TEMA PARA DESENVOLVER O CONTO: "UM MENINO ACIMA DA MÉDIA E O HOMEM FORA DO LUGAR"

Escrever um conto sobre uma criança excepcional, cuja inteligência assobrava os adultos, sempre que a testavam com perguntas ou questões, com elevado grau de dificuldade.

UM MENINO ACIMA DA MÉDIA E O HOMEM FORA DO LUGAR

Os primeiros sinais foram registrados na escola, quando o professor notou que Heleno, se destacava pela precisão com que respondia às questões nas provas, muitas vezes apresentando respostas fora do padrão natural de crianças da sua idade.

Os pais foram alertados, apontando que Heleno precisava de mais atenção, pois sua inteligência estava fora da média normal dos seus coleguinhas.

Com o tempo, Heleno cresceu, entrou para a Universidade, onde cursou Filosofia, seguindo-se, posteriormente, seu interesse pelas novas tecnologias que  surgiam.  Os efeitos sociais de sua inteligência, criaram os primeiros problemas de convivência e adaptação com os colegas, que não entendiam o tratamento que dava às questóes culturais, políticas e filosóficas, dada a forma profunda como as abordava. E sobretudo, pelo fato de não participar dos eventos sociais próprios da idade. Apaixonado por Renata, mas cuja timidez o impedia aproximar-se e demonstrar seu interesse por ela.


UM MENINO ACIMA DA MÉDIA E O HOMEM FORA DO LUGAR 

Os primeiros sinais apareceram cedo, quando Heleno ainda mal alcançava a borda da carteira da escola. Tinha apenas sete anos, mas respondia às perguntas do professor com uma segurança desconcertante, como se as respostas já existissem prontas em algum lugar secreto da sua mente.

Na pequena escola do bairro, a professora Marta foi a primeira a perceber que havia algo incomum naquele menino magro, silencioso e de olhos sempre atentos.

Certa manhã, durante uma aula de ciências, ela decidiu brincar com a turma:

— Se a Terra gira tão rápido, por que nós não sentimos o movimento?

As crianças deram respostas confusas, algumas engraçadas. Um menino disse que era porque “o chão segurava a gente”. Outra falou que Deus mantinha tudo parado.

Heleno levantou a mão lentamente.

— Porque nós giramos junto com ela, professora. O movimento constante deixa de ser percebido. É parecido com estar dentro de um trem muito suave. Só percebemos quando existe mudança de velocidade.

A professora ficou imóvel por alguns segundos.

Não era apenas a resposta.

Era a forma.

A precisão.

A linguagem.

Ela recordava-se nitidamente do silêncio que tomou a sala naquele instante. Algumas crianças riram, sem entender completamente o que ele havia dito. Outras o olharam, como se fosse um estranho.

Depois daquele dia, Marta começou a observá-lo mais atentamente.

Nas provas, Heleno não apenas acertava as questões: frequentemente escrevia comentários adicionais, explicações que iam além do conteúdo exigido. Em uma redação sobre “o futuro”, escreveu:

“Talvez o maior problema da humanidade, não seja a falta de tecnologia, mas a incapacidade emocional de lidar com aquilo que ela cria.”

Tinha nove anos.

A professora levou o caderno à diretoria.

Os pais foram chamados.

Seu Álvaro e dona Celina chegaram preocupados, imaginando alguma travessura do filho. Encontraram, porém, professores confusos, quase fascinados.

O menino precisa de atenção especial — disse a diretora. — A inteligência dele, está muito acima da média das outras crianças.

A mãe sorriu, orgulhosa.

O pai permaneceu em silêncio.

No caminho para casa, perguntou ao menino:

— Como você aprende essas coisas?

Heleno olhou pela janela do carro antes de responder:

— Eu não sei. Só penso nelas.


Com o passar dos anos, a diferença entre Heleno e os demais tornou-se impossível de esconder.

Enquanto os colegas discutiam futebol, músicas ou festas, ele passava horas lendo filosofia, história, física teórica e sociologia.                                          Aos quinze anos já havia lido Platão, Nietzsche, Schopenhauer e Hannah Arendt.   Aos dezesseis, interessou-se pelas primeiras transformações tecnológicas, trazidas pela inteligência artificial e pelas redes digitais que começavam a modificar o comportamento humano.

Seu quarto parecia uma pequena biblioteca desorganizada.

Livros empilhados no chão.  Papéis anotados.  Fios de computadores antigos.  Monitores desmontados.

Anotações filosóficas misturadas a esquemas eletrônicos.

Mas a inteligência que impressionava os adultos, produzia um efeito estranho entre os jovens da sua idade.

Heleno não sabia conviver.  Ou talvez não conseguisse.

As conversas comuns lhe pareciam superficiais demais. Não por arrogância — embora muitos o acusassem disso —, mas porque seu pensamento avançava para lugares, onde os outros raramente desejavam ir.

Na universidade, onde ingressou muito cedo no curso de Filosofia, o isolamento aumentou.

Os professores admiravam sua capacidade analítica.  Os alunos o evitavam.

Em seminários, Heleno desmontava argumentos inteiros com uma tranquilidade desconcertante. Questionava teorias políticas, criticava modelos culturais e fazia relações improváveis, entre tecnologia, ética e comportamento humano.

Certa vez, durante um debate sobre redes sociais, afirmou:

— O homem moderno não busca mais a verdade. Busca apenas aprovação coletiva em velocidade instantânea.

A sala ficou em silêncio.  Alguns riram com ironia.  Outros o chamaram de pretensioso.

Heleno apenas abaixou os olhos.                                                                    Nunca percebia quando ferira alguém.

Não entendia completamente, as regras invisíveis da convivência humana.

Foi nessa época que conheceu Renata.

Ela cursava Psicologia.

Não era a mulher mais bonita da universidade, mas havia nela uma serenidade, que o desarmava. Renata possuía a rara habilidade de ouvir, sem interromper.                                                                                              Enquanto todos tentavam responder rapidamente às questões do mundo, ela parecia interessada em compreender as pessoas.

Heleno apaixonou-se em silêncio.

Passava horas observando-a discretamente na biblioteca. Sabia os horários em que ela chegava, os livros que pegava, até a maneira como prendia os cabelos, quando estava concentrada.

Mas jamais conseguia aproximar-se.

A simples ideia de falar com ela, lhe provocava uma espécie de colapso interior.

Sua inteligência extraordinária desaparecia, diante da possibilidade do afeto.

Podia discutir Kant, inteligência artificial ou metafísica, com absoluta naturalidade. Porém, tornava-se incapaz de pronunciar uma frase simples diante dela.

Muitas vezes Renata o cumprimentava sorrindo:

— Oi, Heleno, tudo bem?

E ele respondia apenas:

— Oi.

Depois, passava o restante do dia analisando mentalmente aquela única palavra, tentando entender, por que sua voz havia saído tão baixa, ou por que não conseguira continuar a conversa.

Numa noite chuvosa, após uma palestra sobre tecnologia e comportamento social, Heleno permaneceu sozinho no auditório vazio, organizando seus papéis.

Renata aproximou-se lentamente.

— Você realmente acredita que a tecnologia vai tornar as pessoas mais solitárias?

Ele demorou alguns segundos para responder.

— Acho que ela apenas revela uma solidão que sempre existiu.

Renata ficou olhando para ele.

Pela primeira vez, Heleno sustentou o olhar de alguém sem desviar imediatamente.

Ela percebeu então, algo que os outros nunca haviam entendido.

Por trás da inteligência assustadora, existia um homem, profundamente perdido dentro de si mesmo.

Um homem que compreendia teorias complexas, mas não sabia atravessar a distância simples entre duas pessoas.

— Deve ser difícil, pensar tanto, o tempo inteiro — disse ela, suavemente.

Heleno sorriu de maneira quase triste.

— O problema não é pensar demais… — respondeu. 

— O problema é não conseguir parar.  E fez um gesto que insinuava a dificuldade de evitar a permanência da reflexão.

A chuva aumentava lá fora.

Os corredores da universidade estavam vazios.

E naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, Heleno sentiu que alguém não estava tentando testá-lo, admirá-lo ou combatê-lo.

Alguém apenas o enxergava.

E isso, para ele, era muito mais assustador do que qualquer pergunta difícil do mundo.

A decisão surgiu silenciosamente, como quase tudo na vida de Heleno.

Não houve despedidas emocionadas, nem anúncios dramáticos. Apenas deixou a universidade, afastou-se dos debates acadêmicos e recolheu seus livros mais importantes, em algumas caixas antigas.                                        Os professores estranharam. Alguns colegas imaginaram um colapso nervoso. Outros disseram que era arrogância intelectual.

Nenhum deles compreendeu.  Heleno apenas estava cansado.  

Cansado das discussões vazias, travestidas de profundidade. Cansado das disputas por reconhecimento. Cansado de perceber que muitos falavam sobre a existência, sem jamais realmente observar a vida.

Foi então para a antiga chácara da família, localizada no interior, distante da cidade e dos corredores universitários.                                                            O lugar permanecia quase abandonado, desde a morte do avô. Havia uma casa simples de alpendre largo, um açude antigo, precisando de reparos. Árvores de cajueiro e longos silêncios, interrompidos apenas pelo vento farfalhando as folhagens, e pelos pássaros com seus cantos matinais e vespertinos...

Nos primeiros meses, Heleno viveu isolado.  O silêncio e a solidão, nunca experimentados, um estado muito diferente do que viveu na cidade, onde o ruido estrondoso, faz parte da paisagem urbana, edificada e cortada por ruas e avenidas, onde centenas de automóveis trafegam, fatiando o espaço nervosamente com seus motores.

Acordava cedo, caminhava por trilhas de terra batida, e passava horas lendo à sombra das árvores. À noite, observava o céu com uma espécie de reverência silenciosa, movido por um sentimento quase místico, quase religioso.

Pela primeira vez se deu conta de um desconhecido infinito absurdamente sombrio e escuro, salpicado de pontos luminosos, estrelas cuja luminosidade, que chegava agora às suas retinas, devia ter viajado, até aquele momento, milhares ou milhões de anos.

Aos poucos, porém, começou a notar algo estranho: o silêncio do campo não era vazio como imaginava.

Havia vida nele.  Uma vida diferente, daquela que conhecera na cidade.

Foi assim que conheceu seu Anselmo, um agricultor de mãos endurecidas pelo trabalho e olhar tranquilo. O velho costumava passar diante da chácara conduzindo um pequeno carro de mão, cheio de ferramentas.

Numa tarde, vendo Heleno sentado sozinho perto da cerca, perguntou:

— O senhor pensa muito, não é?

Heleno sorriu discretamente.

— Talvez mais do que deveria.

Anselmo apoiou os braços na cerca.

— Pensar demais é igual enxada sem cabo. A gente até tem ferramenta, mas não consegue usar direito.

Heleno ficou em silêncio.

Durante anos, ouvira conferências sofisticadas sobre o sofrimento humano, angústia existencial e consciência. Mas aquela frase simples, o atingira de maneira inesperada.

Depois desse dia, as conversas ficaram frequentes.

Heleno aproximou-se lentamente das pessoas do lugar: dona Zulmira, que perdera dois filhos e ainda assim mantinha uma serenidade impressionante; Joaquim pescador, que falava sobre o tempo, como quem compreendia os movimentos secretos do mundo; e Maria Pequena, uma senhora analfabeta que costumava dizer:

— Deus escreve reto até nas vidas tortas da gente.

Nenhum deles conhecia Sartre, Heidegger ou Kierkegaard.

Mas todos conheciam a dor.  E sobretudo conheciam a permanência.

Certa noite, sentado próximo à fogueira improvisada, diante da casa de seu Anselmo, Heleno perguntou:

— O senhor nunca teve medo de que a vida não tenha sentido?

O velho demorou um pouco antes de responder. Continuou olhando o fogo.

— Moço… acho que sentido não é coisa que a gente encontra. É coisa que a gente faz enquanto vive.

Heleno sentiu um desconforto estranho.

Passara metade da vida buscando definições abstratas para perguntas, que aquelas pessoas respondiam vivendo.

Sem teorias.  Sem pretensão.  Sem necessidade de parecer inteligentes.

Com o tempo, começou a participar mais da rotina do lugar. Ajudava na colheita, consertava máquinas antigas, ensinava crianças da pequena vila a ler e escrever. E, pela primeira vez em muitos anos, percebeu algo inesperado:

Sua mente descansava.

Os habitantes da região não o admiravam por sua inteligência. Não o temiam. Não competiam com ele. Tratavam-no apenas, como mais um homem tentando compreender a própria vida.

Isso lhe trouxe uma paz desconhecida.

Numa manhã de inverno, enquanto observava o sol nascer atrás das árvores secas, Heleno percebeu que durante anos confundira profundidade com complexidade.

As pessoas simples dali, falavam da morte sem desespero; do sofrimento sem revolta; e da esperança, sem necessidade de explicações sofisticadas.

Havia uma sabedoria silenciosa naquelas vidas comuns.

Uma espécie de filosofia invisível, profunda, sem complexidades.

Então compreendeu algo que jamais aprendera na universidade:

A inteligência podia iluminar perguntas.Mas era a simplicidade que muitas vezes permitia suportar as respostas.

Pela primeira vez em muito tempo, Heleno sentiu que talvez estivesse, finalmente, começando a entender os seres humanos.


......................

 Escrever um conto sobre uma criança excepcional, cuja inteligência assobrava os adultos, sempre que a testavam com perguntas ou questões, com elevado grau de dificuldade.

Os primeiros sinais foram registrados na escola, quando o professor notou que Heleno, se destacava pela precisão com que respondia às questões nas provas, muitas vezes apresentando respostas fora do padrão natural de crianças da sua idade.

Os pais foram alertados, apontando que Heleno precisava de mais atenção, pois sua inteligência estava fora da média normal dos seus coleguinhas.

Com o tempo, Heleno cresceu, entrou para a Universidade, onde cursou Filosofia, seguindo-se posteriormente seu interesse pelas novas tecnologias que  surgiam.  Os efeitos sociais de sua inteligência, criaram os primeiros problemas de convivência e adaptação com os colegas, que não entendiam o tratamento que dava às questóes culturais, políticas e filosóficas, dada a forma como as abordava, com profundidade. E sobretudo pelo fato de não participar dos eventos sociais próprios da idade. Apaixonado por Renata, mas cuja timidez o impedia aproximar-se e demonstrar seu interesse por ela.

............................................

Os primeiros sinais apareceram cedo, quando Heleno ainda mal alcançava a borda da carteira da escola. Tinha apenas sete anos, mas respondia às perguntas do professor com uma segurança desconcertante, como se as respostas já existissem prontas em algum lugar secreto da sua mente.

Na pequena escola do bairro, a professora Marta foi a primeira a perceber que havia algo incomum naquele menino magro, silencioso e de olhos sempre atentos.

Certa manhã, durante uma aula de ciências, ela decidiu brincar com a turma:

— Se a Terra gira tão rápido, por que nós não sentimos o movimento?

As crianças deram respostas confusas, algumas engraçadas. Um menino disse que era porque “o chão segurava a gente”. Outra falou que Deus mantinha tudo parado.

Heleno levantou a mão lentamente.

— Porque nós giramos junto com ela, professora. O movimento constante deixa de ser percebido. É parecido com estar dentro de um trem muito suave. Só percebemos, quando existe mudança de velocidade.

A professora ficou imóvel por alguns segundos.

Não era apenas a resposta.

Era a forma.

A precisão.

A linguagem.

Ela recordava-se nitidamente do silêncio que tomou a sala naquele instante. Algumas crianças riram, sem entender completamente o que ele havia dito. Outras o olharam como se fosse um estranho.

Depois daquele dia, Marta começou a observá-lo mais atentamente.

Nas provas, Heleno não apenas acertava as questões: frequentemente escrevia comentários adicionais, explicações que iam além do conteúdo exigido. Em uma redação sobre “o futuro”, escreveu:

“Talvez o maior problema da humanidade não seja a falta de tecnologia, mas a incapacidade emocional de lidar com aquilo que ela cria.”

Tinha nove anos.

A professora levou o caderno à diretoria.

Os pais foram chamados.

Seu Álvaro e dona Celina chegaram preocupados, imaginando alguma travessura do filho. Encontraram, porém, professores confusos, quase fascinados.

— O menino precisa de atenção especial — disse a diretora. 

— A inteligência dele está muito acima da média das outras crianças.

A mãe sorriu, orgulhosa.

O pai permaneceu em silêncio.

No caminho para casa, perguntou ao menino:

— Como você aprende essas coisas?

Heleno olhou pela janela do carro antes de responder:

— Eu não sei. Só penso nelas.


Com o passar dos anos, a diferença entre Heleno e os demais tornou-se impossível de esconder.

Enquanto os colegas discutiam futebol, músicas ou festas, ele passava horas lendo filosofia, história, física teórica e sociologia. Aos quinze anos já havia lido Platão, Nietzsche, Schopenhauer e Hannah Arendt. Aos dezesseis, interessou-se pelas primeiras transformações tecnológicas trazidas pela inteligência artificial e pelas redes digitais que começavam a modificar o comportamento humano.

Seu quarto parecia uma pequena biblioteca desorganizada.

Livros empilhados no chão.

Papéis anotados.

Fios de computadores antigos.

Monitores desmontados.

Anotações filosóficas misturadas a esquemas eletrônicos.

Mas a inteligência que impressionava os adultos produzia um efeito estranho entre os jovens da sua idade.

Heleno não sabia conviver.

Ou talvez não conseguisse.

As conversas comuns lhe pareciam superficiais demais. Não por arrogância — embora muitos o acusassem disso — mas porque seu pensamento avançava para lugares onde os outros raramente desejavam ir.

Na universidade, onde ingressou muito cedo no curso de Filosofia, o isolamento aumentou.

Os professores admiravam sua capacidade analítica.

Os alunos o evitavam.

Em seminários, Heleno desmontava argumentos inteiros com uma tranquilidade desconcertante. Questionava teorias políticas, criticava modelos culturais e fazia relações improváveis entre tecnologia, ética e comportamento humano.

Certa vez, durante um debate sobre redes sociais, afirmou:

— O homem moderno não busca mais a verdade. Busca apenas aprovação coletiva em velocidade instantânea.

A sala ficou em silêncio.

Alguns riram com ironia.

Outros o chamaram de pretensioso.

Heleno apenas abaixou os olhos.

Nunca percebia quando ferira alguém.

Não entendia completamente as regras invisíveis da convivência humana.


Foi nessa época que conheceu Renata.

Ela cursava Psicologia.

Não era a mulher mais bonita da universidade, mas havia nela uma serenidade que o desarmava. Renata possuía a rara habilidade de ouvir sem interromper. Enquanto todos tentavam responder rapidamente às questões do mundo, ela parecia interessada em compreender as pessoas.

Heleno apaixonou-se em silêncio.

Passava horas observando-a discretamente na biblioteca. Sabia os horários em que ela chegava, os livros que pegava, até a maneira como prendia os cabelos quando estava concentrada.

Mas jamais conseguia aproximar-se.

A simples ideia de falar com ela lhe provocava uma espécie de colapso interior.

Sua inteligência extraordinária desaparecia diante da possibilidade do afeto.

Podia discutir Kant, inteligência artificial ou metafísica com absoluta naturalidade. Porém, tornava-se incapaz de pronunciar uma frase simples diante dela.

Muitas vezes Renata o cumprimentava sorrindo:

— Oi, Heleno.

E ele respondia apenas:

— Oi.

Depois passava o restante do dia analisando mentalmente aquela única palavra, tentando entender por que sua voz havia saído tão baixa ou por que não conseguira continuar a conversa.


Numa noite chuvosa, após uma palestra sobre tecnologia e comportamento social, Heleno permaneceu sozinho no auditório vazio, organizando seus papéis.

Renata aproximou-se lentamente.

— Você realmente acredita que a tecnologia vai tornar as pessoas mais solitárias?

Ele demorou alguns segundos para responder.

— Acho que ela apenas revela uma solidão que sempre existiu.

Renata ficou olhando para ele.

Pela primeira vez, Heleno sustentou o olhar de alguém sem desviar imediatamente.

Ela percebeu então algo que os outros nunca haviam entendido.

Por trás da inteligência assustadora, existia um homem profundamente perdido dentro de si mesmo.

Um homem que compreendia teorias complexas, mas não sabia atravessar a distância simples entre duas pessoas.

— Deve ser difícil pensar tanto o tempo inteiro — disse ela, suavemente.

Heleno sorriu de maneira quase triste.

— O problema não é pensar demais… — respondeu. — O problema é não conseguir parar.

A chuva aumentava lá fora.

Os corredores da universidade estavam vazios.

E naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, Heleno sentiu que alguém não estava tentando testá-lo, admirá-lo ou combatê-lo.

Alguém apenas o enxergava.

E isso, para ele, era muito mais assustador do que qualquer pergunta difícil do mundo.

A decisão surgiu silenciosamente, como quase tudo na vida de Heleno.

Não houve despedidas emocionadas, nem anúncios dramáticos. Apenas deixou a universidade, afastou-se dos debates acadêmicos e recolheu seus livros mais importantes, em algumas caixas antigas.                                        Os professores estranharam. Alguns colegas imaginaram um colapso nervoso. Outros disseram que era arrogância intelectual.

Nenhum deles compreendeu.                                                                                Heleno apenas estava cansado.

Cansado das discussões vazias, travestidas de profundidade. Cansado das disputas por reconhecimento. Cansado de perceber que muitos falavam sobre a existência, sem jamais realmente observar a vida.

Foi então para a antiga chácara da família, localizada no interior, distante da cidade e dos corredores universitários. O lugar permanecia quase abandonado, desde a morte do avô.                                                                Havia uma casa simples de alpendre largo, um açude antigo, precisando de alguns reparos, árvores de cajueiro e longos silêncios, interrompidos apenas pelo vento no farfalhar da folhagens, e pelos pássaros.

Nos primeiros meses, Heleno viveu isolado.  A solidão assim, nunca experimentada em sua vida, relativamente agitada e cheia de ocupações de diversas ordens, bateu forte na inexistente rotina, subitamente vazia.  Heleno sentiu a urgência de organizar a nova forma de olhar e passar as horas, de propor um novo ritmo, um novo compasso no espaço, que aparentemente, se mostrava ocioso.

Acordava cedo, caminhava pelos arredores e passava horas lendo à sombra das árvores. À noite, observava o céu com uma espécie de reverência silenciosa. Pela primeira vez se deu conta do infinito e das miríades de estrelas. Aos poucos, porém, começou a notar algo estranho: o silêncio do campo não era vazio como imaginava.

Havia vida nele.  Uma vida diferente daquela que conhecera na cidade. Uma vida que não se projetava para fora. Uma vida que se interioriza, e que exige um modo de olhar para dentro de si, incompatível com a vida citadina, em que não nos damos conta de que há um sujeito subjetivo, habitando as dobras ocultas do silencio interior.

Caminhando pelos arredores, conheceu seu Anselmo, um agricultor de mãos endurecidas pelo trabalho e olhar tranquilo. O velho costumava passar diante da chácara, conduzindo um pequeno carro de mão cheio de ferramentas.

Numa tarde, vendo Heleno sentado sozinho perto da cerca, perguntou:

— O senhor pensa muito, não é?

Heleno sorriu discretamente.

— Talvez mais do que deveria.

Anselmo apoiou os braços na cerca.

— Pensar demais é igual enxada sem cabo. A gente até tem ferramenta, mas não consegue usar direito.

Heleno ficou em silêncio.

Durante anos ouvira conferências sofisticadas sobre sofrimento humano, angústia existencial e consciência. Mas aquela frase simples o atingira de maneira inesperada.

Depois desse dia, começaram conversas frequentes.

Heleno aproximou-se lentamente das pessoas do lugar: dona Zulmira, que perdera dois filhos e ainda assim mantinha uma serenidade impressionante; Joaquim pescador, que falava sobre o tempo, como quem compreendia os movimentos secretos do mundo; e Maria Pequena, uma senhora analfabeta, que costumava dizer:

— Deus escreve reto até nas vidas tortas da gente.

Nenhum deles conhecia Sartre, Heidegger ou Kierkegaard.

Mas todos conheciam a dor.  E sobretudo conheciam a permanência.

Certa noite, sentado próximo à fogueira improvisada diante da casa de seu Anselmo, Heleno perguntou:

— O senhor nunca teve medo de que a vida não tenha sentido?

O velho demorou um pouco, antes de responder. Continuou olhando o fogo.

— Moço… acho que sentido não é coisa que a gente encontra. É coisa que a gente faz enquanto vive.

Heleno sentiu um desconforto estranho.

Passara metade da vida buscando definições abstratas, para perguntas que aquelas pessoas respondiam vivendo.

Sem teorias.  Sem pretensão.  Sem necessidade de parecer inteligentes.

Com o tempo, começou a participar mais da rotina do lugar. Ajudava na colheita, consertava máquinas antigas, ensinava crianças da pequena vila a ler e escrever. E, pela primeira vez em muitos anos, percebeu algo inesperado:

Sua mente descansava.

Os habitantes da região não o admiravam por sua inteligência. Não o temiam. Não competiam com ele. Tratavam-no, apenas, como mais um homem tentando compreender a própria vida.

Isso lhe trouxe uma paz desconhecida.

Numa manhã de inverno, enquanto observava o sol nascer atrás das árvores secas, Heleno percebeu que durante anos, confundira profundidade com complexidade.

As pessoas simples dali, falavam da morte sem desespero, do sofrimento sem revolta, e da esperança, sem necessidade de explicações sofisticadas.

Havia uma sabedoria silenciosa, naquelas vidas comuns.

Uma espécie de filosofia invisível.

Então compreendeu algo que jamais aprendera na universidade:  a inteligência podia iluminar perguntas.  Mas era a simplicidade, que muitas   vezes permitia suportar as respostas.

E pela primeira vez em muito tempo, Heleno sentiu que talvez estivesse finalmente, começando a entender os seres humanos.

mario moura

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O JOGO DE XADREZ

VOLUME 01 DO LIVRO PEQUENAS HISTÓRIAS SEM TESTEMUNHAS

SOBRE A IMBECILIDADE CONTEMPORÂNEA: um pequeno ensaio e um conto ilustrativo