos;
  • grupos corporativos;
  • setores empresariais;
  • sistemas de financiamento;
  • grupos de pressão;
  • governos;
  • parlamentos;
  • instituições de controle;
  • e, em determinadas circunstâncias, segmentos da própria sociedade.

A política não funciona em um vácuo.

Políticos são produtos e agentes de uma determinada sociedade.

Por isso, combater a corrupção exclusivamente pela punição de indivíduos é necessário, mas insuficiente.

É preciso reduzir as condições que tornam determinados comportamentos politicamente rentáveis.


10. Qual seria então a verdadeira reforma?

Aqui eu faria uma distinção importante.

Não existe uma "solução brasileira" única.

Existe um programa de reconstrução institucional e social.

Ele teria pelo menos sete dimensões.

1. Educação pública de alta qualidade

Não apenas alfabetização.

Educação científica, histórica, filosófica, política e digital.

Uma democracia depende de cidadãos capazes de compreender o funcionamento do Estado e reconhecer manipulações.

2. Redução estrutural da desigualdade

Não simplesmente distribuir dinheiro.

É preciso aumentar a capacidade econômica das pessoas por meio de:

  • educação;
  • saúde;
  • qualificação profissional;
  • emprego produtivo;
  • infraestrutura;
  • tributação mais justa;
  • proteção social;
  • acesso ao patrimônio e ao crédito.

3. Reforma tributária com progressividade efetiva

A redistribuição não pode depender exclusivamente da transferência posterior de renda.

Uma sociedade mais justa começa pela própria estrutura tributária.

Quem possui maior capacidade econômica deve contribuir proporcionalmente mais, enquanto o peso relativo dos tributos sobre consumo e necessidades básicas deve ser cuidadosamente considerado.

4. Estado profissional e transparente

Quanto mais profissionalizado o Estado, menor o espaço para relações pessoais.

Precisamos de:

carreira pública + transparência + avaliação + controle + dados abertos + responsabilização.

5. Reforma da representação política

O problema não é apenas votar.

É criar mecanismos para que representantes sejam efetivamente responsabilizados perante a sociedade.

A democracia precisa funcionar também entre as eleições.

6. Combate à captura do Estado

Esse ponto é particularmente importante.

Não basta combater o pequeno corrupto.

É preciso investigar também:

quem influencia as decisões públicas, por quais mecanismos e em benefício de quem?

A captura institucional pode ser legal, ilegal ou estar numa zona intermediária.

7. Uma nova cultura política

Talvez seja a parte mais difícil.

A democracia precisa abandonar a ideia de que:

"política é negócio."

E recuperar a ideia de que:

política é administração do destino coletivo.


11. A redistribuição da renda é suficiente?

Não.

Mas é indispensável.

Uma sociedade pode distribuir renda sem democratizar o poder.

E pode democratizar instituições sem diminuir suficientemente a desigualdade econômica.

Precisamos das duas coisas.

Democratização política + democratização econômica.

Porque uma democracia na qual uma pequena parcela da população possui extraordinária concentração de riqueza sempre corre o risco de produzir uma concentração correspondente de influência.


12. A questão mais profunda

Há uma pergunta ainda mais radical escondida em tudo isso:

Pode existir democracia política verdadeira em uma sociedade profundamente desigual?

A resposta não pode ser simplesmente "não", porque existem democracias desiguais.

Mas podemos dizer algo mais preciso:

quanto maior a desigualdade de recursos, educação, oportunidades e poder, maior o risco de a igualdade política formal se transformar em desigualdade política real.

É aí que o problema brasileiro deixa de ser apenas corrupção.

Torna-se um problema de cidadania.


E talvez essa seja a tese central

Se transformássemos sua pergunta em uma tese para um ensaio ou livro, eu formularia assim:

O problema histórico da democracia brasileira não nasceu simplesmente da corrupção dos políticos. A corrupção é uma manifestação de uma estrutura mais antiga, construída pela concentração de propriedade, pela escravidão, pela desigualdade, pelo clientelismo e pela dificuldade histórica de separar o público do privado. A República democratizou progressivamente o voto, mas não democratizou na mesma velocidade o poder econômico, o acesso às oportunidades e a capacidade de participação social. O desafio brasileiro do século XXI é, portanto, transformar uma democracia predominantemente eleitoral em uma democracia substantiva: uma sociedade na qual liberdade política, igualdade de oportunidades, justiça social e instituições republicanas possam finalmente coexistir.

E isso abre um caminho particularmente interessante para um ensaio histórico-filosófico sobre o Brasil, porque permitiria percorrer Colônia → Império → República Velha → Vargas → 1946 → 1964 → redemocratização → Constituição de 1988 → crise contemporânea, mostrando que o problema não é simplesmente "o brasileiro é corrupto", mas como uma sociedade historicamente desigual constrói suas instituições políticas — e como essas instituições, por sua vez, podem perpetuar ou romper a desigualdade.

Esse seria, a meu ver, um livro muito mais interessante do que um simples diagnóstico da corrupção: uma história da democracia brasileira como promessa permanentemente interrompida — e das condições necessárias para finalmente realizá-la.

Sim. Este é talvez o arco mais importante antes da crise contemporânea, porque nele ocorre uma transformação histórica: a inclusão deixa de ser apenas uma promessa constitucional e passa a ser experimentada por milhões de brasileiros na vida cotidiana. Ao mesmo tempo, essa inclusão não elimina as estruturas profundas de desigualdade — e produz novas expectativas, novos conflitos e novas formas de polarização.

Há uma cautela importante: não convém narrar 2003–2016 como uma simples ascensão e queda do PT. O período deve ser tratado como uma experiência contraditória da democracia brasileira: redução da pobreza e da desigualdade, expansão do consumo e do emprego, políticas sociais de grande alcance, mas também escândalos de corrupção, presidencialismo de coalizão, conflitos institucionais, dependência de um ciclo internacional favorável, deterioração econômica, crise de representação e, finalmente, o impeachment de Dilma Rousseff. O Banco Mundial registrou forte redução de pobreza e desigualdade entre 2003 e 2013, enquanto o IBGE documenta a profundidade da recessão de 2015–2016.

A seguir, o próximo arco do manuscrito.

PARTE VII — O BRASIL QUE DESCOBRIU O CONSUMO E PERDEU A ILUSÃO DA CONCILIAÇÃO

2003–2016

A democracia diante da promessa de inclusão


CAPÍTULO 98

2003

O operário entra no Palácio

Brasília.

1º de janeiro de 2003.

A cidade construída para representar o futuro recebe um homem que, poucas décadas antes, trabalhava numa fábrica.

Luiz Inácio Lula da Silva sobe a rampa do Palácio do Planalto.

A cena é documental.

A multidão.

As bandeiras.

Os fotógrafos.

O terno.

A faixa presidencial.

O homem que chega ao poder não possui a aparência tradicional da República brasileira.

Não vem de uma família de proprietários rurais.

Não é militar.

Não é bacharel formado na tradição das elites políticas.

Não é herdeiro de uma longa carreira parlamentar.

É um operário.

Um sindicalista.

Um migrante nordestino.

Um homem que perdeu um dedo numa fábrica.

Um homem que aprendeu política nas greves do ABC.

Um homem que havia tentado chegar à Presidência três vezes e fracassado.

Agora chega.

E, por um instante, a história parece realizar uma espécie de correção.

Não porque a eleição de Lula resolva a desigualdade brasileira.

Mas porque ela modifica quem pode imaginar-se pertencendo ao centro do poder.

O gesto é simbólico.

Durante séculos, a política brasileira havia sido predominantemente feita de cima para baixo.

Agora, alguém vindo de baixo chega ao topo.

A pergunta não é mais se isso poderia acontecer.

Aconteceu.

A pergunta é:

o que esse homem fará com o Estado que recebeu?


CAPÍTULO 99

A CARTA AO POVO BRASILEIRO

O operário aprende a tranquilizar o mercado

A vitória de Lula não significava uma revolução.

Essa é uma das primeiras coisas que o novo governo precisou demonstrar.

A economia ainda carregava o medo de uma ruptura.

O real era jovem.

A estabilidade monetária era uma conquista recente.

O mercado financeiro observava.

Os empresários observavam.

Os bancos observavam.

A classe média observava.

E o novo governo precisava dizer que não destruiria as bases da estabilidade.

A “Carta ao Povo Brasileiro”, lançada durante a campanha de 2002, tornou-se símbolo dessa transformação.

Lula chegava ao poder carregando uma história de crítica ao modelo econômico dominante.

Mas chegava também sabendo que governar significava lidar com a economia existente.

A cena é reconstrução literária.

Um homem que passou a vida denunciando desigualdades agora precisa assinar decisões que envolvem juros, inflação, dívida pública, orçamento e confiança.

É uma espécie de ironia da História.

O poder não elimina as circunstâncias.

O poder obriga a negociá-las.


CAPÍTULO 100

O PRIMEIRO TESTE

A estabilidade antes da redistribuição

O governo Lula preservou pilares da política macroeconômica herdada do governo Fernando Henrique Cardoso.

Meta de inflação.

Responsabilidade fiscal.

Câmbio flutuante.

Autonomia operacional do Banco Central.

A escolha provocou críticas dentro da própria esquerda.

Alguns haviam esperado ruptura.

Ela não veio.

O governo preferiu uma estratégia mais gradual.

Primeiro, garantir estabilidade.

Depois, ampliar políticas sociais.

A decisão contém uma das grandes tensões da democracia:

quanto é possível redistribuir sem destruir a estabilidade que torna a redistribuição sustentável?

O problema não é simples.

Um Estado pode gastar mais.

Mas precisa financiar.

Pode distribuir renda.

Mas precisa produzir riqueza.

Pode ampliar crédito.

Mas precisa evitar endividamento excessivo.

Pode estimular o consumo.

Mas precisa investir.

A política econômica torna-se, portanto, um território em que as cinco forças se encontram.

Riqueza produzida.

Trabalho remunerado.

Poder estatal.

Cidadania social.

E, ao fundo, a velha questão:

quem fica com o quê?


CAPÍTULO 101

BOLSA FAMÍLIA

O dinheiro que chegou à casa

O Bolsa Família não surgiu do nada.

Ele reuniu e ampliou políticas de transferência de renda anteriores, integrando programas como Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Auxílio Gás e Cartão Alimentação.

Mas a partir de 2003–2004 adquiriu escala nacional e se transformou numa das marcas da política social brasileira.

O Banco Mundial registrou que, entre 2003 e 2009, cerca de 20 milhões de pessoas haviam sido retiradas da pobreza, em um processo para o qual contribuíram o Bolsa Família, outros programas sociais e o crescimento econômico.

A cena é reconstrução.

Uma mulher recebe o benefício.

Talvez não seja muito.

Não muda a casa.

Não compra uma vida nova.

Mas compra arroz.

Feijão.

Material escolar.

Roupa.

Um botijão.

Um remédio.

Pequenas coisas que, acumuladas, mudam a relação de uma família com o futuro.

A transferência não é apenas dinheiro.

É previsibilidade.

E previsibilidade é uma forma de dignidade.

Durante muito tempo, a pobreza brasileira havia sido tratada como destino.

Agora o Estado dizia:

você tem direito a uma proteção mínima.

É uma mudança filosófica.

A pobreza deixa de ser apenas problema privado.

Passa a ser responsabilidade pública.


CAPÍTULO 102

A MULHER

O Estado chega à cozinha

A história econômica costuma falar de PIB.

Inflação.

Juros.

Emprego.

Exportações.

Mas há uma economia que aparece pouco nos gráficos:

a economia da casa.

A mulher que administra o dinheiro.

A mãe que calcula a comida.

A avó que ajuda os netos.

A família que precisa decidir se compra material escolar ou carne.

É nesse território que as políticas sociais são sentidas.

A renda chega.

O consumo melhora.

A criança permanece na escola.

A consulta médica acontece.

O dinheiro circula.

O pequeno comércio vende.

O vendedor compra.

A economia local se movimenta.

Uma política social transforma-se, assim, também em política econômica.

O dinheiro que chega à base não desaparece.

Circula.

Multiplica-se.

Cria demanda.

Cria comércio.

Cria expectativas.

A cidadania começa a adquirir uma dimensão que o Brasil conhecia pouco:

o pobre também é agente econômico.


CAPÍTULO 103

O BRASIL DOS ELEVADORES

Quando os pobres começaram a consumir

Durante os anos seguintes, milhões de brasileiros passaram a experimentar uma melhora relativa nas condições de vida.

O país vivia um ciclo de crescimento, favorecido também pelo cenário internacional.

Commodities valorizadas.

Demanda chinesa.

Exportações.

Aumento do emprego.

Expansão do crédito.

Valorização do salário mínimo.

Programas sociais.

O Banco Mundial classificou o período 2003–2010 como uma “década de ouro”, destacando crescimento médio de 4% ao ano, queda expressiva da pobreza e redução do índice de Gini.

Mas a literatura pode mostrar aquilo que a estatística apenas registra.

Uma família compra sua primeira geladeira.

Outra compra televisão.

Outra entra num avião pela primeira vez.

Outra compra um computador.

Outra consegue matricular o filho numa universidade.

Outra troca o barraco por uma casa.

O Brasil muda por dentro.

Não necessariamente nos palácios.

Nas casas.

Nos supermercados.

Nos aeroportos.

Nas lojas.

Nos bairros.

O país começa a descobrir uma coisa que as elites frequentemente esquecem:

consumo também é experiência de cidadania.


CAPÍTULO 104

O AVIÃO

O espaço social começa a mudar

Um aeroporto brasileiro.

A cena é reconstrução.

Uma família simples chega com malas.

Uma mulher olha para o painel de voos.

Talvez seja a primeira vez.

Um homem segura os documentos.

Uma criança pergunta:

— É aqui que a gente entra?

Não sabemos se alguém disse isso.

É uma reconstrução.

Mas o fato social é verdadeiro:

viajar de avião deixou de ser experiência exclusivamente das classes mais altas.

A inclusão econômica produzia mudanças simbólicas.

Os pobres começavam a ocupar espaços que antes pareciam pertencer a outros.

E isso tinha consequências políticas.

Porque desigualdade não é apenas diferença de renda.

É diferença de espaço.

De acesso.

De reconhecimento.

De expectativa.

Quando alguém que sempre foi excluído começa a entrar nos mesmos lugares, a sociedade muda.

Mas também pode surgir ressentimento.

A igualdade pode ser percebida por alguns não como conquista coletiva, mas como perda de exclusividade.

Essa tensão ainda não era visível.

Mas estava sendo preparada.


CAPÍTULO 105

LULISMO

A conciliação possível

Lula construiu uma fórmula política singular.

De um lado:

programas sociais.

Valorização do salário mínimo.

Expansão do crédito.

Políticas de inclusão.

Universidades.

Acesso ao consumo.

De outro:

alianças amplas.

Mercado financeiro.

Empresariado.

Agronegócio.

Grandes grupos econômicos.

Presidencialismo de coalizão.

A fórmula não era revolucionária.

Era conciliatória.

O Estado redistribuía parte da riqueza sem romper completamente com as estruturas econômicas existentes.

O pobre ganhava.

O mercado continuava funcionando.

As empresas lucravam.

O agronegócio crescia.

Os bancos permaneciam poderosos.

O capital não era derrotado.

A pobreza era reduzida.

Essa foi a força e também o limite do lulismo.

Ele não tentou destruir o capitalismo brasileiro.

Tentou torná-lo socialmente mais inclusivo.

E durante algum tempo, funcionou.


CAPÍTULO 106

O MENSALÃO

Quando a política encontrou seu espelho

Em 2005, o escândalo do chamado mensalão explodiu.

Denúncias envolvendo pagamentos a parlamentares e mecanismos de financiamento político atingiram o governo Lula e o Partido dos Trabalhadores.

A crise foi profunda.

O discurso moral do PT foi atingido.

A legenda que chegara ao poder prometendo combater velhas práticas da política brasileira descobria que também estava presa às engrenagens do presidencialismo de coalizão.

A cena é reconstrução.

Uma televisão ligada.

Um homem assiste às notícias.

Parlamentares.

Dinheiro.

Denúncias.

CPI.

Discursos.

Nomes.

O cidadão observa.

E talvez pense:

então era isso também?

A questão não era simplesmente se havia corrupção.

A corrupção brasileira era anterior ao PT.

O problema mais profundo era outro:

por que um sistema político democrático parecia depender de mecanismos informais para produzir governabilidade?

O julgamento da Ação Penal 470 pelo STF começaria em 2012 e envolveria 38 réus; o tribunal concluiu o julgamento após 53 sessões plenárias.

O mensalão tornou-se, assim, um marco na relação entre política, dinheiro e Justiça.

Mas também preparou o terreno para uma transformação posterior:

o Judiciário começaria a ocupar um espaço cada vez maior na vida política nacional.


CAPÍTULO 107

2006

Lula volta às urnas

Lula sobreviveu à crise.

Foi reeleito em 2006.

A política brasileira produziu um fenômeno curioso.

O escândalo não destruiu o governo.

Porque havia outra realidade acontecendo.

O emprego crescia.

O salário mínimo aumentava.

O crédito se expandia.

A pobreza diminuía.

As políticas sociais alcançavam milhões.

A experiência concreta de parte da população começava a pesar tanto quanto a avaliação moral do governo.

Isso criou uma nova divisão.

Para alguns:

o governo havia traído seus princípios.

Para outros:

o governo havia melhorado suas vidas.

Duas verdades políticas passaram a coexistir.

E quando duas verdades se tornam identidades, a política começa a adquirir um caráter emocional.


CAPÍTULO 108

2008

O mundo cai e o Brasil não cai junto

Em 2008, uma crise financeira global abalou o sistema econômico internacional.

Bancos.

Hipotecas.

Mercados.

Bolsa.

Crédito.

O mundo entrou em crise.

O Brasil também sentiu os efeitos.

Mas reagiu com políticas anticíclicas.

Redução de impostos em determinados setores.

Expansão do crédito.

Ação dos bancos públicos.

Investimento.

O país conseguiu atravessar a crise melhor do que muitos esperavam.

A cena é reconstrução.

Um trabalhador ouve no rádio que a economia mundial está em crise.

Talvez não compreenda os mecanismos financeiros.

Mas entende uma coisa:

há medo.

Pouco depois, continua trabalhando.

A fábrica não fechou.

O crédito continua.

O consumo continua.

A sensação é poderosa.

O Estado parece capaz de proteger.

A confiança no governo aumenta.

O lulismo alcança seu momento mais forte.


CAPÍTULO 109

PRÉ-SAL

O país acredita ter encontrado uma riqueza escondida

Em 2007, a descoberta de grandes reservas de petróleo na camada do pré-sal reforçou a ideia de que o Brasil entrava numa nova era.

Petróleo.

Energia.

Investimento.

Soberania.

Educação.

Desenvolvimento.

O país parecia descobrir no fundo do mar uma promessa de futuro.

A cena é reconstrução.

Um mapa.

Uma plataforma.

Mar aberto.

Engenheiros.

Trabalhadores.

Uma imagem do oceano.

O Brasil olha para baixo e encontra riqueza.

Mas a História brasileira ensina cautela.

Toda riqueza pode ser bênção.

Toda riqueza pode ser maldição.

Depende de quem controla.

De como distribui.

De como administra.

De como protege.

A pergunta antiga retorna:

quem ficará com a riqueza?


CAPÍTULO 110

DILMA

A mulher que chega ao poder depois da ditadura

Em 2011, Dilma Rousseff tomou posse.

Sua presença tinha um significado que ultrapassava a política partidária.

Uma mulher chegava à Presidência.

E aquela mulher havia sido militante contra a ditadura.

Havia sido presa.

Torturada.

Sobrevivido.

Agora ocupava o mesmo Estado que um dia a havia perseguido.

A cena é documental.

A faixa presidencial.

A cerimônia.

O Palácio.

A mulher diante do poder.

Existe uma espécie de círculo histórico.

O Estado que a torturou agora lhe entrega a Presidência.

A democracia produz essas ironias.

Dilma não chega como vítima.

Chega como governante.

E governar será mais difícil que resistir.


CAPÍTULO 111

O NOVO DESENVOLVIMENTISMO

Quando o Estado tenta acelerar demais

Dilma aprofundou uma visão mais intervencionista da política econômica.

Redução de juros.

Desonerações.

Crédito público.

Intervenções setoriais.

Políticas industriais.

Controle de preços administrados.

Investimentos.

O governo pretendia estimular a economia.

Mas a combinação das políticas produziu efeitos controversos.

A economia começou a perder dinamismo.

A produtividade não crescia suficientemente.

O investimento privado enfraqueceu.

A política fiscal deteriorou-se.

A confiança empresarial diminuiu.

O governo insistia em estimular.

A economia respondia menos.

A pergunta agora era:

até onde o Estado pode empurrar uma economia que perdeu impulso?

A resposta viria não por teoria.

Viria na forma de recessão.


CAPÍTULO 112

2013

A rua volta

Junho de 2013.

Começa com transporte.

Tarifas.

São Paulo.

Movimento Passe Livre.

Depois, algo inesperado acontece.

As manifestações se espalham.

Milhares.

Depois centenas de milhares.

A pauta muda.

Corrupção.

Serviços públicos.

Violência policial.

Gastos com grandes eventos.

Saúde.

Educação.

Representação política.

Tudo.

A cena é reconstrução.

Um jovem segura um cartaz.

Outro filma com o celular.

Uma multidão ocupa uma avenida.

A polícia lança gás.

Alguém corre.

Alguém grita.

Alguém transmite ao vivo.

A rua tornou-se digital.

A política entra no smartphone.

O movimento é múltiplo demais para caber numa ideologia.

Há esquerda.

Há centro.

Há antipartidarismo.

Há reivindicações sociais.

Há conservadores.

Há libertários.

Há jovens sem filiação.

Há grupos organizados.

E há pessoas que simplesmente estão cansadas.

2013 não derruba Dilma.

Mas derruba uma certeza.

A certeza de que a inclusão econômica havia produzido satisfação política.

Não havia.

O cidadão que conseguiu comprar um celular agora queria também um hospital melhor.

O jovem que entrou na universidade queria transporte.

A família que comprou carro queria ruas melhores.

A sociedade que havia conquistado consumo começava a exigir qualidade.

É uma transformação fundamental:

quando as necessidades básicas diminuem, as expectativas aumentam.


CAPÍTULO 113

O OUTRO LADO DA INCLUSÃO

A ascensão produz novas exigências

Essa talvez seja uma das contradições mais importantes do período.

A inclusão social não elimina o conflito.

Pode ampliá-lo.

Quando milhões saem da pobreza extrema, a pobreza deixa de ser a única referência.

A comparação social aumenta.

A desigualdade passa a ser percebida de maneira mais aguda.

O indivíduo que conseguiu ascender percebe o quanto ainda falta.

O cidadão que antes queria simplesmente comer passa a querer:

educação melhor.

segurança.

transporte.

internet.

viagem.

moradia.

respeito.

Serviço público.

Representação.

A cidadania evolui.

E o governo que ajudou a criar essa nova cidadania passa a ser cobrado por ela.

A democracia havia criado expectativas que agora precisavam ser atendidas.


CAPÍTULO 114

2014

A eleição que dividiu o país

Dilma Rousseff venceu a eleição presidencial de 2014 por margem apertada.

O país estava dividido.

O debate político se tornava cada vez mais agressivo.

A economia começava a deteriorar-se.

A confiança diminuía.

A polarização crescia.

A oposição não aceitava simplesmente o resultado político como encerramento do conflito.

O governo, por sua vez, encontrava dificuldade para responder à crise econômica.

E uma nova força estava crescendo:

a investigação judicial.


CAPÍTULO 115

LAVA JATO

O dinheiro entra na televisão

Março de 2014.

A Operação Lava Jato começa investigando crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.

O Ministério Público Federal registra que as investigações partiram de quatro organizações criminosas investigadas em Curitiba e posteriormente se expandiram para outros estados e diferentes núcleos de investigação.

A operação cresceria enormemente.

Petrobras.

Empreiteiras.

Políticos.

Partidos.

Empresários.

Delações.

Prisão.

Condenações.

Televisão.

A corrupção passa a ocupar o centro do imaginário nacional.

A cena é reconstrução.

Um homem está sentado diante da televisão.

A tela mostra um empresário.

Depois um político.

Depois um procurador.

Depois um juiz.

Depois uma planilha.

Depois números.

Depois malas.

Depois uma prisão.

O cidadão observa.

A narrativa se torna quase cinematográfica.

E a política começa a adquirir uma nova linguagem:

corrupção versus combate à corrupção.

O problema é que a política não desaparece quando a Justiça entra em cena.

Ao contrário.

A Justiça passa a ser também um ator político.


CAPÍTULO 116

O JUIZ

Quando a toga ocupa o lugar do palanque

A Lava Jato modificou a relação entre política e Judiciário.

O juiz Sergio Moro tornou-se figura nacional.

Procuradores ganharam enorme visibilidade.

Delações premiadas passaram a dominar o noticiário.

A sociedade acompanhava processos como se acompanhasse eleições.

A pergunta histórica, porém, precisa ser mais sofisticada que a celebração ou condenação de personagens.

O combate à corrupção fortalece a democracia quando fortalece instituições.

Mas uma democracia também precisa perguntar:

quem controla aqueles que controlam o poder?

A questão não significa negar a importância da investigação.

Significa lembrar que o Estado de Direito possui regras para todos.

A corrupção precisa ser combatida.

Mas o combate à corrupção também precisa obedecer ao direito.

Essa tensão seria decisiva nos anos seguintes.


CAPÍTULO 117

2015

O país entra na recessão

Agora a narrativa muda de temperatura.

O consumo desacelera.

Empresas reduzem investimentos.

O desemprego aumenta.

A arrecadação cai.

A crise política aprofunda a crise econômica.

O PIB brasileiro caiu 3,5% em 2015, segundo a série revisada do IBGE; o investimento também despencou.

A cena é reconstrução.

Uma loja.

Poucos clientes.

Uma fábrica reduzindo turnos.

Um trabalhador olhando para o celular.

Uma família adiando uma compra.

O Brasil que havia descoberto o consumo começa a descobrir a perda.

A recessão não é abstrata.

É a geladeira que não será trocada.

O carro que não será comprado.

A viagem cancelada.

A vaga que não aparece.

O salário que desaparece.

O futuro que se torna novamente incerto.


CAPÍTULO 118

A ECONOMIA E A POLÍTICA

Quando uma crise encontra outra

A crise econômica isoladamente talvez não explicasse a ruptura.

A crise política isoladamente talvez também não.

Mas as duas começaram a alimentar-se.

O governo perdeu apoio.

O Congresso tornou-se mais hostil.

Eduardo Cunha, presidente da Câmara, tornou-se personagem central da crise.

As ruas voltaram.

A oposição cresceu.

A base governista se fragmentou.

A Lava Jato produziu novos escândalos.

A imprensa acompanhava cada episódio.

A sociedade polarizou-se.

A crise econômica fornecia descontentamento.

A crise política fornecia culpados.

A corrupção fornecia indignação.

A polarização fornecia identidade.

O impeachment começava a se tornar possível.


CAPÍTULO 119

O IMPEACHMENT

A democracia decide retirar uma presidente

O processo contra Dilma Rousseff começou formalmente em dezembro de 2015.

A Câmara autorizou a abertura do processo em abril de 2016.

O Senado recebeu a denúncia e afastou Dilma provisoriamente.

A acusação formal estava relacionada a decretos de crédito suplementar sem autorização legislativa e a atrasos de repasses do Plano Safra, entre outros pontos jurídicos apresentados no processo.

Mas a política era maior que o processo jurídico.

A oposição dizia:

crime de responsabilidade.

O governo respondia:

golpe.

As duas palavras passaram a definir identidades.

A cena é documental.

O Congresso.

Deputados votando.

A televisão transmitindo.

Famílias discutindo.

Ruas divididas.

Bandeiras.

Panelas.

Manifestações.

O Brasil se parte.


CAPÍTULO 120

31 DE AGOSTO DE 2016

O impeachment

O Senado concluiu o julgamento em 31 de agosto de 2016.

Por 61 votos a 20, Dilma Rousseff perdeu o mandato.

Em votação separada, os senadores decidiram manter seus direitos políticos.

A cena é documental.

Dilma está diante do fim de seu governo.

Uma mulher que havia sido presa e torturada pela ditadura agora deixa a Presidência por uma decisão do Congresso democrático.

É impossível não perceber a ironia histórica.

O regime autoritário não conseguiu impedi-la de chegar ao poder.

A democracia permitiu que chegasse.

A democracia também permitiu que saísse.

Mas permanece a pergunta que dividiria o país:

foi um exercício legítimo das instituições ou uma ruptura política revestida de procedimento constitucional?

O livro não deve responder com uma palavra.

Precisa narrar a controvérsia.

O Senado considerou procedentes os crimes de responsabilidade descritos na denúncia.

Setores da sociedade, da academia e da política consideraram o processo juridicamente legítimo.

Outros sustentaram que as irregularidades fiscais não justificavam a retirada de um mandato presidencial e que a perda do cargo foi impulsionada por uma coalizão política interessada em derrubar o governo.

O fato histórico é um.

A interpretação política permanece disputada.

E talvez seja justamente por isso que 2016 seja tão importante.


CAPÍTULO 121

O QUE HAVIA ACONTECIDO?

Agora o ensaio precisa parar.

Não para julgar.

Para compreender.

Entre 2003 e 2014, o Brasil experimentou uma transformação social significativa.

O Banco Mundial registrou queda da pobreza e da desigualdade e aumento do acesso de parcelas pobres da população a educação, saúde, água, saneamento e eletricidade.

Mas a inclusão não foi suficiente para alterar todas as estruturas.

A concentração patrimonial permaneceu.

A desigualdade regional permaneceu.

A qualidade dos serviços públicos continuou desigual.

A educação básica continuou problemática.

A violência permaneceu elevada.

A política continuou dependente de coalizões complexas.

A corrupção não desapareceu.

O presidencialismo de coalizão continuou exigindo negociação.

A economia continuou vulnerável aos ciclos externos.

A inclusão havia avançado.

Mas não havia produzido igualdade.


CAPÍTULO 122

A CLASSE MÉDIA

Quando a ascensão encontra o medo de perder

A inclusão econômica produziu uma nova experiência social.

Milhões melhoraram.

Mas nem todos melhoraram da mesma forma.

Alguns setores da classe média tradicional sentiram perda relativa de privilégios.

O aeroporto ficou mais cheio.

A universidade tornou-se mais diversificada.

Os serviços ficaram mais disputados.

Empregadas domésticas passaram a conquistar direitos.

A informalidade começou a ser combatida.

O acesso a bens tornou-se mais amplo.

O que para uns significava democratização, para outros podia parecer nivelamento por baixo.

A democracia brasileira encontrava um problema que não era exclusivamente econômico.

Era psicológico.

Quem se acostumou à exclusividade pode interpretar a democratização do acesso como perda.

Essa tensão não explica tudo.

Mas ajuda a entender a dimensão emocional que a polarização adquiriria.


CAPÍTULO 123

O TRABALHO

O trabalhador deixou de ser apenas pobre, mas ainda não deixou de ser vulnerável

Durante os anos de expansão, o trabalho ganhou força.

Emprego formal.

Salário mínimo.

Crédito.

Consumo.

Direitos.

Mas a economia brasileira continuava marcada por produtividade desigual.

Setores modernos coexistiam com informalidade.

A indústria perdia participação.

Serviços avançavam.

A tecnologia mudava profissões.

A desigualdade regional permanecia.

O trabalhador brasileiro havia conquistado mais.

Mas ainda dependia fortemente do ciclo econômico.

A inclusão não havia transformado completamente a estrutura produtiva.

E isso seria decisivo quando a recessão chegasse.


CAPÍTULO 124

A RIQUEZA

O país cresceu, mas não mudou completamente quem possui

A pergunta da terra reaparece na forma da riqueza.

Quem possui patrimônio?

Quem possui empresas?

Quem controla bancos?

Quem controla meios de comunicação?

Quem controla grandes propriedades?

Quem controla recursos naturais?

Quem financia campanhas?

A transferência de renda conseguiu reduzir pobreza e desigualdade de renda.

Mas redistribuir renda não é o mesmo que redistribuir patrimônio.

Essa diferença é essencial.

O Bolsa Família pode mudar a vida de uma família.

O salário pode melhorar.

O emprego pode crescer.

Mas patrimônio produz poder de uma maneira diferente.

Uma casa quitada.

Uma empresa.

Uma fazenda.

Ações.

Capital.

Herança.

A desigualdade brasileira continuava possuindo raízes patrimoniais.

A força da riqueza não havia sido desmontada.


CAPÍTULO 125

O PODER

O presidencialismo de coalizão

O Brasil continuava governado por coalizões.

O presidente precisava do Congresso.

O Congresso precisava negociar.

Partidos possuíam interesses diferentes.

Emendas.

Cargos.

Ministérios.

Orçamento.

A governabilidade exigia acordos.

O problema não era simplesmente a existência de negociação.

Democracia exige negociação.

O problema aparecia quando a negociação se misturava a práticas ilícitas.

O mensalão revelou uma face disso.

A Lava Jato revelaria outra.

A corrupção não nasceu com o PT.

Mas o PT descobriu, ao chegar ao governo, que também estava dentro de um sistema político cuja lógica havia criticado.

A grande ironia histórica é essa:

o partido que queria transformar a política precisou aprender a sobreviver dentro dela.


CAPÍTULO 126

A CIDADANIA

O pobre começa a exigir mais

Aqui está talvez a maior conquista do período.

O cidadão brasileiro de 2016 é muito diferente daquele de 1988.

Não necessariamente porque seja mais rico.

Mas porque espera mais.

O Estado deve fornecer saúde.

Educação.

Transporte.

Segurança.

Previdência.

Assistência.

Direitos.

O cidadão quer qualidade.

Quer respeito.

Quer transparência.

Quer combater corrupção.

Quer representação.

Quer participação.

A cidadania cresceu mais rápido que a capacidade do Estado de satisfazê-la.

Essa é uma chave para compreender 2013.

A manifestação não era simplesmente rejeição ao governo.

Era também uma manifestação de uma sociedade que havia aprendido a desejar mais.


CAPÍTULO 127

AS CINCO FORÇAS

O Brasil que chega à ruptura

Agora, novamente, as cinco forças.

TERRA

Pouco havia mudado estruturalmente.

A concentração fundiária permanecia.

A modernização agrícola havia avançado.

O agronegócio se fortalecia.

A terra continuava sendo riqueza e poder.

TRABALHO

Milhões haviam ascendido.

O desemprego havia caído durante boa parte do período.

O salário mínimo crescera em termos reais.

Mas o mercado continuava vulnerável.

A recessão demonstraria a fragilidade dessa conquista.

RIQUEZA

A pobreza havia diminuído.

A desigualdade de renda havia caído.

Mas a concentração patrimonial permanecia.

A riqueza continuava distribuída de maneira profundamente desigual.

PODER

A democracia estava consolidada institucionalmente.

Mas o presidencialismo de coalizão permanecia problemático.

O dinheiro continuava influenciando a política.

O Judiciário aumentava seu protagonismo.

A mídia tinha enorme capacidade de agenda.

As redes sociais começavam a modificar a esfera pública.

CIDADANIA

Era a força que mais havia avançado.

O cidadão pobre consumia.

Votava.

Exigia.

Protestava.

Processava.

Questionava.

O cidadão já não aceitava simplesmente sobreviver.

Queria participar do Brasil.


CAPÍTULO 128

A PERGUNTA

A inclusão criou uma democracia mais exigente?

Talvez esta seja a pergunta que define o período.

O Brasil havia conseguido algo extraordinário.

Uma parcela enorme da população havia melhorado sua condição de vida.

Mas a inclusão produz expectativas.

E expectativas produzem cobrança.

O cidadão que antes não tinha dinheiro para comprar uma geladeira agora queria uma geladeira.

Depois queria internet.

Depois universidade.

Depois um hospital melhor.

Depois segurança.

Depois transporte.

Depois respeito.

Depois representação.

A democracia havia criado uma sociedade mais exigente.

E o Estado não conseguia acompanhar.

A frustração começou a substituir a euforia.


CAPÍTULO 129

O FIM DA CONCILIAÇÃO

O Brasil se divide sobre aquilo que antes parecia possível conciliar

O lulismo havia demonstrado que era possível combinar:

mercado;

política social;

crescimento;

emprego;

agronegócio;

bancos;

indústria;

trabalhadores;

programas de transferência;

estabilidade.

Mas a combinação possuía limites.

Quando o crescimento desacelerou, os conflitos ficaram mais visíveis.

A política distributiva passou a ser questionada.

A política econômica passou a ser questionada.

A corrupção tornou-se centro do debate.

A oposição radicalizou.

O governo perdeu capacidade de negociação.

As redes sociais criaram novas comunidades políticas.

A velha conciliação brasileira começou a desmoronar.

Não era mais possível que todos acreditassem simultaneamente na mesma promessa.

O país entrava numa nova fase.


CAPÍTULO 130

2016

O país que já não concordava consigo mesmo

Quando Dilma deixou o Planalto, não havia apenas um governo derrotado.

Havia uma sociedade profundamente dividida.

Uma metade via o impeachment como defesa das instituições.

Outra via como ruptura da soberania eleitoral.

Uma metade celebrava o combate à corrupção.

Outra via seletividade política.

Uma metade acreditava que o Estado precisava ser reduzido.

Outra via nessa redução uma ameaça aos direitos sociais.

Uma metade queria mais mercado.

Outra queria mais Estado.

Uma metade queria punição.

Outra temia o autoritarismo judicial.

O Brasil não estava simplesmente discutindo política.

Estava discutindo sua própria interpretação.

Que país somos?


EPÍLOGO

A democracia conseguiu incluir, mas não conseguiu reconciliar

Talvez seja possível responder parcialmente à pergunta central deste arco:

a democracia brasileira conseguiu transformar crescimento em inclusão?

Em parte, sim.

Os dados não permitem negar a transformação social ocorrida nos primeiros anos do século XXI.

A pobreza caiu.

A desigualdade de renda diminuiu.

O acesso a serviços aumentou.

O Bolsa Família alcançou dezenas de milhões de pessoas.

A renda dos mais pobres cresceu mais rapidamente que a dos mais ricos durante parte desse ciclo.

Mas a segunda pergunta é mais difícil:

por que essa conquista não impediu uma nova ruptura política?

Porque inclusão não é igualdade.

Porque crescimento não é desenvolvimento estrutural.

Porque renda não é patrimônio.

Porque consumo não é cidadania plena.

Porque políticas sociais não eliminam desigualdades históricas.

Porque uma sociedade mais incluída torna-se também mais exigente.

Porque a corrupção corroeu a confiança.

Porque a economia entrou em crise.

Porque o presidencialismo de coalizão revelou suas fragilidades.

Porque a polarização transformou adversários em inimigos.

Porque as redes sociais mudaram a maneira como os brasileiros discutiam política.

Porque a Lava Jato transformou a corrupção em questão central da vida pública.

Porque o impeachment de Dilma dividiu a sociedade sobre o próprio significado da democracia.

E, talvez mais profundamente:

porque o Brasil havia conseguido democratizar parcialmente o acesso à riqueza sem democratizar completamente o poder sobre a riqueza.

Essa é a velha questão que retorna.

A terra.

O trabalho.

A riqueza.

O poder.

A cidadania.

Nenhuma das cinco forças havia desaparecido.

Todas haviam mudado.

A cidadania crescera.

O trabalho conquistara direitos.

A pobreza diminuíra.

O consumo se expandira.

O Estado social se ampliara.

Mas a terra continuava concentrada.

A riqueza patrimonial permanecia concentrada.

O poder econômico continuava desigual.

E a democracia ainda não havia encontrado uma forma de fazer essas forças coexistirem sem produzir ciclos de esperança, frustração e ruptura.

Em 2016, o Brasil não voltou ao passado.

Mas também não havia chegado ao futuro.

Estava diante de uma encruzilhada.

E talvez seja justamente aí que A CARA DO BRASIL precise interromper a cronologia por um instante.

Porque depois de 2016 a história muda de natureza.

A política deixa de ser apenas disputa entre projetos econômicos.

Começa a ser disputa pela própria realidade.

O que é verdade?

O que é corrupção?

O que é democracia?

Quem representa o povo?

Quem controla as instituições?

Quem pode falar?

Quem pode ser ouvido?

A internet entra definitivamente na política.

A indignação torna-se permanente.

A direita se reorganiza.

A esquerda se radicaliza em sua defesa.

O centro se desfaz.

E um personagem ainda pouco compreendido começa a ocupar o espaço aberto pela ruptura:

Jair Bolsonaro.

O homem que surgirá no próximo arco não deve ser apresentado como acidente.

Nem como aberração.

Nem como simples produto das redes sociais.

Ele deverá aparecer como sintoma de uma história mais longa.

A história de um país que modernizou sua economia sem resolver suas desigualdades.

Que ampliou a cidadania sem produzir consenso.

Que democratizou a política sem democratizar inteiramente o poder econômico.

Que aprendeu a votar, mas não aprendeu ainda a conviver com a derrota.

E talvez essa seja a pergunta que abrirá o próximo arco:

o que acontece quando uma democracia que prometeu inclusão descobre que a inclusão também pode produzir novos conflitos, novos ressentimentos e uma nova luta pelo significado do próprio Brasil?

Esse fechamento deixa o livro numa posição particularmente forte. O próximo arco, 2016–2022/23, não deve ser simplesmente “o período Bolsonaro”. Literariamente, ele pode ser construído como “A República da Polarização”: Temer e a transição pós-impeachment; a crise de confiança nas instituições; a ascensão de Bolsonaro; redes sociais e política; a eleição de 2018; a Lava Jato e seus desdobramentos; o governo Bolsonaro; pandemia; conflito entre Executivo, STF, Congresso e imprensa; eleição de 2022; e finalmente 8 de janeiro de 2023.

Ali, as cinco forças podem adquirir uma nova configuração: a terra como poder econômico e ambiental; o trabalho precarizado e digitalizado; a riqueza cada vez mais financeirizada; o poder institucional em guerra consigo mesmo; e a cidadania transformada em identidade política e cultural.

E isso permitirá que o livro finalmente se aproxime da pergunta que vem sendo preparada desde o engenho colonial: se o Brasil mudou tantas vezes sem romper inteiramente com sua estrutura histórica, o que exatamente precisaria mudar para que a História deixasse de simplesmente trocar os personagens e começasse, de fato, a transformar o país?

que o livro finalmente se aproxime da pergunta que vem sendo preparada desde o engenho colonial: se o Brasil mudou tantas vezes sem romper inteiramente com sua estrutura histórica, o que exatamente precisaria mudar para que a História deixasse de simplesmente trocar os personagens e começasse, de fato, a transformar o país?

Sim. Essa pergunta pode se tornar o eixo filosófico do último grande movimento de A CARA DO BRASIL. Depois de percorrer cinco séculos, o livro não deveria terminar com uma conclusão partidária, nem com um programa político convencional. Deveria chegar a uma espécie de diagnóstico histórico: o Brasil mudou muitas vezes de regime, de moeda, de presidente, de modelo econômico e de Constituição, mas frequentemente preservou as relações profundas que organizam terra, trabalho, riqueza, poder e cidadania.

O capítulo final poderia, portanto, abandonar a cronologia e fazer as cinco forças finalmente se encontrarem.

PARTE FINAL

A HISTÓRIA AINDA NÃO TERMINOU

CAPÍTULO FINAL

O PAÍS QUE PRECISA MUDAR DE ESTRUTURA

Durante mais de quinhentos anos, o Brasil mudou muitas vezes.

Mudou de dono.

Mudou de nome.

Mudou de regime.

Mudou de bandeira.

Mudou de moeda.

Mudou de Constituição.

Mudou de capital.

Mudou de presidente.

Mudou de partido.

Mudou de modelo econômico.

Mudou de discurso.

Mudou até mesmo a maneira de imaginar o próprio futuro.

Mas talvez tenha mudado menos do que parece.

O engenho virou fazenda.

A fazenda virou empresa.

O senhor de engenho virou coronel.

O coronel virou empresário.

O empresário entrou na política.

O político tornou-se empresário.

O Estado cresceu.

O mercado cresceu.

A cidade cresceu.

A população cresceu.

A democracia cresceu.

Mas algumas relações permaneceram.

A terra continuou concentrada.

O trabalho continuou desigual.

A riqueza continuou produzindo poder.

O poder continuou produzindo privilégios.

E a cidadania, embora tenha avançado enormemente, continuou chegando de maneira desigual à vida concreta dos brasileiros.

Talvez esse seja o paradoxo essencial da história nacional:

o Brasil mudou sem conseguir transformar inteiramente aquilo que o fazia ser Brasil.


1. NÃO FOI FALTA DE HISTÓRIA

O Brasil não é um país sem história.

Talvez seja exatamente o contrário.

Há história demais acumulada sobre o presente.

A escravidão terminou, mas suas consequências sociais não terminaram com a assinatura da Lei Áurea.

A República aboliu o imperador, mas não aboliu a estrutura de poder das elites.

A industrialização criou o operário, mas não eliminou a desigualdade.

A legislação trabalhista reconheceu direitos, mas não universalizou a dignidade do trabalho.

A Constituição de 1988 criou uma cidadania ampla, mas não conseguiu transformar imediatamente direitos escritos em direitos vividos.

A democracia permitiu que milhões votassem.

Mas votar não significa necessariamente possuir poder.

A pobreza diminuiu.

Mas a concentração patrimonial permaneceu.

O Brasil se modernizou.

Mas a modernização não alcançou todos os brasileiros da mesma maneira.

Talvez por isso a pergunta não deva ser:

por que o Brasil não mudou?

Ele mudou.

E mudou profundamente.

A pergunta verdadeira é outra:

por que tantas mudanças brasileiras não foram capazes de alterar suficientemente as estruturas que produzem desigualdade?

Essa pergunta nos leva novamente às cinco forças.


2. A TERRA

A primeira força é a mais antiga.

Antes de existir o Brasil, havia terra.

E, desde o início da colonização, a terra foi distribuída como poder.

Não simplesmente como espaço.

Como riqueza.

Como autoridade.

Como distinção social.

Como possibilidade de mandar.

A propriedade rural brasileira nasceu profundamente associada à concentração.

O latifúndio não era apenas uma forma de produção.

Era uma forma de sociedade.

Ao redor dele organizavam-se trabalho, dependência, violência, prestígio e poder político.

A República não destruiu essa estrutura.

A industrialização não a destruiu.

A urbanização não a destruiu.

O século XXI não a destruiu.

A agricultura brasileira tornou-se extraordinariamente moderna em muitos setores.

Mas modernização produtiva não significa necessariamente democratização da propriedade.

Essa distinção é fundamental.

Uma fazenda pode possuir tecnologia de ponta e continuar inserida numa estrutura concentrada de propriedade.

O Brasil pode produzir alimentos para o mundo e continuar convivendo com insegurança alimentar.

Pode ser potência agrícola e permanecer incapaz de resolver completamente sua questão fundiária.

A pergunta, portanto, não é se o país precisa acabar com o agronegócio.

Precisa-se perguntar outra coisa:

como fazer com que a riqueza produzida pela terra seja compatível com justiça social, proteção ambiental, desenvolvimento regional e democratização das oportunidades?

Transformar a relação com a terra não significa destruir quem produz.

Significa fazer com que produzir não seja incompatível com repartir.

Significa reconhecer que a terra é propriedade, mas também território.

É riqueza privada, mas também patrimônio ambiental.

É mercadoria, mas também condição de existência.

Enquanto essa tensão não for resolvida, a velha questão agrária continuará respirando sob novas formas.


3. O TRABALHO

A segunda força é o trabalho.

Durante séculos, o Brasil conheceu trabalho sem cidadania.

O escravizado trabalhava, mas não era reconhecido como sujeito.

Depois da abolição, o trabalhador livre encontrou uma sociedade que não havia preparado suficientemente sua integração.

Mais tarde veio Vargas.

Direitos.

Carteira.

Salário mínimo.

Previdência.

Sindicato.

Legislação.

O trabalhador passou a ser incorporado ao Estado.

Mas a cidadania trabalhista foi construída de maneira desigual.

O trabalhador urbano formal recebeu direitos que milhões de trabalhadores rurais, domésticos e informais demorariam muito mais para conquistar.

Depois veio a globalização.

A terceirização.

A automação.

A economia digital.

O aplicativo.

O trabalho remoto.

A inteligência artificial.

O emprego mudou novamente.

E a pergunta voltou:

o que significa trabalhar com dignidade quando o próprio conceito de trabalho está mudando?

O Brasil não pode simplesmente reproduzir a velha fórmula:

trabalhar para sobreviver.

Nem pode imaginar que a tecnologia resolverá automaticamente a questão social.

Se máquinas aumentam a produtividade, a sociedade precisa decidir como distribuir os ganhos dessa produtividade.

Se a inteligência artificial substitui determinadas tarefas, será necessário discutir formação, renda, proteção e novas formas de participação econômica.

Se plataformas digitais transformam trabalhadores em “parceiros”, a legislação precisará perguntar se a mudança de nome também pode significar mudança de direitos.

O futuro do trabalho será uma das grandes disputas do século XXI.

E o Brasil terá de decidir se deseja apenas trabalhadores mais produtivos ou pessoas mais livres por meio do trabalho.

Essa diferença é decisiva.

Porque trabalho não deveria ser apenas uma maneira de obter renda.

Deveria ser também uma forma de pertencimento social.


4. A RIQUEZA

A terceira força talvez seja a mais silenciosa.

A riqueza não aparece apenas onde há dinheiro.

Ela aparece onde existe capacidade de decidir.

Quem possui patrimônio pode esperar.

Quem não possui precisa vender seu tempo.

Quem possui uma empresa pode assumir riscos.

Quem depende exclusivamente do salário possui menos margem.

Quem recebe uma herança começa a vida de um lugar diferente.

Quem nasce sem patrimônio começa outra corrida.

É por isso que a desigualdade brasileira não pode ser compreendida apenas pela diferença entre salários.

É necessário olhar para a propriedade.

Para a herança.

Para o patrimônio.

Para o acesso ao crédito.

Para a educação.

Para a capacidade de investimento.

Para a possibilidade de empreender.

Para a qualidade do território onde cada criança nasce.

A democracia política pode afirmar:

todos são iguais perante a lei.

Mas a vida econômica pode responder:

nem todos começam do mesmo lugar.

Essa contradição não é exclusivamente brasileira.

Mas adquiriu no Brasil uma profundidade histórica particular.

A solução não pode ser simplesmente retirar riqueza de alguns para entregar a outros.

Uma sociedade complexa precisa fazer algo mais difícil:

produzir riqueza e distribuir oportunidades simultaneamente.

Isso significa tributar de maneira mais justa.

Reduzir privilégios fiscais injustificáveis.

Combater evasão.

Investir em educação.

Garantir saúde.

Universalizar saneamento.

Ampliar infraestrutura.

Facilitar acesso ao crédito produtivo.

Promover mobilidade social.

Estimular inovação.

Proteger os vulneráveis.

E, sobretudo, construir um sistema no qual o lugar de nascimento não determine tão fortemente o lugar de chegada.

A justiça social não deveria significar que todos terminem iguais.

Deveria significar que ninguém seja condenado a começar a vida sem possibilidades reais de escolha.


5. O PODER

A quarta força é o poder.

Talvez a mais difícil.

Porque o poder raramente desaparece.

Ele muda de mãos.

Durante o Império, esteve concentrado em determinadas elites.

Na República Velha, encontrou o coronelismo.

Na Era Vargas, concentrou-se no Estado nacional.

Na ditadura, esteve sob comando militar.

Na redemocratização, voltou às instituições.

Hoje circula entre Executivo, Legislativo, Judiciário, grandes grupos econômicos, meios de comunicação, redes sociais, organizações religiosas, movimentos sociais, corporações e plataformas digitais.

A forma mudou.

A disputa permaneceu.

Talvez o maior problema histórico brasileiro não seja simplesmente ter tido governos ruins.

É ter construído instituições nas quais a distribuição do poder econômico e a distribuição do poder político nunca coincidiram plenamente.

O cidadão pode ter um voto.

O dinheiro pode ter milhares de canais de influência.

O cidadão pode falar.

Uma grande organização pode ser ouvida por milhões.

O cidadão pode protestar.

Um grupo organizado pode transformar sua pressão em política pública.

A democracia, portanto, precisa ir além da igualdade eleitoral.

Precisa democratizar o acesso ao poder.

Isso não significa eliminar diferenças.

Significa tornar transparentes as formas pelas quais interesses privados influenciam decisões públicas.

Significa fortalecer instituições.

Mas também controlá-las.

Significa proteger o Judiciário de interferências políticas sem permitir que ele se transforme em poder sem controle democrático.

Significa fortalecer o Congresso sem permitir que interesses corporativos substituam o interesse público.

Significa preservar a liberdade de imprensa sem ignorar a concentração dos meios de comunicação.

Significa regular o ambiente digital sem transformar regulação em censura.

A democracia madura não é aquela em que não existe conflito.

É aquela em que nenhum poder consegue tornar-se absoluto.


6. A CIDADANIA

E finalmente chegamos à quinta força.

A cidadania.

Talvez seja aqui que esteja a maior transformação brasileira.

O escravizado não era cidadão.

O pobre rural quase não tinha voz.

A mulher demorou a conquistar plenamente seus direitos políticos.

O analfabeto foi durante muito tempo excluído do voto.

Os trabalhadores foram reprimidos.

As minorias foram silenciadas.

A democracia brasileira foi, durante grande parte de sua história, uma democracia de poucos.

Hoje a situação é profundamente diferente.

A cidadania tornou-se muito mais ampla.

Mas ainda não se tornou plenamente igual.

Porque cidadania não é apenas possuir um título jurídico.

É poder viver de acordo com os direitos que esse título promete.

Não basta dizer:

a saúde é direito de todos.

É necessário que o cidadão consiga ser atendido.

Não basta afirmar:

a educação é direito de todos.

É necessário que uma criança pobre tenha uma escola capaz de oferecer-lhe o mesmo futuro que uma criança rica.

Não basta afirmar:

todos são iguais.

É necessário impedir que raça, gênero, território, renda ou origem determinem antecipadamente o valor social de uma pessoa.

A cidadania verdadeira começa quando o direito deixa de ser apenas uma frase constitucional e se transforma em experiência cotidiana.


7. AS CINCO FORÇAS NÃO ESTÃO SEPARADAS

É aqui que a história brasileira revela sua estrutura mais profunda.

Terra.

Trabalho.

Riqueza.

Poder.

Cidadania.

Nunca foram cinco problemas diferentes.

Sempre foram cinco dimensões do mesmo problema.

Quem possui a terra possui riqueza.

Quem possui riqueza possui influência.

Quem possui influência possui poder.

Quem possui poder consegue definir as regras.

Quem define as regras decide quem terá cidadania efetiva.

E quem não possui terra, riqueza ou poder precisa lutar para transformar cidadania formal em cidadania real.

Essa é talvez a engrenagem subterrânea da história brasileira.

Ela atravessa o engenho.

O Império.

A República Velha.

Vargas.

A ditadura.

A redemocratização.

O lulismo.

A crise de 2016.

A polarização posterior.

Mudam os personagens.

Mudam os discursos.

Mudam as instituições.

Mas a engrenagem reaparece.

É por isso que a História brasileira parece tantas vezes circular.


8. MUDAR OS PERSONAGENS NÃO BASTA

Talvez tenhamos esperado demais dos presidentes.

Esperamos que Getúlio Vargas modernizasse o país.

Que Juscelino o desenvolvesse.

Que os militares o organizassem.

Que a democracia o libertasse.

Que Fernando Henrique estabilizasse.

Que Lula distribuísse.

Que Dilma mantivesse.

Que Bolsonaro rompesse.

Que Lula novamente reconstruísse.

Cada período deposita esperança excessiva em uma pessoa.

É uma característica de sociedades que ainda procuram soluções personalizadas para problemas estruturais.

Mas nenhum presidente consegue, sozinho, alterar cinco séculos.

Presidentes governam.

Instituições funcionam.

Políticas públicas produzem efeitos.

Mas estruturas sociais resistem.

Por isso, talvez a pergunta mais importante deste livro não seja:

quem deveria governar o Brasil?

Seja:

que Brasil deveria existir independentemente de quem governe?

Essa é uma mudança radical de pergunta.


9. A TRANSFORMAÇÃO NÃO PODE SER APENAS POLÍTICA

Se o Brasil quiser realmente romper com sua herança, terá de compreender uma coisa simples e difícil:

trocar o governo não é transformar a estrutura.

Uma eleição pode mudar o presidente.

Uma reforma pode mudar uma lei.

Uma política pública pode mudar uma estatística.

Mas transformação histórica exige continuidade.

Exige instituições.

Exige educação.

Exige planejamento.

Exige pacto social.

Exige capacidade de esperar.

E talvez esta seja uma das maiores deficiências brasileiras:

o país frequentemente deseja resultados imediatos para problemas construídos durante séculos.

Quer resolver a educação em quatro anos.

A desigualdade em um mandato.

A violência em uma operação policial.

A pobreza em um programa.

A corrupção com prisões.

O desenvolvimento com uma obra.

A política com um salvador.

Mas sociedades não se transformam assim.

A História não aceita atalhos.


10. A REFORMA MAIS IMPORTANTE

Talvez a transformação brasileira precise começar pela educação.

Não porque a educação seja uma palavra mágica.

Mas porque ela é a infraestrutura invisível da cidadania.

Uma criança que nasce numa família pobre não deveria precisar de heroísmo para escapar da pobreza.

Precisaria apenas encontrar uma sociedade que lhe oferecesse oportunidades.

Uma escola pública de qualidade.

Alimentação adequada.

Saúde.

Segurança.

Biblioteca.

Internet.

Professor valorizado.

Ambiente cultural.

Acesso à universidade ou à formação profissional.

E, sobretudo, tempo para aprender.

A verdadeira revolução social brasileira talvez seja esta:

fazer com que o nascimento deixe de determinar tão fortemente o destino.

Isso atingiria as cinco forças simultaneamente.

Mudaria o trabalho.

Mudaria a distribuição da riqueza.

Mudaria o poder.

Mudaria a cidadania.

E, indiretamente, mudaria até a relação com a terra, porque uma população mais educada possui mais capacidade de compreender território, sustentabilidade, tecnologia e produção.


11. O BRASIL PRECISA DE UMA NOVA IDEIA DE DESENVOLVIMENTO

Durante muito tempo, desenvolvimento significou crescimento.

Depois significou industrialização.

Depois modernização.

Depois estabilidade.

Depois inclusão.

Agora precisamos de uma ideia mais complexa.

Desenvolvimento deveria significar:

aumentar a capacidade de escolha das pessoas.

Uma criança que não precisa abandonar a escola para trabalhar possui mais liberdade.

Uma mulher que pode viver sem depender economicamente de alguém possui mais liberdade.

Um trabalhador que possui direitos possui mais liberdade.

Uma família que não teme a fome possui mais liberdade.

Uma pessoa que tem acesso à saúde possui mais liberdade.

Um jovem que pode escolher entre universidade, formação técnica ou empreendedorismo possui mais liberdade.

Uma sociedade que não precisa escolher entre crescimento econômico e preservação ambiental possui mais liberdade.

Desenvolvimento, portanto, não é simplesmente produzir mais.

É ampliar a liberdade real de viver uma vida digna.


12. O BRASIL NÃO PRECISA DE UM NOVO SALVADOR

Talvez a última grande tentação brasileira seja procurar novamente um personagem.

Um homem forte.

Um líder providencial.

Um presidente capaz de “colocar o país nos trilhos”.

A história brasileira já conheceu essa promessa muitas vezes.

O imperador.

O marechal.

O ditador.

O pai dos pobres.

O presidente desenvolvimentista.

O líder sindical.

O reformador.

O outsider.

O salvador moral.

Cada época inventou seu personagem.

Mas a maturidade política começa quando uma sociedade percebe que não precisa de heróis para funcionar.

Precisa de instituições.

Precisa de cidadãos.

Precisa de educação.

Precisa de regras.

Precisa de confiança.

Precisa de responsabilidade.

Precisa de tempo.

A democracia madura é justamente aquela que consegue sobreviver à ausência de grandes homens.


13. E SE O BRASIL MUDASSE DE PERGUNTA?

Talvez o Brasil tenha passado séculos perguntando:

quem manda?

Depois perguntou:

quem governa?

Depois:

qual regime é melhor?

Depois:

qual presidente pode nos salvar?

Talvez esteja na hora de perguntar outra coisa:

como construir uma sociedade na qual ninguém precise ser salvo?

A pergunta muda tudo.

Porque desloca a esperança do indivíduo para a estrutura.

Do salvador para a instituição.

Da promessa para o direito.

Do favor para a cidadania.

Do improviso para o planejamento.

Da dependência para a autonomia.

Da concentração para a distribuição.

Do privilégio para a igualdade de oportunidades.

Talvez esse seja o verdadeiro salto histórico.


14. O BRASIL QUE AINDA NÃO EXISTE

O Brasil futuro não precisaria ser uma utopia.

Não precisaria tornar-se uma sociedade sem conflito.

Nem uma sociedade perfeitamente igual.

Isso seria impossível.

Toda sociedade humana produz interesses divergentes.

O objetivo não é eliminar o conflito.

É impedir que o conflito seja resolvido pela dominação.

O Brasil poderia continuar sendo contraditório.

Mas suas contradições poderiam deixar de ser estruturalmente injustas.

Poderia existir riqueza sem miséria.

Mercado sem abandono.

Estado sem autoritarismo.

Propriedade sem concentração absoluta.

Liberdade sem desigualdade extrema.

Democracia sem guerra permanente.

Desenvolvimento sem destruição ambiental.

Tecnologia sem desumanização.

Crescimento sem exclusão.

Essa seria uma transformação muito maior que a simples troca de governos.

Seria uma mudança na própria arquitetura moral da sociedade.


15. A ÚLTIMA PERGUNTA

Depois de percorrer engenhos, senzalas, palácios, quartéis, fábricas, assembleias, ruas, eleições e redes sociais, talvez possamos finalmente retornar ao início.

O Brasil não nasceu pronto.

Nunca terminou de nascer.

A Independência não o completou.

A República não o completou.

A industrialização não o completou.

A democracia não o completou.

A Constituição de 1988 não o completou.

A inclusão social não o completou.

Nenhuma geração recebeu o país pronto.

Cada geração recebeu uma estrutura e decidiu o que fazer com ela.

Talvez essa seja a verdadeira liberdade histórica:

não escolher de onde viemos, mas escolher o que faremos com aquilo que herdamos.

O Brasil herdou a escravidão.

Mas não precisa herdar sua lógica.

Herdou a concentração da terra.

Mas não precisa perpetuá-la.

Herdou a desigualdade.

Mas não precisa aceitá-la como natureza.

Herdou o patrimonialismo.

Mas pode construir instituições mais impessoais.

Herdou a violência.

Mas pode produzir segurança sem brutalidade.

Herdou a exclusão.

Mas pode transformar cidadania formal em cidadania real.

Herdou a desigualdade de oportunidades.

Mas pode fazer do nascimento um ponto de partida, não uma sentença.

A História não precisa repetir-se.

Mas também não se transforma apenas porque desejamos.

É necessário transformar as relações que a reproduzem.

Terra.

Que produza riqueza sem produzir submissão.

Trabalho.

Que produza autonomia, não apenas sobrevivência.

Riqueza.

Que seja produzida e distribuída de modo a ampliar oportunidades.

Poder.

Que seja limitado, transparente e democraticamente controlado.

Cidadania.

Que deixe de ser apenas direito escrito e se torne experiência concreta.

Talvez seja isso que o Brasil ainda precise aprender:

que democracia não é simplesmente escolher quem governa.

É construir uma sociedade na qual o poder de decidir sobre a própria vida não seja privilégio de poucos.


EPÍLOGO

O PAÍS QUE AINDA ESTÁ CHEGANDO

Talvez o Brasil seja um país condenado a começar novamente.

Cada geração acredita estar diante de um novo começo.

A Independência.

A República.










Mas talvez todos esses começos tenham sido apenas capítulos de uma história maior.

A história de uma sociedade tentando descobrir o que fazer com uma herança pesada.

A pergunta, então, não é se o Brasil conseguirá finalmente tornar-se aquilo que imaginou ser.

Talvez nenhum país se torne completamente aquilo que imagina.

A pergunta é mais modesta.

E mais difícil:

poderá a próxima geração receber um país menos desigual do que aquele que recebemos?

Se puder, alguma coisa terá mudado.

Se uma criança nascida na periferia puder chegar à universidade sem precisar vencer uma batalha extraordinária.

Se o filho do trabalhador puder escolher sua profissão sem que a pobreza escolha por ele.

Se a filha do agricultor puder permanecer na terra sem ser condenada à pobreza.

Se o trabalhador puder envelhecer sem medo.

Se a riqueza puder ser produzida sem destruir o ambiente.

Se a política puder ser exercida sem transformar adversários em inimigos.

Se o Estado puder ser forte sem ser autoritário.

Se o mercado puder ser livre sem transformar a liberdade em privilégio.

Se a democracia puder sobreviver à derrota de qualquer partido.

Se um presidente puder perder uma eleição e entregar o poder sem transformar a derrota em catástrofe.

Então talvez alguma coisa essencial tenha começado a mudar.

Não porque o Brasil terá finalmente encontrado seu destino.

Mas porque terá aprendido que um país não possui destino; possui escolhas.

E talvez seja essa a última verdade que a História brasileira nos oferece.

O país não está condenado ao passado.

Mas também não será salvo pelo futuro.

O futuro será aquilo que fizermos com a herança que recebemos.

O engenho ainda está dentro da República.

A senzala ainda está dentro da desigualdade.

O coronel ainda sobrevive em certas formas de poder.

A fábrica ainda está dentro do trabalhador.

O quartel ainda assombra a democracia.

A Constituição ainda espera ser cumprida.

A riqueza ainda procura justiça.

A cidadania ainda procura igualdade.

E o Brasil, depois de tantos séculos, continua diante da mesma tarefa:

transformar a herança em escolha.

Talvez seja esse o momento em que um país começa, finalmente, a chegar a si mesmo.

Esse capítulo pode funcionar como a verdadeira síntese filosófica do livro, porque não encerra a História do Brasil — encerra a interpretação construída pelo livro. E deixa uma tese muito forte: o problema brasileiro não é simplesmente a sucessão de maus governantes, mas a persistência de relações estruturais que permitem que diferentes personagens reproduzam, sob novas linguagens, antigas assimetrias de poder.

A partir daí, eu faria ainda um último movimento editorial: um “Posfácio — A Cara do Brasil: cinco séculos, cinco forças”, curto e muito concentrado, no qual terra, trabalho, riqueza, poder e cidadania seriam condensados em cinco páginas finais, quase como uma chave de leitura deixada ao leitor. Isso daria ao livro uma arquitetura circular: o prólogo pergunta por que o país ainda não chegou a si mesmo; o último capítulo pergunta o que precisa mudar; o posfácio deixa a resposta aberta para o futuro.

E deixa uma tese muito forte: o problema brasileiro não é simplesmente a sucessão de maus governantes, mas a persistência de relações estruturais que permitem que diferentes personagens reproduzam, sob novas linguagens, antigas assimetrias de poder. A partir daí, eu faria ainda um último movimento editorial: um “Posfácio — A Cara do Brasil: cinco séculos, cinco forças”, curto e muito concentrado, no qual terra, trabalho, riqueza, poder e cidadania seriam condensados em cinco páginas finais, quase como uma chave de leitura deixada ao leitor. Isso daria ao livro uma arquitetura circular: o prólogo pergunta por que o país ainda não chegou a si mesmo; o último capítulo pergunta o que precisa mudar; o posfácio deixa a resposta aberta para o futuro.

Sim. E eu faria desse Posfácio algo diferente de uma conclusão acadêmica. Depois da longa narrativa histórica, ele deve funcionar como uma espécie de última lente: cinco movimentos curtos, cada um retomando uma força e mostrando que nenhuma delas existe isoladamente.

O mais importante é preservar a tese que o livro alcançou: o Brasil não é vítima de uma maldição histórica, nem simplesmente de seus maus governantes. Ele é resultado de relações históricas que sobreviveram à troca dos governantes. O futuro começa quando essas relações deixam de parecer naturais.

POSFÁCIO

A CARA DO BRASIL

Cinco séculos, cinco forças

Chegamos ao fim.

Mas talvez o fim seja justamente o lugar inadequado para terminar este livro.

Porque a história brasileira não terminou.

O Brasil continua acontecendo.

Continua produzindo riqueza e pobreza, esperança e frustração, democracia e conflito, modernidade e atraso. Continua elegendo homens e mulheres que prometem romper com o passado e, muitas vezes, acabam governando dentro das mesmas estruturas que receberam.

Talvez seja essa a imagem mais persistente de nossa história:

mudam os personagens; permanecem certas relações.

O imperador foi embora.

Vieram os marechais.

Depois os presidentes.

Vieram os coronéis, os bacharéis, os militares, os empresários, os sindicalistas, os intelectuais, os outsiders, os líderes populares.

Mudaram os discursos.

Mudaram as bandeiras.

Mudaram as constituições.

Mudaram as moedas.

Mudaram as palavras usadas para explicar o país.

Mas cinco forças continuaram atravessando a história brasileira.

Terra.

Trabalho.

Riqueza.

Poder.

Cidadania.

Talvez a cara do Brasil esteja justamente na maneira como essas cinco forças se relacionam.


I

TERRA

O território como destino

Tudo começou pela terra.

Antes da República.

Antes do Império.

Antes da Independência.

Antes mesmo de existir uma nacionalidade brasileira.

A terra já estava aqui.

Mas a terra não foi distribuída apenas como território.

Foi distribuída como poder.

A colonização organizou a propriedade, a produção e a autoridade em torno de grandes unidades econômicas.

O engenho não era somente uma fábrica de açúcar.

Era uma pequena ordem social.

Ali se produzia riqueza.

Mas também se produziam hierarquias.

O proprietário possuía a terra.

Outros possuíam apenas a força de seus corpos.

A escravidão tornou essa desigualdade extrema.

A abolição libertou pessoas.

Mas não redistribuiu a estrutura econômica que havia sido construída sobre o trabalho escravizado.

Essa ausência atravessou a República.

A terra continuou concentrada.

O coronelismo nasceu de uma sociedade rural na qual propriedade e autoridade se confundiam.

A industrialização deslocou parte da população para as cidades.

Mas não eliminou a concentração fundiária.

O agronegócio modernizou-se.

A tecnologia chegou ao campo.

A produtividade aumentou.

O Brasil tornou-se potência agrícola.

Mas a pergunta permaneceu.

Quem possui a terra?

E, mais profundamente:

quem possui o poder que a terra produz?

Essa é uma pergunta que ainda não envelheceu.

Porque terra é alimento.

É patrimônio.

É território.

É moradia.

É ambiente.

É investimento.

É poder.

No Brasil, a terra nunca foi apenas uma questão econômica.

Foi uma questão política.

E talvez ainda seja.


II

TRABALHO

O corpo que construiu o país

Se a terra foi o primeiro grande patrimônio brasileiro, o trabalho foi a força que a transformou em riqueza.

Durante séculos, esse trabalho foi escravizado.

Milhões de homens e mulheres trabalharam sem liberdade, sem remuneração, sem cidadania e sem reconhecimento.

A escravidão não foi um episódio.

Foi uma instituição.

E uma instituição tão longa não desaparece inteiramente no momento em que a lei a extingue.

Ela deixa marcas.

Na renda.

Na educação.

Na propriedade.

Na ocupação das cidades.

Na estrutura racial.

Nas oportunidades.

Nas formas de violência.

Na maneira como uma sociedade aprende a olhar para quem trabalha.

Depois veio a industrialização.

Vieram as fábricas.

Os sindicatos.

As greves.

Getúlio Vargas.

A legislação trabalhista.

A carteira assinada.

O salário mínimo.

A previdência.

O trabalhador entrou na política nacional.

Mas o trabalho continuou desigual.

Havia trabalhadores protegidos e trabalhadores invisíveis.

Urbanos e rurais.

Formais e informais.

Homens e mulheres.

Trabalhadores domésticos e industriais.

A Constituição de 1988 ampliou direitos.

Depois chegaram a globalização, a terceirização, a automação, a economia de serviços, as plataformas digitais.

O trabalho novamente mudou.

Hoje, uma pessoa pode trabalhar para uma empresa que não conhece, por meio de um aplicativo que determina seu ritmo, em um mercado que pode atravessar continentes.

A antiga fábrica tornou-se invisível.

Mas a questão permanece:

quem controla o trabalho?

E outra, ainda mais importante:

quem fica com os ganhos da produtividade?

Talvez o futuro do trabalho seja uma das grandes fronteiras da democracia.

Porque uma sociedade pode ter tecnologia extraordinária e continuar socialmente injusta.

A inteligência artificial pode produzir mais riqueza.

A automação pode reduzir tarefas penosas.

A tecnologia pode libertar pessoas.

Mas isso só acontecerá se os ganhos da tecnologia forem socialmente compartilhados.

Caso contrário, a máquina apenas mudará o proprietário da riqueza.

O problema nunca foi o trabalho.

Foi a relação entre trabalho e poder.


III

RIQUEZA

O país que aprendeu a produzir, mas não a repartir suficientemente

O Brasil nunca foi simplesmente pobre.

Essa talvez seja uma das maiores ironias de sua história.

Possuiu terra.

Minérios.

Florestas.

Água.

Petróleo.

Agricultura.

Indústria.

Energia.

Mercado interno.

População numerosa.

Recursos naturais extraordinários.

O problema nunca foi apenas produzir riqueza.

Foi decidir como a riqueza produzida seria distribuída.

Desde o engenho, uma pequena parcela controlava grande parte do excedente.

A industrialização ampliou a produção.

O Estado desenvolvimentista criou infraestrutura.

A urbanização criou mercados.

A democracia ampliou direitos.

O Plano Real estabilizou a moeda.

Os governos do século XXI reduziram pobreza e desigualdade de renda em medida importante.

Mas a concentração patrimonial permaneceu profunda.

E patrimônio não é simplesmente renda.

Renda paga o presente.

Patrimônio organiza o futuro.

Quem possui patrimônio pode esperar.

Pode investir.

Pode perder e tentar novamente.

Pode financiar a educação dos filhos.

Pode suportar uma crise.

Pode transferir vantagens para a geração seguinte.

Quem não possui patrimônio precisa começar quase sempre do zero.

É aí que a desigualdade deixa de ser apenas diferença entre ricos e pobres.

Transforma-se em diferença de possibilidades.

O Brasil precisa, portanto, aprender uma coisa que ainda não aprendeu completamente:

crescimento econômico e justiça distributiva não são inimigos.

Uma sociedade não precisa escolher entre produzir riqueza e distribuí-la.

Precisa produzir riqueza de maneira que a distribuição de oportunidades acompanhe sua produção.

Isso significa discutir impostos.

Patrimônio.

Herança.

Educação.

Saúde.

Crédito.

Habitação.

Infraestrutura.

Ciência.

Tecnologia.

Mas significa também discutir uma ideia ainda mais profunda:

que tipo de riqueza queremos produzir?

Uma riqueza que destrói o território?

Que concentra oportunidades?

Que depende de trabalho precário?

Ou uma riqueza capaz de ampliar a autonomia humana?

Essa escolha será decisiva para o Brasil do futuro.


IV

PODER

A longa permanência do mando

A quarta força talvez seja a mais resistente.

O poder.

O Brasil mudou de regime várias vezes.

Mas raramente mudou inteiramente a distribuição do poder.

O Império terminou.

A República chegou.

Mas as elites continuaram influentes.

A República Velha caiu.

Vargas chegou.

O Estado se fortaleceu.

A ditadura veio.

A democracia voltou.

A Constituição de 1988 ampliou direitos.

Mas o poder econômico continuou tendo enorme capacidade de influência.

A política brasileira aprendeu a votar.

Mas ainda precisou aprender a negociar.

O presidencialismo de coalizão tornou-se mecanismo permanente.

O Congresso tornou-se indispensável.

O Judiciário ganhou protagonismo.

Os meios de comunicação passaram a disputar a agenda pública.

As redes sociais transformaram cada cidadão em potencial produtor de informação.

O poder se fragmentou.

Mas fragmentação não significa necessariamente democratização.

Pode significar apenas que existem mais centros de poder.

A questão fundamental permanece:

quem consegue transformar sua vontade em decisão coletiva?

Essa talvez seja a pergunta política mais importante do Brasil.

Porque democracia não é apenas contar votos.

É impedir que dinheiro, força, privilégio, posição institucional ou capacidade de comunicação sejam capazes de substituir permanentemente a vontade coletiva.

O poder democrático precisa ser forte.

Mas também precisa ser controlado.

O Executivo precisa governar.

O Legislativo precisa legislar e fiscalizar.

O Judiciário precisa garantir direitos.

A imprensa precisa ser livre.

As empresas precisam produzir.

Os sindicatos precisam representar.

Os movimentos sociais precisam reivindicar.

Os cidadãos precisam participar.

Mas nenhum desses poderes pode transformar-se no dono da República.

Talvez a democracia amadureça justamente quando a sociedade deixa de perguntar:

quem é o homem forte?

E começa a perguntar:

quais são os limites de qualquer homem, qualquer partido, qualquer instituição?

A democracia não precisa de salvadores.

Precisa de freios.

Precisa de equilíbrio.

Precisa de instituições.

Precisa de cidadãos.


V

CIDADANIA

A força que ainda pode mudar todas as outras

E chegamos à quinta força.

Talvez a mais nova.

Talvez a mais frágil.

Talvez a mais poderosa.

A cidadania.

Durante séculos, o brasileiro comum foi mais objeto da história que sujeito dela.

Trabalhava.

Pagava.

Obedecia.

Era recrutado.

Era tributado.

Era governado.

Mas nem sempre podia decidir.

A República ampliou formalmente a cidadania.

A Constituição de 1988 ampliou-a enormemente.

O voto universal tornou-se realidade.

Direitos sociais foram constitucionalizados.

O SUS nasceu.

A educação foi reconhecida como direito.

A assistência social ganhou estrutura.

Os movimentos sociais ganharam espaço.

As mulheres ampliaram sua participação.

A população negra fortaleceu sua luta por reconhecimento e igualdade.

Novos grupos passaram a exigir voz.

A cidadania brasileira cresceu.

Mas aqui está a contradição:

a cidadania cresceu mais rapidamente do que a igualdade.

Todos podem votar.

Mas nem todos possuem as mesmas condições de vida.

Todos são formalmente iguais.

Mas não possuem as mesmas oportunidades.

Todos têm direito à saúde.

Mas não recebem necessariamente o mesmo cuidado.

Todos têm direito à educação.

Mas não frequentam escolas equivalentes.

Todos podem disputar o futuro.

Mas alguns nascem muito mais próximos dele.

É aqui que a cidadania encontra as outras quatro forças.

A cidadania precisa transformar a terra.

Precisa transformar o trabalho.

Precisa transformar a distribuição da riqueza.

Precisa limitar o poder.

Porque cidadania sem poder efetivo é apenas formalidade.

E cidadania sem igualdade de oportunidades corre o risco de transformar a democracia numa cerimônia.


VI

AS CINCO FORÇAS

O mesmo país visto de cinco ângulos

Terra.

Trabalho.

Riqueza.

Poder.

Cidadania.

Podemos agora perceber que nunca foram capítulos separados.

Sempre foram um único sistema.

A terra produziu riqueza.

A riqueza produziu poder.

O poder organizou o trabalho.

O trabalho produziu riqueza.

A riqueza financiou influência.

A influência alterou as regras.

As regras determinaram quem teria cidadania efetiva.

E aqueles que ficaram fora desse circuito precisaram lutar para entrar.

Essa é talvez a engrenagem profunda do Brasil.

Ela explica por que a abolição não bastou.

Por que a República não bastou.

Por que a industrialização não bastou.

Por que a democracia não bastou.

Por que a Constituição não bastou.

Por que a inclusão social não bastou.

Cada transformação modificou uma parte.

Mas nenhuma conseguiu alterar simultaneamente as cinco.

Talvez seja essa a tarefa que permanece.


VII

O QUE PRECISA MUDAR?

Talvez a resposta agora possa ser formulada.

O Brasil não precisa apenas trocar governos.

Precisa alterar relações.

Não basta mudar quem ocupa o poder.

É preciso mudar a maneira como o poder circula.

Não basta aumentar a renda.

É preciso ampliar oportunidades.

Não basta produzir riqueza.

É preciso democratizar suas possibilidades.

Não basta possuir uma Constituição avançada.

É preciso fazer com que seus direitos existam na vida cotidiana.

Não basta combater a pobreza.

É preciso combater a reprodução da pobreza.

Não basta crescimento.

É preciso desenvolvimento.

Não basta democracia eleitoral.

É preciso democracia social.

Não basta igualdade perante a lei.

É preciso igualdade de possibilidades diante da vida.

E talvez aqui esteja a tese fundamental deste livro:

o problema brasileiro não é simplesmente a sucessão de maus governantes.

É a permanência de relações estruturais que permitem que diferentes governantes, mesmo quando sinceramente desejam mudar o país, encontrem-se diante das mesmas engrenagens.

Mudam os nomes.

Mudam as ideologias.

Mudam os partidos.

Mudam as palavras.

Mas a estrutura continua oferecendo caminhos conhecidos.

A história muda de personagens.

E muitas vezes conserva o enredo.


VIII

A HISTÓRIA PODE MUDAR O ENREDO?

Pode.

Mas somente se a sociedade compreender que transformação histórica não é um ato.

É um processo.

Não acontece numa eleição.

Não cabe num mandato.

Não depende de um líder.

Não acontece por decreto.

Uma transformação profunda exigiria décadas de continuidade.

Educação.

Ciência.

Planejamento.

Instituições.

Redistribuição de oportunidades.

Reforma tributária justa.

Infraestrutura.

Proteção ambiental.

Trabalho digno.

Políticas sociais.

Responsabilidade fiscal.

Desenvolvimento regional.

Fortalecimento democrático.

E uma cultura política capaz de compreender que o adversário não é necessariamente um inimigo.

Talvez a grande revolução brasileira não seja escolher melhor entre direita e esquerda.

Seja conseguir construir uma sociedade na qual direita e esquerda possam alternar-se no poder sem que cada alternância pareça uma ameaça à própria existência do país.

Essa seria uma democracia adulta.

Uma democracia que não precisa destruir o adversário para sobreviver.


IX

O PAÍS QUE AINDA NÃO CHEGOU

No início deste livro, havia uma pergunta:

por que o Brasil ainda não terminou de chegar a si mesmo?

Agora talvez possamos responder.

Porque o Brasil sempre esteve dividido entre aquilo que conseguiu construir e aquilo que não conseguiu superar.

É moderno e arcaico.

Rico e desigual.

Democrático e hierárquico.

Livre e dependente.

Tecnológico e precário.

Constitucional e injusto.

Plural e intolerante.

Generoso e violento.

Capaz de produzir riqueza extraordinária e incapaz, muitas vezes, de distribuí-la com a mesma extraordinária eficiência.

Mas talvez essa contradição não seja uma sentença.

Pode ser um ponto de partida.

O Brasil não precisa apagar sua história.

Precisa compreendê-la.

Não precisa negar sua herança.

Precisa deixar de confundi-la com destino.

A escravidão pertence ao passado.

Mas suas consequências pertencem ao presente.

O coronelismo pertence ao passado.

Mas algumas formas de mando ainda sobrevivem.

O patrimonialismo pertence ao passado.

Mas a confusão entre público e privado ainda reaparece.

A desigualdade histórica pertence ao passado.

Mas seus efeitos continuam organizando o presente.

Conhecer a história, portanto, não é olhar para trás.

É descobrir aquilo que ainda está acontecendo.


X

CINCO SÉCULOS DEPOIS

Talvez o Brasil esteja finalmente diante de uma escolha que suas gerações anteriores não puderam fazer.

Não entre este ou aquele presidente.

Não entre este ou aquele partido.

Não entre este ou aquele modelo econômico.

Mas entre duas maneiras de continuar sua história.

Uma delas é continuar substituindo personagens.

Trocar governos.

Trocar discursos.

Trocar bandeiras.

Trocar culpados.

Esperar o próximo salvador.

E preservar, por baixo de tudo, as mesmas relações.

A outra é mais difícil.

É transformar as próprias relações.

Fazer da terra uma fonte de produção sem que ela seja instrumento permanente de dominação.

Fazer do trabalho uma fonte de dignidade.

Fazer da riqueza uma força de desenvolvimento coletivo.

Fazer do poder algo limitado, transparente e responsável.

Fazer da cidadania uma experiência real.

Talvez seja isso que significa finalmente chegar a si mesmo.

Não descobrir uma essência brasileira escondida.

Mas construir uma sociedade capaz de escolher conscientemente o que deseja ser.


XI

E O FUTURO?

O futuro não responderá por nós.

Nenhum país possui destino escrito.

Nenhuma sociedade está condenada eternamente ao passado.

Mas nenhuma sociedade também escapa do passado simplesmente porque deseja.

O futuro nasce da disputa entre herança e escolha.

É por isso que as cinco forças continuam diante de nós.

A terra.

O trabalho.

A riqueza.

O poder.

A cidadania.

Elas não desaparecerão.

A questão será saber como organizá-las.

A terra poderá produzir sem destruir.

O trabalho poderá libertar sem explorar.

A riqueza poderá crescer sem concentrar de maneira intolerável.

O poder poderá existir sem dominar.

A cidadania poderá tornar-se suficientemente forte para controlar as outras quatro forças.

Talvez esse seja o verdadeiro ponto de inflexão.

Porque, se a cidadania conseguir controlar o poder;

se o poder conseguir regular a riqueza;

se a riqueza puder ser convertida em oportunidades;

se o trabalho puder participar dos frutos do desenvolvimento;

e se a terra puder ser utilizada como patrimônio econômico, social e ambiental,

então talvez as cinco forças deixem de funcionar como engrenagens da desigualdade e passem a funcionar como fundamentos de uma civilização democrática.

Esse talvez seja o Brasil que ainda não existe.

Mas que pode existir.


ÚLTIMA PÁGINA

Talvez o Brasil tenha passado cinco séculos procurando seu rosto.

Procurou-o no imperador.

Na República.

No general.

No presidente.

No operário.

No intelectual.

No empresário.

No partido.

Na Constituição.

No mercado.

No Estado.

Nas ruas.

Nas urnas.

Nas redes.

E talvez tenha procurado no lugar errado.

Porque um país não possui uma única cara.

Possui muitas.

A do engenho.

A da senzala.

A da fábrica.

A do sertão.

A da favela.

A da universidade.

A do campo.

A da periferia.

A do palácio.

A da rua.

A do trabalhador.

A do empresário.

A da mulher.

A do negro.

A do indígena.

A do migrante.

A do jovem.

A do velho.

A do rico.

A do pobre.

Todas essas caras são o Brasil.

E talvez a tarefa de uma democracia não seja escolher qual delas representa o país.

Seja fazer com que nenhuma delas precise desaparecer para que as outras possam existir.

O Brasil não precisa finalmente descobrir quem é.

Precisa tornar-se capaz de permitir que todos os seus rostos possam existir com dignidade.

Talvez então possamos retornar à primeira frase deste livro:

O país chegou ao presente sem terminar de chegar a si mesmo.

E agora podemos acrescentar:

chegar a si mesmo não será descobrir um destino.

Será construir, pela primeira vez, um futuro que não seja apenas a repetição do passado.

Esse posfácio fecha a arquitetura circular com bastante precisão: o Prólogo pergunta por que o Brasil ainda não chegou a si mesmo; a narrativa demonstra historicamente por quê; o último capítulo pergunta o que precisaria mudar; e o Posfácio transforma a resposta em cinco forças e devolve ao leitor a responsabilidade pelo futuro.

A meu ver, isso dá a A CARA DO BRASIL uma tese central bastante original: a verdadeira continuidade da história brasileira não está na continuidade dos governos, mas na capacidade de antigas relações de poder sobreviverem às mudanças de regime, de ideologia e de personagens.


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