O PREGADOR (em revisão)
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Escrever um conto sobre o personagem, Clarindo, que acreditava que o mundo estava passando por grandes transformações, e que já estava em andamento grandes mudanças na sociedades, segundo as profecias. Crente fervoroso, Clarindo iniciou uma pregação em praças públicas, no sentido de alerta as pessoas para o que estava por vir. Acreditava que grandes transformações econòmicas e sociais já haviam começado, e as pessoas não percebiam. Suas pregações proféticas atraiam principalmente, um público desocupado, de pouca instrução, geralmente desempregados, ambulantes e pedintes, que por esperteza viviam de explorar a boa fé das pessoas. Com o passar do tempo, alguns agitadores infiltraram-se na multidão de ouvintes, e passaram a acusar Clarindo, aos gritos, de charlatão e mentiroso. A multidão, com o tempo, incitada pelos agitadores, lincharam Clarindo, quase o matando, não fora a intervenção da polícia. Clarindo representou o último dos pregadores anônimos, sem uma religiã.
O PREGADOR
Clarindo surgiu nas praças como surgem certos homens destinados ao espanto: sozinho, sem nome conhecido, sem igreja, sem proteção. Vestia roupas simples, sempre gastas pelo tempo, carregava uma Bíblia amarelada debaixo do braço e falava como quem havia visto algo terrível atrás do horizonte.
Ninguém sabia exatamente de onde vinha. Uns diziam que fora funcionário público; outros juravam que vivera anos isolado no interior, lendo livros de profecias e jornais velhos. O certo era que Clarindo apareceu de repente, numa manhã abafada de domingo, na praça principal da cidade, anunciando que o mundo já estava mudando — e que quase ninguém percebia.
— O dinheiro vai perder seu valor! — gritava ele, de pé sobre um caixote de madeira. — As pessoas venderão a alma por comida! As máquinas mandarão nos homens! As famílias vão se desfazer! O povo será guiado pelo medo!
No começo, os transeuntes apenas riam. Alguns paravam por curiosidade. Outros o chamavam de louco. Mas Clarindo continuava. Dia após dia. Sob o sol, debaixo de chuva, cercado pelo barulho dos ônibus e vendedores ambulantes.
Com o tempo, um público fixo passou a acompanhá-lo.
Eram homens desempregados, mulheres cansadas da vida, pedintes, vendedores de bugigangas, gente esquecida pelos governos e pelas igrejas. Muitos não acreditavam inteiramente no que Clarindo dizia, mas gostavam da sensação de pertencer a alguma coisa. Havia também os espertalhões habituais: sujeitos que exploravam a boa-fé alheia, fingindo devoção para arrancar moedas dos ouvintes emocionados.
Clarindo não percebia.
Ou fingia não perceber.
Sua voz crescia a cada semana. Falava de colapsos econômicos, de governos secretos, de um tempo em que as pessoas perderiam a capacidade de distinguir verdade e mentira. Dizia que a humanidade caminhava para um novo tipo de escravidão, invisível e silenciosa.
— As correntes do futuro não serão de ferro! — anunciava. — Serão feitas de dependência, medo e ilusão!
Alguns choravam ouvindo-o.
Outros apenas observavam, em silêncio.
A praça transformou-se num palco estranho, onde fé, miséria e desespero se misturavam.
Foi então que apareceram os agitadores.
Ninguém soube de onde vieram. Surgiram entre a multidão como homens comuns. Primeiro, ouviam calados. Depois começaram a rir durante as pregações. Em seguida passaram aos insultos.
— Charlatão!
— Mentiroso!
— Vagabundo!
Clarindo tentava continuar falando, mas os gritos cresciam. Os agitadores eram hábeis: inflamavam os ânimos, atiçavam os mais nervosos, espalhavam boatos de que o pregador recolhia dinheiro escondido, de que manipulava os pobres, de que queria formar uma seita.
A multidão, que antes o escutava com reverência, começou a olhá-lo com desconfiança.
Numa tarde cinzenta de sexta-feira, tudo explodiu.
Clarindo falava sobre uma grande transformação social que, segundo ele, já estava em andamento. Dizia que as pessoas estavam perdendo a própria humanidade sem perceber.
— O homem moderno já não pensa! Apenas obedece! — gritou.
Foi quando uma pedra o atingiu no rosto.
O sangue escorreu imediatamente.
Os agitadores avançaram aos berros.
— Peguem o falso profeta!
Em poucos segundos, a praça virou um caos. Empurrões, socos, pontapés. Clarindo caiu no chão tentando proteger a cabeça com os braços magros. A multidão o golpeava com uma fúria antiga, como se precisasse destruir nele alguma verdade insuportável.
Talvez o matassem ali mesmo, diante dos camelôs e dos pombos assustados, não fosse a chegada repentina da polícia.
Os soldados dispersaram o povo com violência. Encontraram Clarindo quase inconsciente, o rosto desfigurado, a roupa coberta de sangue e poeira.
Foi levado numa ambulância sem sirene.
Depois disso, nunca mais voltou à praça.
Alguns afirmaram que morreu dias depois no hospital. Outros disseram que partira para outra cidade, continuando suas pregações em lugares distantes. Houve quem jurasse tê-lo visto anos depois, envelhecido e silencioso, sentado num banco de rodoviária, observando as pessoas com tristeza.
Com o tempo, seu nome desapareceu.
Mas certas frases permaneceram na memória de poucos:
“Os homens só acreditam na mudança quando ela já destruiu tudo.”
Clarindo representou o último dos pregadores anônimos. Não fundou religião, não deixou discípulos, não ergueu templos.
Pregava apenas porque acreditava.
E talvez tenha sido justamente isso que o tornou perigoso.
mario moura
(do livro Pequenas histórias sem testemunhas)
A violência das multidões quase nunca nasce de repente. Ela permanece adormecida nas frustrações, nos ressentimentos e nos instintos mais primitivos do ser humano, esperando apenas alguém que lhe aponte um alvo. Quando isso acontece, o indivíduo deixa de pensar como pessoa e passa a agir como parte de um corpo irracional, movido pelo impulso coletivo. A consciência desaparece dentro do tumulto.
A multidão possui uma natureza perigosa justamente porque dilui a responsabilidade. Cada homem acredita que sua violência é pequena diante da violência geral. Assim, o absurdo torna-se aceitável. O grito substitui o pensamento. A emoção destrói o julgamento. E a crueldade passa a ser vista como justiça.
Basta um acusador exaltado, um boato conveniente, uma palavra de ordem repetida muitas vezes, para que a massa escolha seus inimigos. Pode ser um homem sozinho, como Clarindo. Pode ser um grupo religioso, estrangeiros, pobres, comerciantes, lojas ou qualquer símbolo transformado em alvo da fúria coletiva. O importante não é a verdade, mas a necessidade da multidão de descarregar seus medos e frustrações sobre alguém.
A multidão raramente busca compreender. Ela busca punir.
Por isso se comporta como um rebanho desordenado: segue o primeiro grito, repete a primeira acusação, corre atrás do primeiro gesto de violência. O homem isolado talvez hesite diante da injustiça; a massa, porém, sente-se poderosa justamente porque ninguém responde individualmente pelos seus atos. Nesse estado, desaparecem a sensatez, a compaixão e até o medo moral.
Foi assim com Clarindo.
Enquanto falava sozinho, era apenas um homem pobre, pregando numa praça. Mas, quando a multidão decidiu enxergá-lo como ameaça, deixou de existir o pregador, o ser humano, o indivíduo. Restou apenas o alvo.
E toda multidão precisa de um alvo.
Talvez essa seja a parte mais sombria da natureza humana: a facilidade com que homens comuns, reunidos em grupo, podem transformar-se numa força brutal, irracional e destrutiva — convencidos, ainda assim, de que estão certos.
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