AINDA ESTOU AQUI (NOVELA ORIGINAL, ainda sem revisão)
Escrever um conto, narrando o acidente, núcleo da narrativa, partir da descrição seginte.Um pequena locução, provocava um sentimento profundo em Alfredo Quinto, e era inevitável, seus olhos marejarem. Essa locução, trazia à memória de Alfredo, um dos momentos mais significativos de toda a sua vida:"ainda estou aqui!". Curta, quase inaudível, mas carrega uma emoção intraduzível em qualquer idioma. Mas o que ela significa, enfim? O que ela traduz, humanamente falando, que pode abalar Alfredo de modo tão profundo? Essa é a história que vou contar. Meu nome é Frederido, Frederico Alvarez. Sou um dos poucos amigos de Alfredo, para falar a verdade, um dos dois que ele honra com sua fiel amizade. Fique claro, inicialmente, que o que vou narrar, tem o aval do Alfredo, pois nada diria sem que ele primeiramente, permitisse. Uma questão de fidelidade e respeitosa privacidade alheia. Alfredo sofrera uma acidente de trabalho, que o deixará profundamente abalado, pois perdera um membro, a perna, que tivera que ser amputada, pois fora esmagada pela carga de um caminhão que tombara, e causara mortes e danos graves em diversos operários. Alfredo era engenheiro, e fora uma das vítimas. Mas o que importa contar, não é sobre o acidente. Isso as manchetes de jornais já haviam noticiado à farta. O que vou narrar, fala de Alfredo, dos seus sentimentos após a tragédia, e os acontecimentos que o cercaram e que fizeram dessa locução, que falei inicialmente, quase uma oração, que exprime amor, afetividade, solidariedade, apoio, compartilhamento de afeto, laços de amizade etc... Pois é! "Estou aqui!" ou "Ainda estou aqui!" não se traduz facilmente... Soma um complexo de emoções, um turbilhão confuso de sentimentos! Imaginemos, apenas para ilustrar, a condição de alguém abandonado pelas pessoas mais próximas, após um acidente grave, e alguém, fora do contexto afetivo do ferido, segura sua mão, o conforta, e com muita calma, como se advinhasse os sentimentos de dor, solidão e desespero, sussurra a expressão: "calma, estou aqui com você, e ficarei aqui!" Bem, chegamos ao sentido da expressão "estou aqui", e por que ela tocava tão profundamente o coração de Alfredo Quinto.
Desenvolver o conto a partir da ideia. Seguir a proposta de narrador em primeira pessoa (Frederico Alvarez), concentrando a narrativa não no acidente em si, mas no significado humano da expressão "Ainda estou aqui".
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AINDA ESTOU AQUI
Meu nome é Frederico Alvarez. Sou um dos poucos amigos de Alfredo Quinto. Para dizer a verdade, um dos dois homens a quem ele confia uma amizade que resistiu ao tempo, às distâncias e às provações da vida. O que vou contar tem seu consentimento. Não revelaria nada de sua intimidade sem sua autorização, porque a amizade verdadeira, também se mede pelo respeito ao silêncio e a privacidade.
Há uma pequena locução que, sempre que chega aos ouvidos de Alfredo, faz seus olhos se encherem de lágrimas. "Ainda estou aqui." São apenas três palavras. Curtas. Simples. Quase inaudíveis, quando pronunciadas em voz baixa. No entanto, carregam para ele, um peso emocional impossível de traduzir completamente. Quem as escuta pela primeira vez, talvez não compreenda. Eu mesmo não compreendia. Hoje, sim, compreendo seu sentimento.
Tudo começou há alguns anos, quando Alfredo sofreu um grave acidente de trabalho. Engenheiro experiente, coordenava uma operação de descarregamento em um canteiro industrial, quando uma carreta perdeu a estabilidade. O caminhão tombou. Houve gritos, correria, metal retorcido e toneladas de carga espalhadas pelo chão. Alguns operários morreram. Outros ficaram feridos. Alfredo sobreviveu. Mas sua perna esquerda foi esmagada sob o peso da carga.
Os médicos lutaram como puderam. Não houve alternativa. A amputação tornou-se inevitável. Os jornais noticiaram o acidente durante semanas. Fotografias, entrevistas, reportagens especiais, investigações, laudos técnicos. Tudo foi dito e repetido à exaustão. Mas a verdadeira história de Alfredo, nunca apareceu em manchete alguma. Porque ela começou depois. Muito depois.
Começou quando as visitas diminuíram. Quando os repórteres desapareceram. Quando os colegas voltaram às suas rotinas. Quando as mensagens de solidariedade se tornaram cada vez mais raras.
Começou, quando Alfredo passou a encarar longas horas de silêncio, dentro de um quarto de hospital. Foi ali que ele conheceu o verdadeiro peso da solidão. A dor física era intensa, mas suportável com medicamentos. O que o consumia era outra coisa. Era o medo. O medo de não voltar a trabalhar. O medo de depender dos outros. O medo de ser visto apenas, como um homem mutilado. O medo de que sua vida tivesse sido dividida em duas partes: antes e depois do acidente.
Certa noite, cheguei ao hospital depois das dez horas. O horário de visitas já havia terminado. Conhecia uma enfermeira antiga da família, e consegui entrar discretamente. Encontrei Alfredo acordado. A luz do quarto estava apagada. Ele olhava para a janela. Não para a paisagem. Mas para o reflexo de si mesmo no vidro escuro. Parecia um homem derrotado. Sentei-me ao lado da cama. Não disse nada. Ele também não. Passaram-se vários minutos. Até que, de repente, ouvi sua voz.
— Frederico... você acha que as pessoas ficam porque gostam da gente ou porque sentem pena?
A pergunta me atingiu como um soco. Não soube responder. Talvez porque eu mesmo, nunca tivesse pensado nisso. Talvez porque a pergunta fosse dolorosamente sincera. Segurei sua mão. Era tudo o que eu podia fazer. Então respondi:
— Não sei pelos outros. Mas eu estou aqui, porque você é meu amigo.
Ele fechou os olhos. Não falou mais nada. Mas percebi uma lágrima escorrendo por seu rosto. Naquela noite permaneci ali até o amanhecer.
Conversamos pouco. Em muitos momentos, ficamos apenas em silêncio. Antes de ir embora, inclinei-me para perto dele. E disse:
— Vou voltar amanhã.
Ele fez um gesto afirmativo. Quando já estava saindo pela porta, acrescentei:
— E depois de amanhã também. Ele me olhou sem entender. Sorri.
— Ainda estou aqui, Alfredo.
Naquele instante algo mudou. Não de forma dramática. Não houve discursos. Não houve revelações. Mas alguma coisa dentro dele pareceu encontrar apoio para continuar. Nos meses seguintes, a recuperação foi lenta. Difícil. Por vezes cruel. Houve dias em que ele queria desistir da fisioterapia. Dias em que se irritava com todos. Dias em que a revolta parecia maior do que a esperança. Mas, em cada uma dessas ocasiões, alguém aparecia.
Eu. Nosso outro amigo. Uma enfermeira. Um fisioterapeuta. Sua irmã.
E, de uma forma, ou de outra, a mesma mensagem era transmitida. Não exatamente com as mesmas palavras. Mas com o mesmo significado.
Estamos aqui. Você não está sozinho. Ainda estamos aqui.
Com o tempo, Alfredo compreendeu algo que o acidente lhe ensinara de maneira brutal. O amor nem sempre se manifesta em grandes gestos. As vezes ele chega, na forma de uma cadeira puxada para perto da cama. De uma mão segurando outra mão. De alguém que permanece, quando todos os motivos para permanecer, parecem ter acabado.
Hoje, muitos anos depois, Alfredo caminha com uma prótese. Voltou a trabalhar. Reconstruiu a vida. Ri com facilidade. Fala pouco sobre o acidente. Mas basta ouvir alguém dizer, em um contexto de afeto sincero:
— Ainda estou aqui.
E seus olhos imediatamente se enchem de lágrimas. Porque essas palavras, não falam apenas de presença. Falam de permanência. De lealdade. De amizade. De cuidado. De amor humano, em sua forma mais silenciosa. Elas significam:
"Quando a dor chegou, eu não fui embora." "Quando você acreditou que estava sozinho, eu permaneci." "Quando tudo parecia perdido, eu continuei ao seu lado."
Talvez seja por isso, que não exista tradução perfeita para essa pequena locução. Porque ela não pertence à linguagem. Pertence ao coração. E algumas verdades do coração, só podem ser compreendidas por quem, um dia, esteve à beira do desespero e ouviu alguém sussurrar:
— Calma. Ainda estou aqui.
Esse enredo tem potencial para se transformar em um conto mais longo e literário, aprofundando os dias de hospital, os personagens secundários e o momento exato em que a frase passa a ter um significado quase sagrado para Alfredo.
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