AS DIFÍCEIS MARCAS DA VIDA
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Escrever um conto sobre um casal, Otávio e Debora
Ao anoitecer, Otávio chamou o garçon para pedir a conta. Já estava na cafeteria há mais de duas horas, tentando compreender por quais caminhos , seu casamento chegara a exaustão e a perda dos sentimentos, que há 18 anos sobrevivera a várias dificuldades financeiras, quando esteve desempregado, e emocionais, divergências pontuais sobre o excessivo controle de Joana, que invadia certos dominios de Otávio, além dos miúdos desentendimentos cotidianos de qualquer casal. Discussões sobre a educação dos filhos, tinham um casal, João 21 anos, e Sofia 18, algumas vezes sobre temas relevantes, como por exemplo a excessiva liberdade que Débora consentia a Sofia. Relações esgotadas, desentendimentos por qualquer bobagem e coisas miúdas que danificam os elos da união. Miudas e invisíveis questiúnculas insondáveis.
Ao anoitecer, Otávio chamou o garçom para pedir a conta. A xícara de café já estava fria havia muito tempo, assim como certas palavras dentro dele. Permanecera por mais de duas horas naquela cafeteria do centro, observando as pessoas atravessarem a rua, através da vidraça embaçada, enquanto tentava compreender por quais caminhos seu casamento chegara à exaustão.
Vinte anos. Era tempo suficiente para construir uma vida inteira. E também, descobrira ele, para desgastar silenciosamente o amor, até que restassem apenas hábitos, obrigações e um estranho vazio entre duas pessoas, que um dia juraram caminhar juntas.
Ele ainda se lembrava dos primeiros anos com Débora. O apartamento pequeno, o ventilador barulhento, as contas atrasadas e os risos durante o jantar improvisado com pão, ovos e café. Havia ternura na pobreza.
Quando perdeu o emprego, ela sustentou a casa durante quase oito meses sem reclamar. Quando ela perdeu o pai, Otávio dormiu sentado ao lado dela no hospital por três noites seguidas. Haviam sobrevivido juntos.
Mas sobreviver não significava permanecer intactos.
Com o tempo, Débora passou a controlar tudo: os horários, os amigos, os gastos, até os silêncios dele. Otávio, que sempre fora reservado, começou a sentir que dentro da própria casa precisava pedir licença para existir. As discussões surgiam por qualquer coisa: a toalha esquecida na cama, o volume da televisão, a demora no banho, uma resposta atravessada.
Depois vieram os filhos.
João crescera depressa demais. Aos vinte e um anos, mal aparecia em casa. Sofia, aos dezoito, era o centro das maiores divergências do casal. Débora permitia quase tudo à filha — festas, viagens, noites fora sem explicações — enquanto Otávio insistia que liberdade sem responsabilidade era abandono disfarçado de modernidade.
As conversas terminavam invariavelmente em acusações antigas.
— Você sempre exagera.
— E você nunca se importa.
Palavras repetidas tantas vezes que já haviam perdido o significado original, restando apenas o cansaço.
Otávio pagou a conta lentamente. Antes de sair, percebeu que seu celular vibrava sobre a mesa. Era uma mensagem de Débora.
“Você vem jantar?”
Ele ficou olhando para a tela por alguns segundos. Simples. Fria. Prática. Como dois colegas dividindo um apartamento.
Guardou o celular no bolso sem responder.
Do lado de fora, a cidade começava a acender suas luzes. Havia casais caminhando pela calçada, mãos dadas, jovens rindo em mesas de bar, um violinista tocando perto da praça. O mundo seguia vivo, indiferente à ruína silenciosa de um casamento.
Otávio começou a caminhar sem direção.
Pensou em quantas vezes acreditara que amor era resistência. Que bastava insistir, suportar, permanecer. Mas talvez o amor também precisasse de cuidado diário, de pequenas delicadezas que eles haviam deixado morrer entre boletos, cansaço e orgulho.
Quando chegou perto do viaduto, a chuva começou fina, quase tímida. Ele parou sob a marquise de uma loja fechada e, pela primeira vez em muitos meses, chorou.
Não pelo fim.
Mas pelo começo que haviam perdido.
Naquele instante, o celular voltou a vibrar.
Outra mensagem de Débora.
“João perguntou de você. E… eu também.”
Otávio fechou os olhos.
Havia algo naquela reticência antes do “eu também” que não parecia obrigação. Parecia medo. Talvez solidão. Talvez o mesmo vazio que o acompanhara a tarde inteira.
Ele respirou fundo e digitou devagar:
“Estou voltando.”
Não sabia se ainda existia amor suficiente para salvá-los. Nem se dezoito anos poderiam ser reconstruídos a partir de duas pessoas cansadas.
Mas, naquela noite chuvosa, pela primeira vez em muito tempo, havia ao menos uma tentativa.
Otávio chegou em casa pouco antes das dez da noite. A chuva continuava fina, escorrendo pelos vidros da sala. Encontrou a luz da cozinha acesa e Débora sentada à mesa, ainda com a roupa do trabalho, mexendo distraidamente numa xícara de chá já frio.
Ela ergueu os olhos quando ele entrou.
Nenhum dos dois sorriu.
Mas também não havia hostilidade.
Apenas um silêncio cansado de guerra.
— Pensei que você não viria — disse ela, numa voz baixa.
Otávio tirou a jaqueta molhada e sentou-se diante dela.
— Eu também pensei nisso.
Débora desviou o olhar. Pela primeira vez em muito tempo, parecia frágil. Não a mulher firme que controlava tudo dentro de casa, mas alguém igualmente perdido.
Durante alguns segundos, apenas o som da chuva preenchia a cozinha.
Então ela falou:
— Nós estamos nos destruindo aos poucos, não estamos?
Otávio respirou fundo antes de responder.
— Acho que faz tempo.
Ela assentiu devagar.
— Eu não sei exatamente quando começamos a virar estranhos.
— Talvez quando paramos de conversar de verdade.
Débora apoiou os braços sobre a mesa.
— Eu conversava.
Ele balançou a cabeça com calma.
— Não… você decidia. Tem diferença.
As palavras pairaram entre os dois, pesadas, mas honestas.
Pela primeira vez, ela não reagiu com irritação.
Apenas ouviu.
— Eu sei que você acha que eu controlo tudo — disse ela depois de algum tempo. — E talvez controle mesmo. Mas eu fazia isso porque sentia medo.
Otávio franziu a testa.
— Medo de quê?
Os olhos dela marejaram discretamente.
— De perder nossa família. De perder você. De as coisas saírem do lugar.
Ele permaneceu em silêncio.
Débora continuou:
— Quando você ficou desempregado, eu precisei assumir tudo. As contas, as decisões, os problemas. Acho que nunca consegui devolver esse peso depois. Passei a acreditar que, se eu não controlasse tudo, nossa vida desmoronaria outra vez.
Otávio abaixou os olhos.
Nunca havia pensado por aquele ângulo.
— E eu fui me afastando — admitiu ele. — Porque comecei a sentir que minha opinião já não importava. Dentro da nossa casa, eu me sentia visitante.
Débora secou uma lágrima rapidamente.
— Eu não percebia que estava te machucando desse jeito.
— E eu também errei — disse ele. — Em vez de falar, eu me calei. Fui acumulando mágoas pequenas… até tudo virar uma distância enorme.
Ela soltou um riso triste.
— Brigávamos por coisas ridículas.
— Porque as coisas importantes já estavam quebradas.
Os dois ficaram quietos novamente.
Mas agora o silêncio não parecia muro.
Parecia espaço.
Débora olhou para ele com sinceridade cansada.
— Você ainda me ama?
Otávio demorou a responder.
Não porque tivesse dúvida.
Mas porque queria ser verdadeiro.
— Amo. Só estava perdido dentro do que nós viramos.
Ela fechou os olhos por um instante, como quem segurava o próprio coração.
— Eu também amo você.
Aquelas palavras não tinham o brilho apaixonado da juventude. Eram mais profundas do que isso. Vinham marcadas pelo desgaste, pelas cicatrizes, pelos anos difíceis que atravessaram juntos.
E talvez justamente por isso fossem reais.
Otávio estendeu lentamente a mão sobre a mesa.
Débora hesitou apenas um segundo antes de segurá-la.
As mãos dos dois permaneceram unidas em silêncio.
— Nós precisamos mudar algumas coisas — disse ele. — De verdade.
Ela concordou.
— Sem orgulho dessa vez.
— Sem transformar tudo em disputa.
— Sem esquecer que somos do mesmo lado.
Otávio apertou levemente os dedos dela.
— Acho que ainda dá tempo.
Débora sorriu pela primeira vez naquela noite. Um sorriso pequeno, emocionado, quase tímido.
— Talvez o amor não acabe de uma vez — disse ela. — Talvez ele só fique soterrado embaixo do cansaço.
A chuva diminuía lá fora.
Na sala, havia fotografias antigas espalhadas na estante: viagens simples, aniversários das crianças, natais apertados financeiramente e felizes mesmo assim. Uma vida inteira construída entre erros e afetos.
Otávio levantou-se devagar e aproximou-se dela.
Débora encostou a cabeça em seu peito como não fazia havia muito tempo.
E, naquele abraço silencioso, ambos compreenderam que reconciliação, não era apagar as dores do passado.
Era escolher, apesar delas, continuar caminhando juntos.
Naquela noite, enquanto a cidade adormecia sob a chuva, Otávio e Débora começaram, enfim, a se reencontrar.
mario moura
(do livro Pequenas histórias sem testemunhas Ensaios e vagas anotações)
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