UMA ENTREVISTA MUITO DOIDA! (conto original, em revisão)
O psicologo Sérgio Siqueira, pesaquisador da mente humana, resolve entrevistar um louco, internado numa clinica psiquiatrica, com o objetivo de conhecer sua historia biografica, o que ele pensava sobre a vida, o mundo, as pessoas, a sociedade e sua organização, e se de fato se considerava um louco. Com seu gravador e um bloco de anotações, Sérgio iniciou uma conversa com Ambrósio, que serenamente se dispos a responder, sem hesitações.
UMA ENTREVISTA MUITO DOIDA!
— Diga-me, Ambrósio — iniciou Sérgio, ajustando o gravador sobre a mesa metálica da pequena sala branca — o senhor sabe por que está aqui?
Ambrósio sorriu discretamente, cruzando as mãos sobre o colo.
— Porque disseram que eu enlouqueci.
— E o senhor enlouqueceu?
— Depende de quem define a loucura, doutor.
Sérgio fez uma anotação rápida no bloco.
— Então, como o senhor definiria?
Ambrósio olhou pela janela gradeada antes de responder:
— Louco é o homem que vê o mundo como ele é e não consegue fingir que acredita no teatro dos outros.
O psicólogo ergueu os olhos, interessado.
— Explique melhor.
— Desde menino percebi que as pessoas vivem de máscaras. Dizem amar, mas competem. Dizem buscar justiça, mas adoram privilégios. Dizem defender a verdade, mas odeiam quem fala aquilo que não querem ouvir.
— Isso o incomodava?
— Muito. Passei anos tentando entender por que todos aceitavam isso naturalmente. Trabalhei, casei, tive amigos… ou algo parecido com amigos. Eu fingia normalidade para sobreviver.
— E quando isso mudou?
Ambrósio respirou fundo.
— Quando parei de fingir.
O silêncio tomou a sala por alguns segundos. Apenas o leve ruído do gravador preenchia o ambiente.
— O que aconteceu exatamente? — perguntou Sérgio.
— Comecei a dizer o que pensava. No trabalho, questionei corrupção. Na igreja, questionei hipocrisia. Em casa, perguntei por que as pessoas permanecem juntas mesmo sem amor. Aos poucos, todos passaram a me olhar como se eu fosse perigoso.
— E o senhor era?
Ambrósio sorriu novamente.
— Apenas sincero.
Sérgio percebeu que não havia agressividade naquele homem. Sua fala era calma, organizada, quase filosófica.
— O senhor acredita que a sociedade teme a sinceridade?
— Não a sinceridade, doutor… a consciência. Porque uma pessoa consciente faz os outros se sentirem nus.
O psicólogo recostou-se na cadeira.
— Então, na sua visão, quem são os verdadeiros loucos?
Ambrósio inclinou-se levemente para frente.
— Os que destroem a própria vida para impressionar desconhecidos. Os que trabalham sem viver. Os que confundem aparência com felicidade. Os que seguem multidões para não pensarem por conta própria.
— E o senhor se considera diferente?
— Não. Apenas cansado de mentir para mim mesmo.
Sérgio desligou o gravador por um instante. Pela primeira vez em muitos anos de profissão, sentiu dificuldade em distinguir quem estava sendo analisado naquela sala.
A biblioteca mergulhou num silêncio denso depois daquela constatação. O relógio na parede parecia excessivamente alto agora, marcando os segundos entre olhares inquietos e pensamentos mal resolvidos.
Nenhum deles admitiria facilmente, mas todos sentiam a mesma impressão desconfortável: em algum nível, haviam concordado com Ambrósio.
Augusto foi quem primeiro verbalizou aquilo que pairava no ambiente.
— Talvez o que mais nos perturbe seja o fato de que ele não está completamente errado.
Ninguém contestou.
JP soltou um suspiro cansado.
— Esse é o problema. Se ele fosse claramente delirante, tudo seria simples. Bastaria classificá-lo, encaixá-lo num diagnóstico e seguir em frente. Mas não… o homem descreve angústias humanas reais.
Alberto mantinha o olhar fixo no chão.
— O sofrimento existencial que ele descreve existe. Alienação social, hipocrisia, vazio emocional, vidas automatizadas… tudo isso aparece diariamente na clínica psicológica.
Renato cruzou os braços.
Renato falou com voz baixa:
— Nos tribunais também. Pessoas aparentemente normais desabando por dentro sem que ninguém perceba.
Sérgio observava os amigos cuidadosamente. O desconforto deles já não parecia apenas intelectual. Era pessoal.
Augusto levantou-se lentamente e caminhou até uma das estantes.
— Talvez exista um erro na forma como entendemos sanidade. Nós a confundimos com adaptação social.
Voltou-se para os demais.
— Um homem pode adaptar-se perfeitamente ao mundo e ainda assim estar profundamente adoecido. Outro pode sofrer justamente porque percebe demais as contradições ao redor.
Alberto respondeu quase imediatamente:
— Mas existe um limite perigoso aí. Se toda inconformidade virar sinal de lucidez superior, corremos o risco de romantizar o sofrimento psíquico.
— Não estou romantizando — respondeu Augusto. — Estou dizendo que talvez a linha entre lucidez e desajuste seja menos objetiva do que gostamos de acreditar.
JP aproximou-se da mesa lentamente.
— O curioso é que todos nós, em diferentes momentos da conversa, concordamos com ele espontaneamente… antes de saber onde ele estava internado.
Essa frase pareceu atingir todos ao mesmo tempo.
Porque era verdade.
Sem o rótulo de “paciente psiquiátrico”, Ambrósio lhes parecera apenas um homem profundamente sensível, filosófico e ferido pela existência.
Renato passou a mão pelo rosto cansado.
— Isso revela algo perturbador sobre nós mesmos. Talvez precisemos acreditar que certas pessoas são “loucas” para evitar encarar o quanto algumas críticas delas fazem sentido.
Alberto respirou fundo.
— E talvez também precisemos lembrar que alguém pode dizer verdades importantes e ainda assim estar mentalmente adoecido. As duas coisas não se anulam.
Sérgio assentiu lentamente.
— Sim… acho que é justamente isso que torna Ambrósio tão difícil de compreender.
O psicólogo caminhou até o gravador e pousou a mão sobre ele.
— Ele não fala como alguém desconectado da realidade. Fala como alguém excessivamente ferido por ela.
A chuva continuava caindo do lado de fora.
E naquela biblioteca cheia de diplomas, livros e certezas acadêmicas, cinco homens instruídos começavam a perceber algo profundamente inquietante:
talvez a diferença entre um homem considerado normal e outro chamado louco não estivesse apenas naquilo que pensavam… mas no quanto conseguiam suportar da própria consciência sem desmoronar.
Todos se levantaram em silêncio. Abraços, despedidas, promessas de novos encontros. Todos, porém, saiam carregando algo pesado e estranho dentro de suas mentes e corações... Sérgio, foi preparar algo para comer. Mastigava o sanduiche e as conversas recém encerradas. Ambos pareciam dificeis de engolir. Mas dava sinais de satisfação, pois que o encontro, resultara em grandes propostas filosóficas e existenciais. Aventou a ideia de escrever um ensaio sobre as fronteiras ou linhas imaginárias, que separavam a loucura da sanidade;
A porta se fechou lentamente atrás do último amigo.
O silêncio da casa pareceu imediatamente diferente — mais espesso, mais consciente. A biblioteca ainda guardava vestígios da reunião: copos pela metade, cinzeiros cheios, livros deslocados, anotações espalhadas sobre a mesa. Havia no ar aquela atmosfera rara de noites em que uma conversa ultrapassa o campo intelectual e toca regiões íntimas da existência.
Sérgio Siqueira permaneceu alguns instantes parado no centro da sala, ouvindo apenas a chuva e os próprios pensamentos.
Os amigos haviam partido em silêncio incomum. Abraços breves, olhares longos, despedidas discretas. Nenhum deles saíra indiferente.
Augusto parecia carregado por inquietações filosóficas difíceis de organizar. Alberto deixara a casa mais calado do que chegara, como se certos conceitos clínicos tivessem perdido nitidez. JP saíra fumando compulsivamente, incapaz de esconder o desconforto. E Renato mantivera até o fim aquele olhar grave de quem pressentia zonas perigosas demais dentro da mente humana.
Sérgio caminhou até a cozinha.
Preparou um sanduíche simples e serviu-se de mais café. Mastigava lentamente, mas percebia que tanto o alimento quanto as ideias daquela noite pareciam igualmente difíceis de engolir.
Ainda assim, havia satisfação.
Uma satisfação inquieta.
A entrevista com Ambrósio produzira algo raro: uma ruptura momentânea nas certezas de homens acostumados a interpretar o comportamento humano a partir de teorias, diagnósticos e conceitos consolidados.
Sentado sozinho à mesa, Sérgio abriu novamente o bloco de anotações.
Leu uma frase destacada entre riscos apressados:
“Talvez a normalidade seja apenas a forma mais comum de adaptação.”
Ficou olhando para aquilo por longos segundos.
Então começou a escrever novas palavras abaixo.
Não mais como clínico.
Nem exatamente como pesquisador.
Mas como alguém pessoalmente afetado.
Rabiscou possíveis títulos:
— A Geografia da Loucura
— Fronteiras da Consciência
— As Linhas Imaginárias Entre Sanidade e Delírio
— O Homem Que Pensava Demais
Parou.
Recostou-se na cadeira.
Quanto mais refletia, mais percebia que a questão central talvez não fosse descobrir se Ambrósio era louco.
Talvez a pergunta verdadeira fosse outra:
Em que momento uma sociedade decide que determinada forma de perceber a realidade tornou-se intolerável?
Sérgio levantou-se e caminhou lentamente até a janela da cozinha.
As ruas estavam vazias.
Por um instante, imaginou Ambrósio sozinho no quarto da clínica psiquiátrica enquanto, do lado de fora, milhares de pessoas dormiam tranquilamente acreditando pertencer ao lado seguro da normalidade.
Essa ideia produziu nele um calafrio.
Porque, pela primeira vez em muitos anos, já não tinha absoluta certeza de onde exatamente passava essa fronteira.
Repassou sem grande profundida alguns momentos históricos da humanidade, como o período teológico, em que a igreja dominara o pensamento, não permitindo qualquer outra interpretação, sob risco de serveras punições. A evolução das antigas sociedades com suas mitologias para explicar os fenômenos naturais e assim por diante. E o momento em que vivia, o contemporâneo, com suas novas formas de decodificar a realidade e o ser humano, com as tecnologias de ciencias fisicas e biologicas. cansado, adormeceu com um ivro sobre os joelhos
Sérgio Siqueira permaneceu sozinho na penumbra da biblioteca. O café esfriava lentamente ao lado das anotações espalhadas. O silêncio da madrugada parecia favorecer pensamentos longos e perigosos.
Sentado na poltrona, ele começou a percorrer mentalmente alguns momentos da história humana, como quem procura compreender se a ideia de normalidade sempre fora apenas uma construção transitória de cada época.
Pensou nas antigas civilizações.
Durante milênios, fenômenos naturais haviam sido explicados por mitologias. Raios eram manifestações divinas. Secas, castigos dos deuses. A loucura, muitas vezes, era entendida como possessão espiritual ou mensagem sobrenatural. Homens considerados visionários em determinadas culturas eram tratados como profetas; em outras, como amaldiçoados.
Depois veio o domínio teológico mais rígido.
Recordou-se da longa era em que a Igreja Católica exercera enorme controle sobre a interpretação do mundo ocidental. Questionar determinadas verdades podia significar perseguição, tortura ou morte. A realidade precisava caber dentro de um modelo aceito de explicação.
Sérgio pensou em quantos homens talvez tivessem sido considerados hereges apenas por enxergarem o mundo através de lentes diferentes das permitidas.
Então a humanidade avançou para novas formas de racionalidade.
A filosofia iluminista. O nascimento da ciência moderna. As revoluções industriais. O desenvolvimento da psiquiatria, da neurologia, da psicologia, da biologia molecular.
Agora, no mundo contemporâneo, as sociedades já não recorriam prioritariamente aos demônios ou aos deuses para explicar o comportamento humano. Utilizavam exames cerebrais, neurotransmissores, genética, traumas psíquicos, modelos comportamentais e algoritmos estatísticos.
Mas uma pergunta persistia.
Será que cada época apenas trocava sua linguagem dominante para decodificar o mistério humano?
Antes, o homem era julgado pela fé.
Agora, talvez, fosse julgado pelos critérios da funcionalidade social, produtividade, adaptação e estabilidade psicológica.
Sérgio fechou lentamente um dos livros sobre a mesa. Não conseguia ignorar a sensação de que toda civilização cria seus próprios limites invisíveis entre o aceitável e o inaceitável.
E talvez o conceito de loucura também mudasse silenciosamente junto com esses limites.
Olhou novamente para as anotações da entrevista com Ambrósio.
Aquela voz ainda parecia ecoar pela casa:
— “O homem consciente faz perguntas.”
Sérgio respirou fundo.
A exaustão finalmente começou a vencê-lo.
Pegou um livro antigo sobre história das ideias humanas, acomodou-se na poltrona e tentou continuar lendo. Mas as linhas começaram lentamente a perder nitidez diante dos olhos cansados.
A chuva diminuía lá fora.
O relógio avançava pela madrugada.
E enquanto pensamentos sobre religião, ciência, consciência e loucura ainda se misturavam em sua mente, Sérgio acabou adormecendo silenciosamente na poltrona, com o livro aberto sobre os joelhos e a luz amarela da biblioteca iluminando seu rosto inquieto.
mario moura
(do livro Pequenas histórias sem testemunhas Ensaios Vagas anotações)
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