UM MENINO ACIMA DA MÉDIA E UM HOMEM FORA DO LUGAR

  

UM MENINO ACIMA DA MÉDIA E UM HOMEM FORA DO LUGAR

Cansado das discussões vazias, travestidas de profundidade. Cansado das disputas por reconhecimento. Cansado de perceber que muitos falavam sobre a existência, sem jamais realmente observar a vida.

Foi então para a antiga chácara da família, localizada no interior, distante da cidade e dos corredores universitários. O lugar permanecia quase abandonado, desde a morte do avô.                                                                Havia uma casa simples de alpendre largo, um açude antigo, precisando de alguns reparos, árvores de cajueiro, algumas mangueiras e longos silêncios, interrompidos apenas pelo vento no farfalhar das folhagens, e pelo canto dos pássaros.

Nos primeiros meses, Heleno viveu isolado.  A solidão assim, nunca experimentada em sua vida, relativamente agitada e cheia de ocupações de diversas ordens, bateu forte na inexistente rotina, subitamente vazia.  Heleno sentiu a urgência de organizar a nova forma de olhar e passar as horas, de propor um novo ritmo, um novo compasso no espaço, que aparentemente, se mostrava ocioso.

Acordava cedo, caminhava pelos arredores e passava horas lendo à sombra das árvores. À noite, observava o céu com uma espécie de reverência silenciosa. Pela primeira vez se deu conta do infinito e das miríades de estrelas.  Também, pela primeira vez, se deu conta da finitude da vida, fnora das filosofias, das metafísicas... A finitude da vida espantada, com o infinito de um universo estranho e desconhecido.                                            Não era a razão, falando do tempo, da evolução, da História...  Era o vago sentimento de uma percepção nascida da estupefação do cosmos, não mais como uma teoria, mas como certeza percebida pelas perdas inúmeras que sofrera.  Não se tratava do estoico Sêneca, do seu discurso filosófico sobre a brevidade da vida... Era s sua experiência existencial, sentado numa cadeira na varanda, mergulhado na solidão e na escuridão da noite, só com seus pensamentos. Ali adormeceu.  Acordou madrugada alta.  E recolheu-se.

Aos poucos, porém, começou a notar algo estranho: o silêncio do campo não era vazio como imaginava. Havia vida nele. 

Uma vida diferente daquela que conhecera na cidade. Uma vida que não se projetava para fora. Uma vida que se interiorizava, e que exige um modo de olhar para dentro de si, incompatível com a vida citadina, em que não nos damos conta, de que há um sujeito morando no subjetivo, habitando as dobras ocultas do silêncio interior.

Caminhando pelos arredores, conheceu seu Anselmo, um agricultor de mãos endurecidas pelo trabalho e olhar tranquilo. O velho costumava passar diante da chácara, conduzindo um pequeno carro de mão cheio de ferramentas.

Numa tarde, vendo Heleno sentado sozinho perto da cerca, perguntou:

— O senhor pensa muito, né?

Heleno sorriu discretamente.

— Talvez mais do que deveria.

Anselmo apoiou os braços na cerca.

— Pensar demais é igual enxada sem cabo. A gente até tem ferramenta, mas não consegue usar direito.

mario moura  do livro                                                                                  Pequenas histórias sem testemunhas

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